sábado, 31 de dezembro de 2011

2012

Amigas e amigos, bom dia.
Mais um ano se passou, como diria o Cassiano. Novamente a expectativa em relação ao devir, novamente as mesmas questões em relação ao que queremos para o nosso hoje, pois o que era futuro transformou-se instantaneamente no presente.

Estamos novamente de frente pro gol, de frente para nós mesmos e, pior, o que vemos não é tão interessante assim. Vemos diante do espelho o mesmo de antes: os mesmos anseios loucos, as mesmas reações em relação aos que convivem conosco, as mesmas expectativas sem ação de anos anteriores.

Será que precisaremos de mais um milênio inteiro para compreender que não adianta só idealizar? será que necessitaremos de mais um milênio para acreditar que somos deuses e que temos luz interior para brilhar? será que não confiamos no que Jesus nos disse?

Estamos nesse processo de busca do desconhecido há milhares de anos, buscamos o desconhecido que nos foi apresentado por Jesus e não conseguimos ainda apreender o significado de suas palavras. Ficamos como crianças que ainda não conseguem andar, falar e, principalmente, concatenar o pensamento. Da criança interior que devemos ser guardamos apenas o egoísmo, a síndrome da criança de dois anos: tudo é meu.

Será que nunca faremos senão confirmar a incompetência da américa católica que sempre precisará de ridículos tiranos, como diria Caetano? E o pior, o tirano somos nós mesmos. Insistimos em nos manter iguais ano a ano e atribuímos isso à nossa personalidade, a fidelidade a nós mesmos, esquecendo que o traço característico do Universo, a sua grande igualdade, é que nada fica igual, tudo se transforma.


O medo que nos paralisa a existência tem que ser abandonado. Temos que pensar de maneira diferente, pois estamos pensando igual desde a nossa criação e, com certeza, não sabemos quando isso aconteceu, nem quando tomamos consciência da nossa existência, nem quando chegaremos a Espírito puro.  Só sabemos que fomos criados, que um dia tomamos consciência de nós mesmos e que chegaremos a Espírito puro.


Sabedores de tudo isso e com as ferramentas que temos a nosso lado, temos que criar coragem e enfrentar o maior inimigo que temos:  nós mesmos.


Sem demora, sem vacilações, sem esmorecimento, combatendo o bom combate, como nos ensina Paulo de Tarso na sua segunda carta a Timóteo. Temos que tomar todos esses cuidados pois está já a nossas portas um novo momento no planeta e esse momento é dos mais especiais. Vivemos já o período de transição, anunciado de há muito pelos Espíritos que secundaram Allan Kardec:

“Ele (planeta Terra) chegou a um dos seus períodos de transformação, em que, de orbe expiatório, mudará para planeta de regeneração, onde os homens serão ditosos, porque nele a lei de Deus imperará.”

O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo III, item 19


Os medos que temos em relação a nós mesmos serão passado se nos colocarmos diante dessa grande verdade: o tempo não para e não muda, continua o mesmo desde que Deus criou a tudo e a todos. O tempo é o mesmo justamente para isso, para que nós tenhamos consciência de tudo o que podemos fazer dentro dele, quem para e muda não é o tempo: somos nós mesmos.

Paramos  pelo medo da mudança e não conseguimos mudar porque ficamos esperando que o milagre do tempo se faça e que possamos, sem esforço nenhum, ver nascer dentro de nós o reino que nos foi prometido pelo Cristo.

Enganam-se os que acreditam em fim de mundo e fim dos tempos. O que finda, de tempos em tempos, é a maneira como encaramos o mundo em que vivemos.  É hora, novamente, de fim de mundo em nós mesmos, é hora já de renovação, é hora de transformação. Não percamos mais tempo teorizando sobre isso ou aquilo: é hora de praticar. A teoria de tudo já a temos desde que Jesus nos visitou em corpo e alma e nos legou o seu Evangelho de luz.

É tempo agora de colocarmos em nossas vidas, os seus ensinamentos, as suas lições de vida e não de retórica. Ficamos preocupados tão somente em decorar textos e mais textos sobre o bem viver e esquecemos que bem viver, segundo as palavras de Jesus, é simplesmente amar, pois como ele nos diz a quase dois mil anos, só o amor nos identificará como discípulos dele.

Deixemos de lado as frases bonitas e de efeito que só deixam plateias maravilhadas e partamos para o bom combate transformando, finalmente,  o rascunho que somos em arte final.

Deus nos criou não para a retórica mas para a ação. Somos sujeitos de nossas vidas, agentes em favor de nós mesmos e de todos os que possamos alcançar com nossos atos. Não nos deixemos levar pela inércia da mesmice, entendamos que o tempo passa, mas o Espírito permanece. O Espírito que somos exige essa mudança, enfrentemos nossas deficiências com vontade, coragem e determinação, abreviando dessa forma o nosso estágio em mundos tão conturbados por nós mesmos.

Manolo Quesada





sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Parceria

Olá amigas e amigos.
É com bastante alegria e satisfação que apresento o livro Parceria.
Esse livro foi transmitido por um amigo do plano invisível, o Hilário Silva. Ele mandou várias histórias, contadas de maneira bem humorada e cheias de conteúdo doutrinário.
Outros textos, de minha autoria, compõe essa parceria.
O livro é despretensioso, mas agradável e conta histórias do dia a dia de pessoas como qualquer um de nós: pessoas com problemas, pessoas com dúvidas muitas vezes paralizantes, mas com incrível capacidade de mudança e adaptação a novas situações.
Toda a renda auferida com a venda do livro será revertida para a Associação Espírita Mensageiros de Luz, que fica no Jardim Martini, Zona Sul da capital de São Paulo. O endereço é Rua Embaixatriz Dora de Vasconcelos, 613.
O pessoal da Associação não tem recursos e se mantem com  pequenas doações de frequentadores. Para garantir a manutenção da entidade promovem almoços beneficentes.
A ideia é que eles consigam adquirir a sede própria. Para isso contamos com a renda deste livro e de outros que virão.
A venda do livro será feita durante as palestras que fazemos nos centros espíritas que nos convidam com tanto carinho e alegria. Dessa forma todos acabaremos sendo parceiros de uma obra que tem por objetivo único a divulgação da Doutrina Espírita e o auxílio ao próximo.
Espero contar com a colaboração de todos.
Abraço fraterno.

Manolo Quesada




segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O Efeito

- Netinha, chamou o vovô.
- Fala vô, respondeu a netinha.
- Você tá muito quieta hoje, não quer escutar histórias  nem nada?
- Ah, vô, eu tô meio preocupada com algumas coisas que estão acontecendo comigo...
- Que coisas?
- Coisas estranhas, vô. Às vezes eu me pego sentindo umas coisa muito esquisitas e parece que tem gente pertinho de mim...
- E a sensação é boa ou não?
- Às vezes é boa, às vezes não...
- Conta mais, porque hoje pelo jeito é você que vai contar uma história...
- Vô, outro dia estava na casa da Manuela, aquela minha amiga da escola...
- O que você foi fazer lá?
- Eu fui passar a noite lá, lembra? Festa do pijama, era aniversário dela e todas as amigas dormiram na casa dela?
- Ah! Lembro sim...
- Pois é, vô. Naquela noite eu percebi que existem coisas mais estranhas que essas que o senhor conta.
- Não me diga...
- Já disse, agora não tem mais jeito, pois bem... naquela noite quando parecia que tava todo mundo dormindo eu escutei um barulhão na cozinha, fiquei toda arrepiada e sem saber o que fazer.
- Não fez nada?
- Fique bem quietinha... só escutando...
- Só você ouviu?
- Não... de repente todo mundo acordou também e começaram a perguntar o que era...
- E o que era?
- Ninguém sabia, porque ninguém teve coragem de ir ate a cozinha pra ver, estávamos com muito medo!
- Interessante!
- O senhor só diz "interessante"?
- Eu digo isso porque realmente é interessante... conta mais, conta.
- Estávamos com medo mesmo. A Fernanda quase desandou a chorar, pedi pra ela ficar quieta, pra podermos escutar melhor, a Juliana respirava tão rápido que pensei que ela ia ter um treco e a Helena colocou a cabeça debaixo do lençol pra se esconder...
- Não diga, então o pânico foi geral?
- Pior é que foi, vô.De repente, apareceu a mãe da Manuela...
- Ela ouviu o barulho também?
- Acho que não, pelo menos ela não disse nada...
- O que ela foi fazer lá então?
- Foi verificar o que estávamos fazendo, pois ela ouviu o barulho sim, mas da nossa conversa e ficou preocupada com aquilo...
- A mãe da Manuela é gente boa, fica ligada!
- É verdade, vô. Ela está sempre por perto, para o caso da gente precisar de alguma coisa. Pois bem, ela apareceu e perguntou por quê tanta conversa, se a gente não sabia que horas eram, essas coisas de mãe...
- É, eu sei como é... comigo é a mesma coisa...
- Isso, isso!
- E vocês, o que falaram?
- Ai nós falamos do barulho...
- E ela?
- Ela disse que não ouvira nada... nós insistimos, porque o barulho foi realmente de assustar, parecia que tudo estava caindo lá na cozinha...
- E ela, falou o quê?
- Primeiro pediu que nos acalmássemos, pediu pra gente contar tudo como tinha acontecido...
- Vocês contaram?
- Vô, parece incrível, mas todo mundo contou a mesma história, e parecia que todo mundo tava dormindo, mas tava todo mundo acordado...
- E a mãe da Manuela? O que ela fez?
- Falou que tinha sido imaginação da nossa cabeça, que aquilo de barulho era história pra boi dormir, que essas coisas de assombração não existiam...
- Mas, quem falou em coisas de assombração?
- Esqueci de contar, mas a Fernanda falou que o pai dela disse que essas coisas acontecem quando tem muita meninada junta...
- Não me diga, ele é espírita também?
- Eles são espiritas, sim, vô, igual que a gente e a Fernanda falou pra mãe da Manuela, só que a mãe da Manuela não acredita nessas coisas...
- É um direito que ela tem, afinal de contas todos somos diferentes, temos histórias diferentes e posições diferentes... mas conta mais, conta.
- Bem, eu só sei que ninguém ficou discutindo com ela, afinal ela é muito bacana. A Fernanda pediu para ela ir com a gente verificar se estava tudo em ordem, pois se não tivesse teríamos um trabalhão para colocar as coisas no lugar, pois o barulho foi de queda total...
- Foram todas juntas?
- Claro vô, quem disse que alguém sairia de lá sozinha? A mãe da Manuela, a dona Iracema, foi na frente...
- E vocês?
- Êh vô, claro que depois dela né?
- É verdade, só podia ser...
- Pois bem, fomos todas, em fila indiana, a dona Iracema na frente, nós todas tremendo, uma após a outra... devagarinho, sem piscar, prendendo a respiração, olhando para todos os lados, cheias de medo e terror...
- Nossa netinha, que drama!
- Drama mesmo, vô. Tava todo mundo muito tenso, nós todas estávamos com os nervos à flor da pele... ninguém piscava.
- Imagino, um bando de meninas pré-adolescentes juntas... só podia dar nisso mesmo! Mas termina, vai!
- Vô, a dona Iracema entrou na cozinha sozinha... ela não teve medo nenhum, parecia uma supermulher de tanta coragem...
- É o que eu digo: "mãe é mãe".
- É isso mesmo, vô... ela entrou com cuidado mas corajosamente... nós ficamos do lado de fora, só esperando que ela nos mandasse entrar...
- Demorou muito?
- Pra quê, vô?
- Pra ela mandar vocês entrarem?
- Que nada, logo que ela acendeu a luz da cozinha, olhou e pediu que todas nós entrassemos lá!
- Assim, rápido?
- Rápido assim, vô... ela nem pestanejou, entrou, olhou e pronto... a hora que eu entrei não acreditei no que eu vi...
- O que você viu?
- Nada vô, absolutamente nada...
- Como assim: nada?
- Nada fora do lugar, vô. Tava tudo certinho, nada estava pelo chão, tudo do jeito que ela tinha deixado antes da gente dormir...
- Rapaz... eu já sei o que aconteceu...
- Olha, vô, você pode até saber, mas eu fiquei super sem jeito, eu e a Fernanda.
- Sem jeito porquê?
- Porquê, vô? Nós dissemos que foram espíritos que aprontaram aquela algazarra toda e a mãe da Fernanda ficou só dando risada da gente...
- Não liga, para ela não aconteceu nada mesmo, ela não acredita... mas nós sabemos que aconteceu e isso é o que importa.
- Será vô? Às vezes eu fico pensando se não é imaginação da gente, se isso tudo não passa de explicação para nossa imaginação..
- Não é não, netinha. Daqui a alguns anos você estará lá no Centro  e entenderá tudo isso que, aparentemente, não tem explicação hoje. Ai você saberá que os espíritos aproveitam a doação generosa de fluidos pela adolescência para aprontar algumas de vez em quando...
- Mas os espíritos não são todos assim, né vô?
- Claro que não e você sabe disso. Esses são espíritos que ainda gostam de aprontar e se divertem com isso.
- Eu fico imaginando a cara deles, zombando da gente naquela noite...
- Deve ter sido muito engraçado para eles mesmo...
- É vô, um dia ainda vou saber todos os mistérios que existem entre a terra e o céu...
- Pode ser, mas prepare-se, pois como diz Shakespeare: "existem mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia".
- Nossa vô, quem é esse?
- Isso é outra história, depois eu conto. Agora, vamos tomar um cafezinho com pão de queijo?
- Ai sim!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O Corte de Cabelo

- ! conta mais alguma coisa que tenha acontecido com você e que marcou!
- Conto sim. Já te contei do meu primeiro corte de cabelo?
- Corte de cabelo? não, acho que não.
- Pois é... eu tive um primeiro corte de cabelo na minha vida...
- Não me diga... faz muito tempo né? afinal, você já tá velhinho.
- Eu velhinho, mesmo. Mas eu lembro como se tivesse sido ontem.
- Quanto anos você tinha, vô?
- Eu tinha uns cinco anos, mais ou menos.
- Nossa! cinco anos sem cortar o cabelo? Devia estar enorme...
- Até que não. O meu cabelo não era lisinho, era encaracolado, dava a impressão que não tinha muito cabelo não.
- Quase igual que hoje, né?
- Como assim, netinha?
- O teu cabelo também dá a impressão que não tem muito não, meio ralinho...
- É verdade, mas hoje tem razão de ser, o tempo passa, os cabelos caem , enfim...
- Mas, conta , não enrola não...
- Um certo dia, chegou a minha irmã dizendo que o meu cabelo tava muito grande, que precisava cortar, que já tinha ido ao barbeiro e conversado com ele, pra cortar o meu cabelo...
- Nossa , assim? sem mais nem menos?
- Pois é... assim...
- Imagino o trauma...
- Vai vendo... me pegaram pela mão e lá fomos nós, descendo a ladeira...
- Como assim,? Descendo a ladeira?
- É que eu morava na Rua Coperema, lá no Cangaíba. Essa rua ficava bem no altão e o barbeiro ficava na Avenida Cangaíba, bem no baixão...
- Ah... entendi! conta o resto...
- Bem... descemos a ladeira e chegamos na barbearia, ele estava todo de branco, vestia um jaleco, tinha um bigode aparado e no cabelo tinha muita bilhantina.
- Brilhantina? Explica , o que é essa tal "Brilhantina"
- É uma coisa muito parecida com o que vocês usam hoje e chamam de gel.
- Nossa, e eu pensando que gel era coisa super moderna...
- Como nos fala Lavoisier: na natureza nada se perde, tudo se transforma... portanto a brilhantina de ontem é quase que o gel de hoje.
- Tudo bem, continua !
- Chegando lá o barbeiro colocou um banquinho de madeira em cima da cadeira de barbeiro que tinha no salão...
- Cadeira de barbeiro? Igual que as de hoje?
- Quase igual, eram mais pesadonas, mas não tinham muita diferença não...
- E você , o que sentiu?
- Eu fiquei paralisado... vendo todo aquele ritual... todo aquele espetáculo... e eles falando para que eu ficasse calmo, que não ia doer nada, coisas do tipo...
- Não ia doer nada? mas cortar cabelo nunca doe...
- Só que eu não sabia, eu nunca tinha cortado cabelo, lembra?
- Lembrar eu lembro, mas dava pra perceber, não dava não,?
- Eu não percebi, eu só sei que estava bem assustado com tudo aquilo e comecei a chorar desesperado...
- E o pessoal? o que fizeram?
- Minha irmã ficou desesperada, pois não entendia como um simples corte de cabelo podia ter provocado tamanha reação... tentava me acalmar, mas não tinha jeito...
- Então você não cortou o cabelo na primeira vez?
- Deixa eu contar, não me apresse...
- bom...
- O cabelo ia sendo cortado enquanto a minha irmã tentava me acalmar, isso é o que eu queria dizer... o cabelo ia caindo, eu via os meus cachinhos de anjo serem derrubados um a um... sem volta...
- Que triste,... eles continuaram? não tiveram dó de você?
- Nenhuma dó, nenhuma tristeza...
- Mas porque ? Eles não gostavam de você?
- Gostavam, claro... mas eu precisava cortar os cabelos, pois o pessoal pensava naquela época que os cabelos muito grandes impediam a gente de crescer...
- Ah! E você? era pequenininho mesmo?
- Eu não era muito grande com essa idade, mas eu não acreditava nessa história, eu queria os meus cachinhos de volta...
- Eles não devolveram não, né vô?
- Devolveram nada, nem guardaram um cachinho de recordação... nada mesmo.
- Nossa , que irmã mais desalmada que você tem...
- Não é bem assim, netinha. Ela tinha lá suas razões e foi minha mãe que pediu para ela me levar e cortar os cabelos. Eu é que não tinha conhecimento suficiente para saber que um dia isso seria necessário.
- Ainda bem que você entendeu...
- Entendi sim, e entendi também que na vida existem coisas que nos acontecem para que nós tenhamos a experiência que precisamos.
- Como assim,?
- É verdade... é como podar uma árvore, uma planta. A gente poda para que ela cresça melhor e mais forte. Com a gente é a mesma coisa. As experiências acontecem para que a gente fique mais forte e consiga superar as  limitações.
- Nossa , você aprendeu tudo isso naquele dia?
- Claro que não, naquele dia eu só pensava em chorar, chorar muito. Com o passar do tempo é que vamos percebendo uma porção de coisas...
- Será que eu vou passar por essas coisas também?
- Pode não ser um corte de cabelo, os tempos mudaram muito, mas as experiências virão de acordo com a sua necessidade...
- Ai vô, tô até com medo...
- Não precisa medo, pois como diz o ditado: Deus dá o frio conforme o cobertor!
- Ainda bem, !
- Ainda bem, netinha!

domingo, 9 de outubro de 2011

Sinais

Os sinais em nossa vida são importantíssimos e, na maioria das vezes, não os levamos a sério e, consequentemente, atrasamos o andar de nossa carruagem, andar que, via de regra, já é bem lerdo.
Leiam a história de hoje...
Vovô e netinha estavam olhando para o infinito.
Ela se perguntava, em silêncio, como o avô havia chegado ao Espiritismo. Afinal, na visão dela, ele sabia praticamente de tudo em relação à doutrina.
Ela olhou bem para ele e desfechou a inevitável pergunta:
- Como é que você sabe tanto a respeito dos espíritos e dessas coisas do além?
O avô meio que acordou, piscou duas ou três vezes e pediu:
- Repete a pergunta, por favor...
- Como é que você sabe tanto a respeito dos espíritos e dessas coisas do além? Entendeu agora?
- Ouvi e entendi... vou explicar... eu não nasci espírita, eu nasci católico, quase como todo mundo nasceu. Fui educado no catolicismo, fui batizado, crismado, casei e tudo o mais, na Igreja Católica.
Isso não é ruim, pelo contrário, pois eu participava de Grupo de Jovens na minha paróquia...
- O que é um Grupo de Jovens? - interrompeu a netinha.
- Bom... Grupo de Jovens eram adolescentes que se reuniam ao final da missa para estudar o Evangelho de Jesus e participar das atividades da paróquia. Essa participação era bem efetiva, fazíamos bailes, encontros e um monte de coisas, para ajudar a construir a Igreja...
- É parecido com as Mocidades Espíritas? questionou a netinha.
- Isso mesmo... no mesmo estilo...
- Continua contando como você virou espírita...
- Ah, é verdade... eu não era espirita, mas aconteceram algumas coisas na minha vida que poderiam ter feito com que eu fosse mais cedo para o Espiritismo... eu é que não entendi os sinais...
- Que sinais, vô?
- O primeiro aconteceu quando eu estava no primário, que hoje vocês chamam de fundamental I... eu falava muito, sózinho... os colegas de sala diziam que eu colava, mas a minha professora da época...
- Vô, você lembra o nome dela ainda?
- Claro que lembro, nome e sobrenome: Glória Serrano Corleone... pois bem, a professora Glória sabia que eu não colava, que eu falava comigo mesmo...  Ela nunca colocou em dúvida isso, mas para mim era natural, porque eu falava sozinho mesmo...
- E depois vô, que mais aconteceu?
- Outro sinal que eu lembro nitidamente, foi quando eu estava no ginásio, que hoje é o Fundamental II... eu estudava no Villalva, um colégio que tem lá no Jabaquara... eu ia pela manhã. Um dia...
- Um dia o quê, vô, conta...
- Tô contando... um dia, eu vi um amigo de classe com um livro encapado com papel de pão, aquele papel marron que chamam de Kraft hoje...
- E ai, vô? o que você fez?
- Eu perguntei pra ele o que era aquilo...
- E ele, o que respondeu?
- Ele me disse que era O Livro dos Espíritos...
- Vô!!! e você, o que fêz?
- Fiquei meio sem jeito, só de ouvir falar em espíritos eu ficava perdidinho de medo...
- E?
- Eu falei pra ele: isso não é muito legal...
- E o que ele falou, vô?
- Ele falou: Ah! você é desses que quando chegar do lado de lá, não vai saber onde está? Eu leio este livro porque eu quero informação, vou saber o que fazer do lado de lá!
- Rapaz! Eu fiquei sem saber o que dizer... e não falei nada mesmo... botei minha viola no saco e fui embora...
- E ai, vô?
- Aí? Nada... nunca mais vi o meu amigo, nem na escola... hoje fico até preocupado: será que ele existia mesmo?
- Sinistro, vô... será?
- Não, sua boba... ele era meu colega de classe e eu o via regularmente... a partir dai acho que eu é que o evitava...
- Teve mais sinais, vô?
- Bom... depois desse eles me deram um tempo... fui para o grupo de jovens da igreja...
- Isso você já falou...
- Já falei, mas as minhas dúvidas aumentavam a cada dia, porque o que eles me diziam me deixava muito encucado... eu não achava que aquilo estava certo...
- Aquilo o quê, vô?
- Aquelas coisas de céu e inferno, passarmos uma vez só por aqui... eu discutia muito com o Geraldo...
- Geraldo? Quem era esse?
- Geraldo era o coordenador do Grupo de Jovens que eu frequentava, lá no Jardim Consórcio... ele falava de Evangelho todos os domingos, depois da missa... eu discutia com ele sobre esses posicionamentos...
- Mas, vô, e o sinal, como foi que aconteceu?
- Ah, é verdade...
- Fala, vô!
- Bem... eu tinha um amigo no Grupo de Jovens que, de repente, sumiu... ninguém ouvia falar dele, onde estava, o que fazia... só sabiamos que ele estava namorando a sobrinha do Carioca.
- Vô, quem era esse tal de "carioca"?
- Esse tal de "carioca" era meu vizinho... a irmã dele morava em frente a minha casa e ficamos sabendo que o Sérgio estava namorando com a sobrinha dele...
- Sérgio é o tal que estava sumido?
- Isso, isso, isso...
- Vai, vô...
- Fui... o Sérgio estava namorando com ela, eu não lembro o nome dela, eu não tinha amizade com ela. Só sei que um belo dia encontrei o Sérgio e perguntei porque ele não estava indo ao Grupo de Jovens...
- E ele respondeu?
- Respondeu... disse que aquilo não era nada comparado com os estudos que ele estava fazendo no Centro Espírita não sei das quantas...
- Caraca, vô... esse foi decidido mesmo, largou tudo e foi pro Centro... e por amor!
- Não tinha pensado nisso, mas é verdade mesmo... decidido e por amor, literalmente...
- Conta que tá ficando bom...
- Eu não sabia o que pensar, o preconceito que eu tinha ainda era muito grande... minhas raízes eram profundas, mas eu já tinha alguma coisa diferente... eu questionava.
- Tiveram mais sinais, vô?
- Depois desses? Só os da necessidade... mas isso é uma outra história...
- Ah, vô!
- Ah, netinha!

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Tornozelo Quebrado, Pé Virado...

1982... o ano corria solto, já estavamos em outubro, se não me engano. Minha mãe já estava desencarnada (naquela época eu dizia: falecida).
Meu pai morava comigo, pois estava só, os filhos todos casados e eu era o mais próximo, geográficamente e afetivamente também... trabalhávamos juntos.
A casa do meu pai estava sózinha, sem ocupação e uma vizinha precisava reformar a casa dela, e não era uma vizinha qualquer: era uma grande amiga que sempre nos atendia, oferecendo-nos o que precisavamos, além de batalhadora da vida... havia ficado viúva e com dois filhos.
Perguntou sobre a possibilidade alugar a casa por, mais ou menos, três meses.
A proposta veio a calhar, pois casa vazia acaba deteriorando mais rapidamente que com gente dentro.
Aluguel estabelecido, casa faxinada, mudança feita e... lá estavam todos na casa de aluguel durante o tempo que durasse a reforma na casa dela.
Casa velha tem seus problemas e a de meu pai não fugia à regra não... tinha algumas coisas apesar do cuidado que ele sempre tivera com a construção.
Um dia liga a amiga:
- A bóia da caixa dágua não está funcionando... está vazando água... me ajude que eu não consigo subir no forro...
- Fique tranquila que, assim que terminar o café, vou praí e dou um jeito... até mais!
Tomamos o café, juntamos as crianças e fomos pra lá... era pertinho.
Eu estava um bocado nervoso, pois não gostava de fazer esse tipo de serviço, não tinha vocação para isso não... ajudava meu pai em algumas coisas... só ajudava.
Agora era diferente,eu tinha que fazer... fomos para lá.
Era sexta-feira. Eu só lembro porque tinha feira lá perto e a Marli aproveitou para comprar alguma coisa por lá. Foram as duas: a Áurea e a Marli. Eu fiquei lá, para consertar a tal bóia.
Sobe no forro, destampa a caixa dágua, coloca a tampa entre duas madeiras que sustentavam a placa de eucatex e pronto... a bóia estava à vista.
Fiquei em cima da tampa, que estava em cima das duas madeiras que sustentavam a placa de eucatex... o que aconteceu?
A tampa da caixa dágua era uma tampa feita em casa, sem ferros, só cimento... resultado: quebrou ao meio, devido ao peso do meu corpo. Pra onde eu fui? Pra xom!!!
Eu não era espírita nessa época.
A minha mãe quando era viva e eu tinha alguma dificuldade para dormir, levava uma foto minha numa senhora lá da cidade de Campinas e pronto... eu dormia bem por algum tempo.
O que aconteceu nesse dia foi mais um dos avisos da espiritualidade para que eu chegasse na Doutrina.
Se fosse só cair do forro, tudo bem... mas quem estava em baixo? uma das minhas filhas, pequenina, não resistiria ao peso do meu corpo se eu caísse em cima dela.
Vejam só: eu a vi engatinhando para um dos quartos enquanto caia...
Se fosse só isso tudo bem... eu vi o meu corpo caindo enquanto caia...
Eu fiquei lá em cima... e me vi caindo...
Acordei sem dor... mas desesperado... Tudo bem... ninguém se machucou: só eu.
Não sentia nada... só pedia para que alguém me levasse para um hospital.
O arquiteto que estava fazendo a reforma da casa da Áurea era meu amigo de infância. A hora que escutou o barulho todo, saiu de lá e veio me socorrer... do jeito que ele olhou o meu pé e me olhou eu percebi que não era boa coisa não... ai que eu não olhei mesmo...
Tudo bem pra cá, tudo bem pra lá... leva pro carro rápido... tem o Kitadai perto de Santo Amaro... vai pra lá que é bom...
A Marli estava na feira ainda e eu fui sozinho, quer dizer, eu e o meu amigo arquiteto.O nome dele é Elcio.
Chegando lá, fui examinado e ai foi que o Dr. Pietro me disse:
-Temos que operar já... é quase fratura exposta.
- Anestesia local? perguntei.
- Não... tem ser raqui ou peridural...
Gelei e gritei, sem pestanejar:
- Na minha coluna ninguém mexe... chama a minha mulher... liga pra lá... vai buscar, ninguem mexe em mim antes da minha mulher chegar...
- Pelo menos vamos colocar o pé no lugar... ele está virado...
- Virado?
- É... está virado, quebrou todo o tornozelo...
- Anestesia local?
- Pra isso sim, anestesia local...
- Só isso... e mais nada...
Anestesia local, pé no lugar e a Marli chegou...
Respirei aliviado...
- Não deixa ninguém mexer na minha coluna, não! - gritei desesperado.
Ela conversou com os médicos, eles insistiram que era necessário a operação, quanto mais cedo melhor...
Eu não estava em condições... pedi para ir embora e voltamos para casa... entalado e com a promessa de voltar uma semana depois.
Voltei e o estrago já estava feito: o calor da fratura provocou várias bolhas, a operação foi feita, os parafusos colocados, mas a cicatriz não ficou uma brastemp, pois as bolhas não deixaram...
Quase seis meses para a recuperação... em casa, deitado, sem encostar o pé no chão...
Disso tudo a certeza que havia alguma coisa além do que eu podia ver... alguma coisa que eu suspeitava dentro de mim, mas não tinha coragem ainda de encarar...
O tempo daria um jeito, mas isso é uma outra história.
Abraço fraterno.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Os Remendos da Calça...

A netinha chegou bem perto do vovô... olhou, olhou e... olhou de novo! Parecia que o vovozinho estava olhando para um horizonte muito distante do local onde estava... ela ficou intrigada..
- Vô... tá pensando no que? perguntou de chofre...
- O que? respondeu o avô, parecendo acordar de uma longa visão...
- Tá pensando no que? parecia que você estava na Cochinchina... isso existe mesmo?
- Vamos procurar na internet... depois eu respondo... eu não estava pensando... eu estava longe mesmo, lá pelos meus 11 anos... eram tempos difíceis os que passamos...
- Porque? aconteceu alguma coisa com você?
- Na verdade não... eu tive uma infância bem satisfatória, mas quando vejo as crianças de hoje eu noto muitas diferenças entre elas e as crianças daquela época.
- Diferenças...que tipo de diferenças? -  perguntou a netinha, curiosa...
- Por exemplo: calças compridas... não era comum os meninos mais novos usarem calças compridas... hoje todo mundo usa, tem modelos para todas as idades, naquela época não; era uma questão de idade, um símbolo de que a criança já atingira uma certa maturidade...
- Verdade vô?
- Verdade... até certa idade nós usamos somente calças curtas... elas iam só até os joelhos...
- Eu acho bem bonitinho calças curtas... disse a netinha.
- Mas quem usava calças curtas sofria com os colegas mais velhos, eles ficavam falando um monte de bobagens...
- E você? achava muito ruim?
- Eu morria de vergonha... eu era alto para a minha idade... queria vestir calças compridas de qualquer jeito...
- E porque não tinha calças compridas?
- Pelo dinheiro que era tão curto quanto as minhas calças curtas... não dava pra comprar roupa pra todos... eu ficava com as roupas que não iam sendo mais usadas, roupas que a gente ganhava... era desse jeito...
- E a sua mãe? o que ela achava disso?
- Ela não tinha muito o que fazer... não dava pra comprar tudo, tinhamos que nos alimentar, muitos filhos e poucos trabalhando fora... não dava mesmo...
- Mas ela não dava um jeito? não achava uma solução pro teu problema? insistiu a netinha...
- Ela achou sim... mas eu não gostei muito... disse o avô.
- Não gostou? que solução foi essa, vô?
- Ela tinha ganho uma calça de homem, que estava meio rasgadinha na altura do joelho... e não sabia o que fazer com ela... de tanto eu falar na calça comprida ela teve uma ideia...
- Que ideia, vô?... conta logo...
- Já estou contando... é que eu preciso lembrar... faz algum tempo já...
- Vai, vô... insistiu a netinha, já impaciente...
- Ela tinha um outro pano, muito parecido com o da calça... dai ela resolveu fazer uns remendos na calça e... deu para que eu usasse...
- E ai, vô?
- Ai, que o tecido que ela colocou era de um outro tom... ficava muito nítido que era um remendo... e eu fiquei muito envergonhado de ter que vestir aquilo...
- Não vestiu?
- Vesti... olhei... estava quase bom...
- E então?
- Ficaram uns remendos muito grandes, porque ela, para disfarçar, colocou não como remendo, mas como uma continuação da parte de cima mesmo... ficou muito estranho...
- Eu fico imaginando... disse a netinha...
- Mesmo assim eu saí com a calça... afinal, era uma calça comprida...
- E?
- Quando eu sai, encontrei com um amigo... logo depois com outro amigo, mais velho que nós dois... o amigo da minha idade ficou olhando, olhando, olhando e não se conteve... começou a fazer piada da situação, coisa do tipo "calça remendada" e dava risada...
- E você, vô? o que você fez? perguntou a neta, chateada...
- Eu fiquei vermelho, fiquei muito chateado com tudo aquilo... mas era o que eu tinha no momento...
- Fala logo, vô!
- Depois de pensar um pouco eu respondi: É melhor remendado que rasgado!
- Ai vô... mostrou pra ele! alegrou-se a netinha... e o outro amigo? o que ele falou?
- O outro amigo, mais velho, sabia bem mais que nós dois e achou a  minha resposta muito boa.
- É mesmo, vô... é melhor um remendo que um rasgado... acho que você agiu bem... e então, vô: Cochinchina existe ou não?
- Existiu... foi fundada pelos franceses em 1946... foi chamada de República Independente da Cochinchina que depois foi transformada na República do Vietnã do Sul... e acabou por hoje...
- Ah, vô... que pena!

Abraço fraterno.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Não seja pato... você é um cisne!

Estamos no início de 2011.
Na última semana de 2010, tive a oportunidade de ouvir Abigail, uma colega , fazer a exposição sobre o tema Autoestima.
Confesso que fiquei impressionado pois, ao contrário da maioria das pessoas, ela nos convidava a sermos o nosso melhor.
Contou a fábula do Patinho Feio... muito conhecida de todos, mas colocou a certeza de que todos nós podemos ser melhores, basta que descubramos o nosso potencial e não deixemos que ninguém nos transforme em pato...
É interessante notar o rosto das pessoas quando não estamos falando, interessante notar as reações que as palavras vão produzindo e, mais interessante ainda, ver as reações que as pessoas que não acreditam que somos cisnes vão tendo.
Triste ver, em qualquer cenário, que existem pessoas interessadas somente em mostrar desagrado com atuações de colegas, pessoas que insistem em derrubar as melhores intenções, que insistem em manifestar-se de maneira preconceituosa, mesmo quando querem ser agradáveis.
É tempo de mudança... é necessário que sejamos melhores, que sejamos mais abertos a novos modos de comunicação, que sejamos mais conscientes de que somos todos diferentes, mesmo sendo filhos do mesmo Pai.
A história de cada um é única, não permitindo comparações nem tampouco julgamentos.
Sejamos coerentes com a doutrina que professamos, deixemos de lado o preconceito,  principalmente quando vem embutido em declarações de pseudo defesa dos valores cristãos.
Jesus foi muito claro: nem todos os que dizem Senhor, Senhor, entrarão no Reino dos Céus, principalmente porque são os mesmos que diziam essas palavras quando ele esteve entre nós... parece que não aprenderam nada...
É tempo de mudança... é hora de procedermos em nós mesmos a mudança que queremos ver no mundo, como nos alertou Gandhi.
Olhar o cisco no olho do companheiro de viagem já não faz sentido, principalmente porque, normalmente, nosso olho tem uma trave que nos impede a visão.