quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Os Remendos da Calça...

A netinha chegou bem perto do vovô... olhou, olhou e... olhou de novo! Parecia que o vovozinho estava olhando para um horizonte muito distante do local onde estava... ela ficou intrigada..
- Vô... tá pensando no que? perguntou de chofre...
- O que? respondeu o avô, parecendo acordar de uma longa visão...
- Tá pensando no que? parecia que você estava na Cochinchina... isso existe mesmo?
- Vamos procurar na internet... depois eu respondo... eu não estava pensando... eu estava longe mesmo, lá pelos meus 11 anos... eram tempos difíceis os que passamos...
- Porque? aconteceu alguma coisa com você?
- Na verdade não... eu tive uma infância bem satisfatória, mas quando vejo as crianças de hoje eu noto muitas diferenças entre elas e as crianças daquela época.
- Diferenças...que tipo de diferenças? -  perguntou a netinha, curiosa...
- Por exemplo: calças compridas... não era comum os meninos mais novos usarem calças compridas... hoje todo mundo usa, tem modelos para todas as idades, naquela época não; era uma questão de idade, um símbolo de que a criança já atingira uma certa maturidade...
- Verdade vô?
- Verdade... até certa idade nós usamos somente calças curtas... elas iam só até os joelhos...
- Eu acho bem bonitinho calças curtas... disse a netinha.
- Mas quem usava calças curtas sofria com os colegas mais velhos, eles ficavam falando um monte de bobagens...
- E você? achava muito ruim?
- Eu morria de vergonha... eu era alto para a minha idade... queria vestir calças compridas de qualquer jeito...
- E porque não tinha calças compridas?
- Pelo dinheiro que era tão curto quanto as minhas calças curtas... não dava pra comprar roupa pra todos... eu ficava com as roupas que não iam sendo mais usadas, roupas que a gente ganhava... era desse jeito...
- E a sua mãe? o que ela achava disso?
- Ela não tinha muito o que fazer... não dava pra comprar tudo, tinhamos que nos alimentar, muitos filhos e poucos trabalhando fora... não dava mesmo...
- Mas ela não dava um jeito? não achava uma solução pro teu problema? insistiu a netinha...
- Ela achou sim... mas eu não gostei muito... disse o avô.
- Não gostou? que solução foi essa, vô?
- Ela tinha ganho uma calça de homem, que estava meio rasgadinha na altura do joelho... e não sabia o que fazer com ela... de tanto eu falar na calça comprida ela teve uma ideia...
- Que ideia, vô?... conta logo...
- Já estou contando... é que eu preciso lembrar... faz algum tempo já...
- Vai, vô... insistiu a netinha, já impaciente...
- Ela tinha um outro pano, muito parecido com o da calça... dai ela resolveu fazer uns remendos na calça e... deu para que eu usasse...
- E ai, vô?
- Ai, que o tecido que ela colocou era de um outro tom... ficava muito nítido que era um remendo... e eu fiquei muito envergonhado de ter que vestir aquilo...
- Não vestiu?
- Vesti... olhei... estava quase bom...
- E então?
- Ficaram uns remendos muito grandes, porque ela, para disfarçar, colocou não como remendo, mas como uma continuação da parte de cima mesmo... ficou muito estranho...
- Eu fico imaginando... disse a netinha...
- Mesmo assim eu saí com a calça... afinal, era uma calça comprida...
- E?
- Quando eu sai, encontrei com um amigo... logo depois com outro amigo, mais velho que nós dois... o amigo da minha idade ficou olhando, olhando, olhando e não se conteve... começou a fazer piada da situação, coisa do tipo "calça remendada" e dava risada...
- E você, vô? o que você fez? perguntou a neta, chateada...
- Eu fiquei vermelho, fiquei muito chateado com tudo aquilo... mas era o que eu tinha no momento...
- Fala logo, vô!
- Depois de pensar um pouco eu respondi: É melhor remendado que rasgado!
- Ai vô... mostrou pra ele! alegrou-se a netinha... e o outro amigo? o que ele falou?
- O outro amigo, mais velho, sabia bem mais que nós dois e achou a  minha resposta muito boa.
- É mesmo, vô... é melhor um remendo que um rasgado... acho que você agiu bem... e então, vô: Cochinchina existe ou não?
- Existiu... foi fundada pelos franceses em 1946... foi chamada de República Independente da Cochinchina que depois foi transformada na República do Vietnã do Sul... e acabou por hoje...
- Ah, vô... que pena!

Abraço fraterno.

Um comentário:

  1. Manolo,
    Sou da organização da Feira do Livro Espírita de S.Bernardo.
    Estou adicionando você a minha lista.
    Estou iniciando a divulgação da feira e com isto escrevendo no blog da feira sobre os palestrantes e autores.
    Estou copiando algumas informações suas aqui no blog. Espero que não se importe.
    Seja seguidor do blog da feira também.
    Grata.

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