segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Tornozelo Quebrado, Pé Virado...

1982... o ano corria solto, já estavamos em outubro, se não me engano. Minha mãe já estava desencarnada (naquela época eu dizia: falecida).
Meu pai morava comigo, pois estava só, os filhos todos casados e eu era o mais próximo, geográficamente e afetivamente também... trabalhávamos juntos.
A casa do meu pai estava sózinha, sem ocupação e uma vizinha precisava reformar a casa dela, e não era uma vizinha qualquer: era uma grande amiga que sempre nos atendia, oferecendo-nos o que precisavamos, além de batalhadora da vida... havia ficado viúva e com dois filhos.
Perguntou sobre a possibilidade alugar a casa por, mais ou menos, três meses.
A proposta veio a calhar, pois casa vazia acaba deteriorando mais rapidamente que com gente dentro.
Aluguel estabelecido, casa faxinada, mudança feita e... lá estavam todos na casa de aluguel durante o tempo que durasse a reforma na casa dela.
Casa velha tem seus problemas e a de meu pai não fugia à regra não... tinha algumas coisas apesar do cuidado que ele sempre tivera com a construção.
Um dia liga a amiga:
- A bóia da caixa dágua não está funcionando... está vazando água... me ajude que eu não consigo subir no forro...
- Fique tranquila que, assim que terminar o café, vou praí e dou um jeito... até mais!
Tomamos o café, juntamos as crianças e fomos pra lá... era pertinho.
Eu estava um bocado nervoso, pois não gostava de fazer esse tipo de serviço, não tinha vocação para isso não... ajudava meu pai em algumas coisas... só ajudava.
Agora era diferente,eu tinha que fazer... fomos para lá.
Era sexta-feira. Eu só lembro porque tinha feira lá perto e a Marli aproveitou para comprar alguma coisa por lá. Foram as duas: a Áurea e a Marli. Eu fiquei lá, para consertar a tal bóia.
Sobe no forro, destampa a caixa dágua, coloca a tampa entre duas madeiras que sustentavam a placa de eucatex e pronto... a bóia estava à vista.
Fiquei em cima da tampa, que estava em cima das duas madeiras que sustentavam a placa de eucatex... o que aconteceu?
A tampa da caixa dágua era uma tampa feita em casa, sem ferros, só cimento... resultado: quebrou ao meio, devido ao peso do meu corpo. Pra onde eu fui? Pra xom!!!
Eu não era espírita nessa época.
A minha mãe quando era viva e eu tinha alguma dificuldade para dormir, levava uma foto minha numa senhora lá da cidade de Campinas e pronto... eu dormia bem por algum tempo.
O que aconteceu nesse dia foi mais um dos avisos da espiritualidade para que eu chegasse na Doutrina.
Se fosse só cair do forro, tudo bem... mas quem estava em baixo? uma das minhas filhas, pequenina, não resistiria ao peso do meu corpo se eu caísse em cima dela.
Vejam só: eu a vi engatinhando para um dos quartos enquanto caia...
Se fosse só isso tudo bem... eu vi o meu corpo caindo enquanto caia...
Eu fiquei lá em cima... e me vi caindo...
Acordei sem dor... mas desesperado... Tudo bem... ninguém se machucou: só eu.
Não sentia nada... só pedia para que alguém me levasse para um hospital.
O arquiteto que estava fazendo a reforma da casa da Áurea era meu amigo de infância. A hora que escutou o barulho todo, saiu de lá e veio me socorrer... do jeito que ele olhou o meu pé e me olhou eu percebi que não era boa coisa não... ai que eu não olhei mesmo...
Tudo bem pra cá, tudo bem pra lá... leva pro carro rápido... tem o Kitadai perto de Santo Amaro... vai pra lá que é bom...
A Marli estava na feira ainda e eu fui sozinho, quer dizer, eu e o meu amigo arquiteto.O nome dele é Elcio.
Chegando lá, fui examinado e ai foi que o Dr. Pietro me disse:
-Temos que operar já... é quase fratura exposta.
- Anestesia local? perguntei.
- Não... tem ser raqui ou peridural...
Gelei e gritei, sem pestanejar:
- Na minha coluna ninguém mexe... chama a minha mulher... liga pra lá... vai buscar, ninguem mexe em mim antes da minha mulher chegar...
- Pelo menos vamos colocar o pé no lugar... ele está virado...
- Virado?
- É... está virado, quebrou todo o tornozelo...
- Anestesia local?
- Pra isso sim, anestesia local...
- Só isso... e mais nada...
Anestesia local, pé no lugar e a Marli chegou...
Respirei aliviado...
- Não deixa ninguém mexer na minha coluna, não! - gritei desesperado.
Ela conversou com os médicos, eles insistiram que era necessário a operação, quanto mais cedo melhor...
Eu não estava em condições... pedi para ir embora e voltamos para casa... entalado e com a promessa de voltar uma semana depois.
Voltei e o estrago já estava feito: o calor da fratura provocou várias bolhas, a operação foi feita, os parafusos colocados, mas a cicatriz não ficou uma brastemp, pois as bolhas não deixaram...
Quase seis meses para a recuperação... em casa, deitado, sem encostar o pé no chão...
Disso tudo a certeza que havia alguma coisa além do que eu podia ver... alguma coisa que eu suspeitava dentro de mim, mas não tinha coragem ainda de encarar...
O tempo daria um jeito, mas isso é uma outra história.
Abraço fraterno.