terça-feira, 1 de novembro de 2011

O Corte de Cabelo

- ! conta mais alguma coisa que tenha acontecido com você e que marcou!
- Conto sim. Já te contei do meu primeiro corte de cabelo?
- Corte de cabelo? não, acho que não.
- Pois é... eu tive um primeiro corte de cabelo na minha vida...
- Não me diga... faz muito tempo né? afinal, você já tá velhinho.
- Eu velhinho, mesmo. Mas eu lembro como se tivesse sido ontem.
- Quanto anos você tinha, vô?
- Eu tinha uns cinco anos, mais ou menos.
- Nossa! cinco anos sem cortar o cabelo? Devia estar enorme...
- Até que não. O meu cabelo não era lisinho, era encaracolado, dava a impressão que não tinha muito cabelo não.
- Quase igual que hoje, né?
- Como assim, netinha?
- O teu cabelo também dá a impressão que não tem muito não, meio ralinho...
- É verdade, mas hoje tem razão de ser, o tempo passa, os cabelos caem , enfim...
- Mas, conta , não enrola não...
- Um certo dia, chegou a minha irmã dizendo que o meu cabelo tava muito grande, que precisava cortar, que já tinha ido ao barbeiro e conversado com ele, pra cortar o meu cabelo...
- Nossa , assim? sem mais nem menos?
- Pois é... assim...
- Imagino o trauma...
- Vai vendo... me pegaram pela mão e lá fomos nós, descendo a ladeira...
- Como assim,? Descendo a ladeira?
- É que eu morava na Rua Coperema, lá no Cangaíba. Essa rua ficava bem no altão e o barbeiro ficava na Avenida Cangaíba, bem no baixão...
- Ah... entendi! conta o resto...
- Bem... descemos a ladeira e chegamos na barbearia, ele estava todo de branco, vestia um jaleco, tinha um bigode aparado e no cabelo tinha muita bilhantina.
- Brilhantina? Explica , o que é essa tal "Brilhantina"
- É uma coisa muito parecida com o que vocês usam hoje e chamam de gel.
- Nossa, e eu pensando que gel era coisa super moderna...
- Como nos fala Lavoisier: na natureza nada se perde, tudo se transforma... portanto a brilhantina de ontem é quase que o gel de hoje.
- Tudo bem, continua !
- Chegando lá o barbeiro colocou um banquinho de madeira em cima da cadeira de barbeiro que tinha no salão...
- Cadeira de barbeiro? Igual que as de hoje?
- Quase igual, eram mais pesadonas, mas não tinham muita diferença não...
- E você , o que sentiu?
- Eu fiquei paralisado... vendo todo aquele ritual... todo aquele espetáculo... e eles falando para que eu ficasse calmo, que não ia doer nada, coisas do tipo...
- Não ia doer nada? mas cortar cabelo nunca doe...
- Só que eu não sabia, eu nunca tinha cortado cabelo, lembra?
- Lembrar eu lembro, mas dava pra perceber, não dava não,?
- Eu não percebi, eu só sei que estava bem assustado com tudo aquilo e comecei a chorar desesperado...
- E o pessoal? o que fizeram?
- Minha irmã ficou desesperada, pois não entendia como um simples corte de cabelo podia ter provocado tamanha reação... tentava me acalmar, mas não tinha jeito...
- Então você não cortou o cabelo na primeira vez?
- Deixa eu contar, não me apresse...
- bom...
- O cabelo ia sendo cortado enquanto a minha irmã tentava me acalmar, isso é o que eu queria dizer... o cabelo ia caindo, eu via os meus cachinhos de anjo serem derrubados um a um... sem volta...
- Que triste,... eles continuaram? não tiveram dó de você?
- Nenhuma dó, nenhuma tristeza...
- Mas porque ? Eles não gostavam de você?
- Gostavam, claro... mas eu precisava cortar os cabelos, pois o pessoal pensava naquela época que os cabelos muito grandes impediam a gente de crescer...
- Ah! E você? era pequenininho mesmo?
- Eu não era muito grande com essa idade, mas eu não acreditava nessa história, eu queria os meus cachinhos de volta...
- Eles não devolveram não, né vô?
- Devolveram nada, nem guardaram um cachinho de recordação... nada mesmo.
- Nossa , que irmã mais desalmada que você tem...
- Não é bem assim, netinha. Ela tinha lá suas razões e foi minha mãe que pediu para ela me levar e cortar os cabelos. Eu é que não tinha conhecimento suficiente para saber que um dia isso seria necessário.
- Ainda bem que você entendeu...
- Entendi sim, e entendi também que na vida existem coisas que nos acontecem para que nós tenhamos a experiência que precisamos.
- Como assim,?
- É verdade... é como podar uma árvore, uma planta. A gente poda para que ela cresça melhor e mais forte. Com a gente é a mesma coisa. As experiências acontecem para que a gente fique mais forte e consiga superar as  limitações.
- Nossa , você aprendeu tudo isso naquele dia?
- Claro que não, naquele dia eu só pensava em chorar, chorar muito. Com o passar do tempo é que vamos percebendo uma porção de coisas...
- Será que eu vou passar por essas coisas também?
- Pode não ser um corte de cabelo, os tempos mudaram muito, mas as experiências virão de acordo com a sua necessidade...
- Ai vô, tô até com medo...
- Não precisa medo, pois como diz o ditado: Deus dá o frio conforme o cobertor!
- Ainda bem, !
- Ainda bem, netinha!

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