segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O Efeito

- Netinha, chamou o vovô.
- Fala vô, respondeu a netinha.
- Você tá muito quieta hoje, não quer escutar histórias  nem nada?
- Ah, vô, eu tô meio preocupada com algumas coisas que estão acontecendo comigo...
- Que coisas?
- Coisas estranhas, vô. Às vezes eu me pego sentindo umas coisa muito esquisitas e parece que tem gente pertinho de mim...
- E a sensação é boa ou não?
- Às vezes é boa, às vezes não...
- Conta mais, porque hoje pelo jeito é você que vai contar uma história...
- Vô, outro dia estava na casa da Manuela, aquela minha amiga da escola...
- O que você foi fazer lá?
- Eu fui passar a noite lá, lembra? Festa do pijama, era aniversário dela e todas as amigas dormiram na casa dela?
- Ah! Lembro sim...
- Pois é, vô. Naquela noite eu percebi que existem coisas mais estranhas que essas que o senhor conta.
- Não me diga...
- Já disse, agora não tem mais jeito, pois bem... naquela noite quando parecia que tava todo mundo dormindo eu escutei um barulhão na cozinha, fiquei toda arrepiada e sem saber o que fazer.
- Não fez nada?
- Fique bem quietinha... só escutando...
- Só você ouviu?
- Não... de repente todo mundo acordou também e começaram a perguntar o que era...
- E o que era?
- Ninguém sabia, porque ninguém teve coragem de ir ate a cozinha pra ver, estávamos com muito medo!
- Interessante!
- O senhor só diz "interessante"?
- Eu digo isso porque realmente é interessante... conta mais, conta.
- Estávamos com medo mesmo. A Fernanda quase desandou a chorar, pedi pra ela ficar quieta, pra podermos escutar melhor, a Juliana respirava tão rápido que pensei que ela ia ter um treco e a Helena colocou a cabeça debaixo do lençol pra se esconder...
- Não diga, então o pânico foi geral?
- Pior é que foi, vô.De repente, apareceu a mãe da Manuela...
- Ela ouviu o barulho também?
- Acho que não, pelo menos ela não disse nada...
- O que ela foi fazer lá então?
- Foi verificar o que estávamos fazendo, pois ela ouviu o barulho sim, mas da nossa conversa e ficou preocupada com aquilo...
- A mãe da Manuela é gente boa, fica ligada!
- É verdade, vô. Ela está sempre por perto, para o caso da gente precisar de alguma coisa. Pois bem, ela apareceu e perguntou por quê tanta conversa, se a gente não sabia que horas eram, essas coisas de mãe...
- É, eu sei como é... comigo é a mesma coisa...
- Isso, isso!
- E vocês, o que falaram?
- Ai nós falamos do barulho...
- E ela?
- Ela disse que não ouvira nada... nós insistimos, porque o barulho foi realmente de assustar, parecia que tudo estava caindo lá na cozinha...
- E ela, falou o quê?
- Primeiro pediu que nos acalmássemos, pediu pra gente contar tudo como tinha acontecido...
- Vocês contaram?
- Vô, parece incrível, mas todo mundo contou a mesma história, e parecia que todo mundo tava dormindo, mas tava todo mundo acordado...
- E a mãe da Manuela? O que ela fez?
- Falou que tinha sido imaginação da nossa cabeça, que aquilo de barulho era história pra boi dormir, que essas coisas de assombração não existiam...
- Mas, quem falou em coisas de assombração?
- Esqueci de contar, mas a Fernanda falou que o pai dela disse que essas coisas acontecem quando tem muita meninada junta...
- Não me diga, ele é espírita também?
- Eles são espiritas, sim, vô, igual que a gente e a Fernanda falou pra mãe da Manuela, só que a mãe da Manuela não acredita nessas coisas...
- É um direito que ela tem, afinal de contas todos somos diferentes, temos histórias diferentes e posições diferentes... mas conta mais, conta.
- Bem, eu só sei que ninguém ficou discutindo com ela, afinal ela é muito bacana. A Fernanda pediu para ela ir com a gente verificar se estava tudo em ordem, pois se não tivesse teríamos um trabalhão para colocar as coisas no lugar, pois o barulho foi de queda total...
- Foram todas juntas?
- Claro vô, quem disse que alguém sairia de lá sozinha? A mãe da Manuela, a dona Iracema, foi na frente...
- E vocês?
- Êh vô, claro que depois dela né?
- É verdade, só podia ser...
- Pois bem, fomos todas, em fila indiana, a dona Iracema na frente, nós todas tremendo, uma após a outra... devagarinho, sem piscar, prendendo a respiração, olhando para todos os lados, cheias de medo e terror...
- Nossa netinha, que drama!
- Drama mesmo, vô. Tava todo mundo muito tenso, nós todas estávamos com os nervos à flor da pele... ninguém piscava.
- Imagino, um bando de meninas pré-adolescentes juntas... só podia dar nisso mesmo! Mas termina, vai!
- Vô, a dona Iracema entrou na cozinha sozinha... ela não teve medo nenhum, parecia uma supermulher de tanta coragem...
- É o que eu digo: "mãe é mãe".
- É isso mesmo, vô... ela entrou com cuidado mas corajosamente... nós ficamos do lado de fora, só esperando que ela nos mandasse entrar...
- Demorou muito?
- Pra quê, vô?
- Pra ela mandar vocês entrarem?
- Que nada, logo que ela acendeu a luz da cozinha, olhou e pediu que todas nós entrassemos lá!
- Assim, rápido?
- Rápido assim, vô... ela nem pestanejou, entrou, olhou e pronto... a hora que eu entrei não acreditei no que eu vi...
- O que você viu?
- Nada vô, absolutamente nada...
- Como assim: nada?
- Nada fora do lugar, vô. Tava tudo certinho, nada estava pelo chão, tudo do jeito que ela tinha deixado antes da gente dormir...
- Rapaz... eu já sei o que aconteceu...
- Olha, vô, você pode até saber, mas eu fiquei super sem jeito, eu e a Fernanda.
- Sem jeito porquê?
- Porquê, vô? Nós dissemos que foram espíritos que aprontaram aquela algazarra toda e a mãe da Fernanda ficou só dando risada da gente...
- Não liga, para ela não aconteceu nada mesmo, ela não acredita... mas nós sabemos que aconteceu e isso é o que importa.
- Será vô? Às vezes eu fico pensando se não é imaginação da gente, se isso tudo não passa de explicação para nossa imaginação..
- Não é não, netinha. Daqui a alguns anos você estará lá no Centro  e entenderá tudo isso que, aparentemente, não tem explicação hoje. Ai você saberá que os espíritos aproveitam a doação generosa de fluidos pela adolescência para aprontar algumas de vez em quando...
- Mas os espíritos não são todos assim, né vô?
- Claro que não e você sabe disso. Esses são espíritos que ainda gostam de aprontar e se divertem com isso.
- Eu fico imaginando a cara deles, zombando da gente naquela noite...
- Deve ter sido muito engraçado para eles mesmo...
- É vô, um dia ainda vou saber todos os mistérios que existem entre a terra e o céu...
- Pode ser, mas prepare-se, pois como diz Shakespeare: "existem mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia".
- Nossa vô, quem é esse?
- Isso é outra história, depois eu conto. Agora, vamos tomar um cafezinho com pão de queijo?
- Ai sim!

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