domingo, 4 de novembro de 2012

Galácticos

A manhã começou muito ruidosa...
O ainda estava dormindo... é falação pra cá, falação pra lá e o só escutando...
Daqui a pouco uma entra e pergunta:
- , tem tesoura?
- Pra quê a tesoura?
- Pra gente fazer um negócio, precisamos cortar uma cartolina pra fazer um cartaz...
- Na cozinha deve ter uma, naquele negócio onde ficam as facas... dá uma olhada lá... antes que eu esqueça: tomem muito cuidado...
- Pode deixar, ...
Ela saiu rapidinho, daqui a pouco o começa a escutar de novo:
- Passa a cola...
- Toma a cola, diz a outra...
- Me passa a tesoura, deixa eu cortar aqui...
- Onde estão aquelas bolinhas de isopor?
- Acho que a tia escondeu...
- Procura, gente, procura...
- Achei, gritou uma outra...
- Corta pelo menos umas cinco no meio...
- Pra quê? - indaga a mais nova...
- Pra que fique parecido com planetas e estrelas...
- Mas vai ficar tudo branco assim? fica sem graça... - diz a outra
- Claro que não vai ficar assim... trate de pintar...
- Onde está o guache?
- Deve estar na mesa da tia, ela tem todas essas coisas por ai...
- E a cartolina, vai ficar branca?
- Deixa branca mesmo, a gente pinta bem colorido os planetas...
- É... assim destaca mais... - diz a menor
A manhã transcorreu nesse corre-corre infernal... coisa pra cá , coisa pra lá...
Passada uma hora mais ou menos a algazarra parou... o ficou apreensivo... criança quieta é criança aprontando...
De repente, não mais que de repente, irrompe, quarto a dentro as três genias da criação:
- Galácticos... tan tan tan... galácticos... tan tan tan...
Elas entraram correndo e gritando feito torcida uniformizada e com a faixa, feita em cartolina branca com meias bolas de isopor coladas e coloridas e várias estrelas cintilando, pintadas à mão...
- Gostou vô? - perguntaram a uma só voz.
- Adorei... ficou ótimo... parabéns... agora... tem uma coisa...
- O quê, vô?
- Que lição tiraram de toda essa atividade?
- Como assim "lição", vô?
- O que vocês aprenderam fazendo essa faixa?
- Aprendemos a pintar, cortar com cuidado, ter ideias, fazer...
- Como podemos chamar a atividade que vocês desenvolveram?
- Ué... isso tem nome?
- Tem sim...
- Qual o nome disso então,?
- Trabalho em equipe...
- Nossa, é mesmo ! - disse uma delas.
- Nem tinha pensado nisso... - falou a outra...
- Eu participei também, . - diz a mais nova...
- Claro, todas participaram...
- Por isso chama trabalho em equipe - interrompeu a mais velha...
- Isso aí... e o melhor de tudo é que podemos trabalhar em equipe sempre...
- É mesmo, vô, na escola a gente faz trabalhos em equipe e fica muito legal...
- Isso quer dizer que tudo o que conseguimos fazer sozinhos fica muito melhor quando fazemos em equipe, somando ideias e oferecendo oportunidade para que surjam sempre novos talentos em todas as atividades que estivermos desenvolvendo...
- Tudo bem, vô... já entendemos... - disse uma delas.
- Agora temos que ir embora... - disse a outra.
- Afinal, os jogos começarão já, já - completou a mais nova...
Essa turma é rapidinha mesmo!!!



terça-feira, 7 de agosto de 2012

"Olbluais"


- Oi, vô!
- Oi, netinha, tudo bem?
- Tudo bem... eu queria saber mais sobre como foi que começou a tua história na Seara...
- Eu contei um pedaço já...
- É, contou, mas eu quero saber a continuação, tipo "Seara parte 2"... pode ser?
- Pode sim... eu acho bem interessante, principalmente porque as coisas continuaram de maneira superestranha...
- Como assim, vô?
- Imagina que eu tinha uma amiga de infância , que tinha uma irmã , que eu não via fazia muito tempo, mas muito tempo mesmo... pois essa moça apareceu na Seara...
- Como assim, apareceu? Ela tinha desencarnado?
- Não, eu não tinha contato com ela há muitos e muitos anos e, surpreendentemente, fui reencontrá-la na Seara.
- E ai, o que aconteceu?
- Aquela conversinha de quem não se vê há bastante tempo, como vai, como estão os parentes, etc...
- Só isso?
- Quase só isso... sem essa nem aquela ela falou: "Acho que vou fazer um curso, vou ver quais estão oferecendo"...
- E o que isso tem a ver?
- Tudo... eu não sabia dessa "história de curso"...
- E?
- Eu fique matutando que eu também poderia fazer um curso, estava de alta, estava assistindo só o A2, tinha tempo... era o momento ideal...
- E que você fez?
- Fui ver os cartazes...
- E daí?
- Dai que eu estava passando e um cartaz parece que começou a brilhar e piscar, igual que anúncio de neon...
- Brilhar? piscar? neon?...
- É... anúncios de neon são movimentados, brilham, apagam, dão a impressão que tem vida própria... esse cartaz tinha todas essas características...
- Que curso era esse que tinha "vida própria"?
- O nome do curso era: "O Evangelho de João e o Apocalipse"...
- Nossa, com um título desses só brilhando e tendo vida própria mesmo...
- Pois é... aquilo ficou na cabeça... fui ver onde poderia fazer a inscrição...
- Achou?
- Achei, as inscrições eram feitas na secretaria.
- E ai?
- Eu fui lá, perguntei como fazer a inscrição...
- E depois?
- Na verdade, aqui é a parte mais interessante dessa "parte 2" da história...
- Porquê, vô?
- Foi aqui que eu conheci o Sr. Hellmuth...
- Quem é esse, vô?
- Era o responsável pelas matrículas nos cursos... ele tinha olhos azuis profundíssimos...
- É mesmo, vô?
- É mesmo... quando eu perguntei como fazer a inscrição ele me perguntou se eu não queria fazer o Curso Básico... e me explicou que aquele que eu queria era um curso mais complicado, talvez eu não compreendesse, que no básico eu teria  informações sobre mediunidade e tudo o mais...
- E você vô, o que falou pra ele?
- Eu disse que não queria saber nada sobre mediunidade , o que eu queria mesmo era saber sobre o Evangelho...
- E ele, o que fez?
- Menina, ele ficou me olhando... simplesmente me olhando...
- Não falava nada?
- Não falava nada... só me olhava... media de alto a baixo, olhava como se estivesse vendo com a "visão além do alcance"...
- Nossa vô, igual que um Thundercat?
- Igualzinho, ficou um tempão olhando...
- E você?
- Eu fiquei esperando até que, meio impaciente, disse pra ele me responder...se podia ou não podia!
- E dai?
- Dai que ele resolveu me inscrever...
- Ufa, vô, fiquei preocupada, pensei que ele não ia te inscrever...
- Eu também mas, felizmente, ele disse sim pra mim...
- Ainda bem, senão seria muito ruim pra você, não é mesmo?
- Eu acho que sim, mas vamos continuando... as aulas começariam em agosto, seriam aulas aos sábados...
- Só aos sábados?
- Só, esses cursos tem um aula por semana, é praxe...
- Ah!
- Sei que esperei o dia do início do curso com muita ansiedade... parecia que o tempo não passava, mas passou... o dia chegou...
- Nossa vô, que emoção... imagino o senhor no dia...
- Nem te conto, foi um dia emocionante por vários motivos...
- Quais motivos, vô?
- O primeiro deles é que, depois de muitos anos, eu estava de novo frequentando alguma coisa relacionada com a espiritualidade que eu gosto muito, depois a certeza de aprender coisas novas, outras visões, outros pontos de vista e,  finalmente, encontrar algumas respostas que eu ainda não tinha encontrado...
- E ai, vô? como o pessoal te recebeu?
- Me receberam com muita curiosidade, ninguém me conhecia e todos se conheciam, pois eram todos trabalhadores da Seara, eu era o "peixe fora d´água"...
- Como assim, vô?
- Depois eu fiquei sabendo que o curso não era aberto a todos, era aberto só para os trabalhadores, tinham alguns pré-requisitos...eu entrei pela boa vontade do Sr. Helmuth... lembra que ele ficou me olhando um montão de tempo?
- Lembro sim, vô...
- Pois eu acho que nesses momentos ele deve ter mantido um papo muito sério com os amigos espirituais e decidido me aceitar, pois até então aquilo era um fato inédito... e eu agradeço de coração a boa vontade dele e de todos os que estavam com ele naquele momento e, também, os que do meu lado intercederam por mim para que eu retomasse as atividades espirituais na minha vida...
- Nossa vô... você tem umas histórias que parecem duas...
- E são duas na verdade, a primeira foi essa  e a segunda tem a ver com uma amiga que conheci naquele curso...
- Que amiga, vô?
- A Nair... era ela que ministrava o curso e eu fiquei encantado com a maneira como ela falava do Evangelho, era tudo o que eu queria ouvir: um Evangelho dito de maneira a que todos pudessem compreender, de maneira leve, fluente, emocionada...
- Nossa vô, fico imaginando...
- Eu nunca tinha ouvido ninguém falar do Evangelho daquela maneira e isso me deixou com mais vontade de aprender... isso sem contar a experiência maravilhosa de poder desfrutar da amizade e do carinho de todos aqueles trabalhadores que me receberam tão bem, me ajudaram nas dificuldades e me proporcionaram alguns dos mais belos momentos de minha vida...
- Vô, desse jeito eu vou chorar...
- Eu já estou chorando só de lembrar de tanta gente maravilhosa que me abriram as portas para um admirável mundo novo, cheio de respostas, de incentivo, de companheirismo e, principalmente, de responsabilidade...
- Puxa, deve ter sido maravilhoso mesmo...
- Não foi só maravilhoso, foi um marco na minha vida, a primeira vez que me coloquei de frente pra mim mesmo e me descobri imortal, pleno da graça divina e com a eternidade para conquistar a minha emancipação como Espírito...
- Agora tenho que ir vô, fique com suas emoções, igual que o Roberto... 
- Que Roberto?
- Que Roberto, vô? ... O Roberto Carlos... aquele do "são tantas emoções"...
- Ah... ai sim!



quarta-feira, 20 de junho de 2012

O bêbado e a equilibrista

- Vô, porquê tem gente que bebe tanto?
- Porque ainda não sabem o mal que isso pode lhes fazer. Ninguém faz nada contra si mesmo que tenha certeza que possa prejudicar a sua saúde.
- Tem tanta gente que fala que faz mal, será que esse povo não entende isso, vô?
- Não é que não entende, até entende. É que a ficha ainda não caiu. Não sentem, ainda, os efeitos da bebida.
- Quando é que esse povo vai entender?
- Cada um tem seu momento de entendimento. A vida é assim mesmo. As lições são individuais, ou seja, o que  serve para que eu aprenda pode não ser aprendizado para o outro e vice-versa.
- Nossa vô, a vida é muito complicada. Será que um dia eu vou conseguir entender tudo isso direitinho?
- Algumas coisas sim e outras não, justamente porque você, assim como toda a Humanidade, vai ter lições que servirão só pra você... serão do teu tamanho, terão a tua cara e você aprenderá se quiser, porque se não quiser não haverá quem te faça entender...
- Nossa, vô... eu espero aprender tudinho, sem errar nadica de nada...
- Tenha muito boa vontade com você e com os outros, assim fica mais fácil.
- É verdade, a gente não fica no pé de ninguém e vive melhor, né vô?
- É bem isso, a gente vai aprendendo, vai corrigindo, vai vivendo...
- E você, vô... já bebeu um dia?
- Já... mas é uma longa história... tá com tempo?
- Eu tô, minha mãe só vem mais tarde... conta ai, vô!
- Vamos começar desde o começo... eu não bebi durante muito tempo, nem durante a minha adolescência...
- Nossa, vô! nem uma cervejinha?
- Eu bebia muito raramente... eu não lembro realmente de ter bebido a ponto de gostar , mas vamos em frente...
- É, vamos em frente...
- Lembra que eu fui trabalhar com o meu pai?
- Lembro, você contou da outra vez.
- Pois bem, eu casei, e depois de uns oito anos, mais ou menos, montei uma locadora de vídeo, eu gostava muito dessas novidades e, além disso, era um bom negócio, um negócio com muitas possibilidades de dar certo.
- Mas vô... e a livraria que você tinha com o teu pai?
- Acontece que uma grande editora estava de olho no ponto, eu pedi ajuda para uns amigos de outras editoras, mas não tive chance de aguentar a investida deles.
- O que você fez, vô?
- Eu tinha conhecimento com uma editora do Rio de Janeiro que tinha lojas em São Paulo, editava e vendia livros jurídicos. Eu ofereci o ponto pra eles...  e eles toparam. Pagaram uma quantia pelo ponto e eu sai, sem muito é verdade, mas com a chance de recomeçar.
- E a locadora de vídeo?
- Então... eu vendi porque a locadora estava já montada. Não era grande não, mas a coisa começava a andar. Tinha uma clientela boa, apesar do lugar não ser o melhor em termos de estacionamento, mas a garotada da região ia lá para alugar videogames de "última geração"...
- Nossa vô, você alugava videogames, também?
- Nós tínhamos uma loja bem completa, apesar de não termos muitas cópias do mesmo game. Foi ai, que apareceu um moço que queria ser meu sócio. Fizemos a sociedade e mudamos de endereço, pois ele tinha já arrumado um ponto bem melhor e com estacionamento, numa avenida próxima de onde nós estávamos.
- Sociedade é bom, vô?
- É bom sim, nos dá a oportunidade de melhorarmos o que temos e, melhorando, ganhar mais do que ganhávamos.
- Vocês ficaram muito tempo como sócios?
- Na verdade não. Houve um desentendimento e rompemos a sociedade, mas isso não impediu o crescimento da loja, pois nós tínhamos um atendimento nota dez, um acervo super atualizado e ótima localização, além de termos sido pioneiros nessa região com esse tipo de comércio. A coisa andou e muito bem...
- E ai, vô, onde entra a bebida na tua vida?
- Depois, deixa eu contar mais um pouco... a loja ia bem e resolvemos, eu e a tua vô, montar mais uma, pertinho daquela, pois o movimento atraia a atenção e fiquei com medo que abrissem uma loja concorrente.
- Montou?
- Montamos e foi um sucesso também, nome diferente, logotipo diferente, tudo diferente, depois mais uma, mais um convite de um amigo para montarmos um ponto na empresa em que ele trabalhava e assim por diante...
- Rapaz, tava com tudo, hein?
- É verdade, a coisa andava bem, mas ai eu já bebia, não muito, mas bebia. Aos sábados a gente ia para uma padaria que tinha perto e ficávamos um bom tempo bebendo e comendo.
- O pessoal gostava disso?
- Gostava e todos bebiam com moderação, inclusive eu... mas a coisa começou a descambar quando acabaram com os "filmes piratas"... tivemos que fechar as lojas e ficamos só com uma e o ponto na empresa do meu amigo. Aí veio a vontade de vender, eu estava meio cheio de tudo e acabei vendendo a loja, contra a vontade de todos, foi uma decisão quase unilateral...
- Vô... que coisa triste, você contrariou toda a família?
- No meu modo de entender as coisas aquilo era o melhor a fazer, eu não estava conseguindo ter satisfação no trabalho, a situação estava muito ruim pro meu lado, estava com uma filha pra nascer e sem dinheiro... não estou justificando nada, estou só contando o cenário da decisão...
- Ainda bem que não está justificando...
- Não estou mesmo, eu sei que fiz coisa errada, mas isso eu sei hoje, na época eu entendia que era a melhor coisa que eu tinha feito... fiquei com um bom dinheiro, fiquei com o ponto na empresa, e com tempo... ai eu comecei a beber um pouco mais...
- O tempo sem fazer nada te ajudou nisso, né?
- Eu tenho a impressão que sim, mas eu optei por isso, eu gostei disso... mas o tempo foi passando o dinheiro acabando e senti a necessidade de montar uma loja de novo... ai apareceu um ponto na Vila Filomena, as coisas não estavam bem, nem na vida pessoal e nem na vida profissional. O ponto apareceu na hora "h"... alugamos o imóvel e começamos a montar a loja, só que não tínhamos muito dinheiro e foi montada meio assim, assim... mas deu certo, muito certo.
- De que jeito, vô?
- Os videos que estavam naquela empresa eu trouxe todos pra loja, nós tínhamos quase 1000 videos lá e era um bom acervo, eu nunca tinha montado uma loja com tantos vídeos assim. Resultado: sucesso quase imediato.
- E ai, vô?
- Ai começamos a ganhar dinheiro de novo, e mais tempo ocioso, mais bebida...
- Quer dizer, vô, que é assim: ganhar dinheiro, beber e dormir?
- Quase, netinha, mas isso não podia continuar por muito tempo. Depois de nove anos de bebida as coisas ficaram muito mal, eu bebia das 10h00 até a hora de dormir... quase um engradado de garrafas de cerveja por dia...
- Não morreu por muito pouco, né vô?
- É verdade, eu não morri por que a tua avó resolveu me levar num centro espírita, pra ver se dava jeito...
- E deu, né vô?
- Deu sim, e eu agradeço até hoje ela ter tomado essa decisão.
- Ainda bem... que centro ela te levou?
- Na Seara Bendita, lá no Campo Belo... foi lá que eu me achei comigo mesmo.
- Nunca mais bebida, nem cigarro?
- Nunca mais bebida, nem cigarro... valeu o aprendizado. 
- Eu tô indo, vô. A minha mãe chegou... 
- Te vejo amanhã...

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Férias à luz de velas

- Vô, a mamãe me disse que vamos em férias num cruzeiro... o que é cruzeiro?
- É uma viagem de navio, ele vai parando em alguns portos, as pessoas se divertem, conhecem alguns lugares e assim por diante.
- Dentro do navio tem alguma coisa pra fazer?
- Tem muitas atividades, pois os organizadores sabem que as pessoas precisam ficar fazendo alguma coisa para não sentirem saudades nem ficarem entediadas...
- Isso quer dizer que não vão dar sossego pra gente?
- Mais ou menos, atividades durante praticamente todo o dia.
- Sem intervalo?
- Eles colocam alguns intervalos para que as pessoas possam descansar e colocar a correspondência em dia, ligar para a família, entrar no facebook e assim vai...
- Legal, vô... você já passou férias em um cruzeiro?
- Não, ainda não tive essa oportunidade... deve ser bem legal.
- Se você tivesse oportunidade de ir, você iria num cruzeiro?
- Com certeza... eu adoro o mar e me sentiria muito à vontade... conheceria mais pessoas ainda e me divertiria muito...
- Quando você tinha a minha idade, onde você passava as férias?
- Eu não tinha uma programação de férias como você tem hoje. As coisas eram mais simples...
- Mas você tinha férias... ou não?
- Tinha sim mas normalmente não ia para algum lugar, ficava em casa mesmo...
- Como assim?
- A gente aproveitava e brincava muito... 
- Brincar é muito bom, eu também gosto, quando não saio para passear nas férias eu brinco muito também...
- Então... é exatamente isso, eu brincava muito... tinha muito amigos e todos nós nos reuníamos para atividades bem interessantes...
- Que tipo de atividade, vô?
- Quase as mesmas que a garotada tem hoje, quando não estão nas salas assistindo televisão ou jogando videogames de última geração...
- Como assim, vô?
- As crianças hoje, pela situação que estamos vivendo, não tem muita liberdade, não podem sair de casa e, por isso, ficam com atividades muito reduzidas, apesar de serem boas...
- Vocês brincavam na rua?
- É isso, nós brincávamos na rua e tínhamos muitas brincadeiras...
- Nossa, vô... não tinha perigo? não tinha carros na rua? não tinha assaltos?
- Perigo tinha sim, carro tinha sim e assalto tinha sim, só que eram em menor número, a gente vivia mais sossegado e, por isso, nossas mães e pais não se preocupavam tanto...
- Que da hora, vô!
- Era bem da hora, mesmo. Pra você ter uma ideia: eu saía de casa por volta das 7h30 da manhã e só voltava pra almoçar, mais ou menos ao meio-dia...
- Tua mãe deixava, vô?
- Claro, eu ficava pertinho de casa, num lugar onde a gente jogava futebol, jogava taco, brincava de esconde-esconde, pula-sela e outras tantas...
- E depois do almoço, vô? Você dormia?
- Dormir? Nem pensar... acabava de almoçar e, quase imediatamente, voltava pra continuar com as brincadeiras...
- Como diria o Silvio Santos... Isso é incrível!
- Parece mesmo, mas as coisas eram assim... e tem mais...
- Mais ainda, vô?
- É... em algumas férias, quando eu não morava neste bairro, eu vinha passar as férias na casa de minha irmã...
- Ai, viu? você passava férias fora, como se fosse um cruzeiro...
- Mas não tinha navio, não tinham essas atividades de hoje, mas mesmo assim eu curtia bastante...
- O que você fazia. nessas férias?
- A mesma coisa, brincava com os amigos que ia fazendo a cada ano, jogava futebol, andava de bike, jogava taco, futebol e assim por diante...
- Tudo igual?
- Praticamente... tinha uma pequena diferença...
- Qual, vô?
- Como o bairro era novo, ainda não tinha luz elétrica nem água encanada...
- Que é isso, vô? Como vocês faziam para assistir televisão? e pra tomar banho?
- Televisão a gente não assistia não, banho tomava sim... de bacia.
- Nossa!? Bacia? E você cabia dentro da bacia?
- Eram bacias grandes, a gente esquentava um pouco de água e ia temperando com água fria até ficar na temperatura que a gente queria...
- Até ai, tudo bem... mas sem televisão? O que você faziam?
- Acredite se quiser... a gente lia!
- Sem luz?
- Sem luz elétrica, mas à luz de velas... eu ficava até as tantas lendo as revistas que a minha irmã tinha em casa...
- Vô, que coisa louca!!!
- É... nessa época de minha infância as coisas eram "bem loucas" mesmo!

domingo, 27 de maio de 2012

Profissão: marido

O ano era 1975. Depois de muitas faltas, particularmente às segundas-feiras, pedi demissão do emprego. Eu trabalhava nas Indústrias Villares, pertinho das Nações Unidas.
Eu namorava e a namorada morava longe, então ficava difícil o acordar cedo na segunda-feira pois eu não tinha carro e os ônibus demoravam um bocado para fazerem o percurso do Butantan até o Jardim Consórcio.
Com o tempo eu fiquei muito chateado e vexado da situação e, como eu preferia namorar, resolvi pedir demissão...
Ninguém vai perguntar nada?
Terei que continuar a narrativa sem ser interrompido?
Que tristeza! Eu não aguento, continuarei escrevendo somente depois que ela chegar...
Quem?
Ora... a minha netinha, senão vai ficar muito sem graça, eu já não consigo escrever sem ter a pestinha ao lado, perguntando e escarafunchando o meu "passado tenebroso"...
Pois é, ela não vem mesmo... vou continuar mesmo assim.
O fato todo é que eu fiquei sem emprego, sem dinheiro e sem mais nada.
Com o passar das semanas apareceram algumas oportunidades: uma delas foi muito interessante. O trabalho consistia em comprar contas de luz de indústrias. O alvo eram as panificadoras pois elas tem o status de indústria, transformam a farinha em pão, além de outras tantas coisas gostosas como sabemos. Tinha que visitar as padarias e comprar as tais contas, pois nelas estava incluída uma contribuição que, passado algum tempo, seria restituída. Nós comprávamos as contas por um preço menor e depois vendíamos pelo preço de mercado.
O negócio era bom, mas eu não conseguia vender, ou melhor comprar, absolutamente nada. Resultado? Acabei desistindo da atividade, depois de algum tempo.
Um certo dia, meu irmão viu a notícia que o Metro de São Paulo estava recrutando pessoas para a linha Norte-Sul. Metro, companhia de economia mista, eu estrangeiro, será que era possível? Ele disse que sim, era possível, justamente por isso, não era uma estatal mas sim uma empresa de economia mista.
Peguei o endereço e lá fui eu. Cheguei dentro do horário. Esperei chegar a minha vez. Era um emprego para auxiliar administrativo.
A espera não foi muito grande, havia poucos candidatos e a entrevista era mais para encaminhamento mesmo. 
Finalmente fiquei de frente com a entrevistadora.
Cumprimentos, aquela coisa toda. 
Começam as perguntas de praxe, vai pra lá, vem pra cá.
O que está estudando? Na época eu fazia Comunicação Social na FIAM, antes de ser comprada pela FMU, tudo bem, tudo certo.
No meio da conversa, a pergunta veio à queima-roupa:
- Planos para o futuro?
A resposta veio quase automaticamente:
- Casar, ter filhos, construir família.
- Profissão marido? perguntou ela.
- Acho que sim, respondi.
A partir dai o encerramento da entrevista, dia tal você liga, essas coisas.
Foi a partir desse instante que eu me peguei pensando porque eu respondi aquilo, afinal eu nunca quisera me casar, nunca quisera ter filhos... confesso que não entendi muito bem aquele momento.
Onde estaria a explicação?
Eu namorava realmente, havia já um bom tempo, mas eu não tinha essa vontade de casar, namorávamos e isso era o que importava.
Talvez tenha sido ai que eu fiquei realmente com vontade de casar, de ver concretizado aquele tempo de conhecimento, afinal só conhecer para depois ir embora não era o ideal e fazia tempo que nós estávamos namorando.
O tempo passou, três ou quatro dias se não me engano. Liguei para ver o resultado. 
Surpreendentemente havia sido aprovado.
Fiquei pensando novamente: será que foi a resposta? 
Tenho quase certeza que sim, pois a entrevistadora deve ter visto sinceridade naquele momento e avaliado que eu seria um empregado estável pelos planos de futuro que eu fazia.
Bem, até ai tudo bem. Comecei a trabalhar no Metro. Trabalhava no Paraíso, no CCO, junto com o Engenheiro Stanislav, com a Engenheira Olívia e outros que, perdoem a fraca memória, eu não consigo lembrar os nomes.
Tudo caminhava muito bem, emprego bom, não pagava Metro, na época tínhamos um bilhete especial, confeccionado em material plástico que não estragava e que não tinha limite para uso.
Foi em janeiro de 1976 que aconteceu o fato que mudou a minha vida.
Meu pai, trabalhava com livros, tinha um ponto de vendas na Universidade Mackenzie, no Diretório Acadêmico Eugênio Gudin, da Faculdade de Ciências Contábeis, Administração e Economia.
Ele já tinha mais de 60 anos, era um pouco mais velho do que eu sou hoje. Estava cansado, pois trabalhou a vida toda. Desde que chegara ao Brasil, não havia se dado muito bem, passando por empregos os mais variados, para garantir o sustento de todos nós.
Essa era a melhor chance que ele tivera. Ele comprara a banca de livros do seu patrão, o João Milanelli. O João era um cara legal, deixava tudo nas mãos do meu pai. Meu pai retribuía a confiança, portando-se de maneira honesta e eficiente.
Um certo dia o João Milanelli, disse que ia vender e se o meu pai não queria comprar. Meu pai se virou, arrumou o dinheiro com algumas pessoas e comprou. Ia tocando sozinho, mas não aguentou, pois era muito trabalho. Eram pacotes e mais pacotes de livros que ele tinha que pegar nas Editoras e levar para o ponto de venda. Realmente era um trabalho estafante. Ficou sozinho quase um ano, mas não resistiu. Foi ai que ele pediu para que eu o ajudasse. Talvez tenha pedido porque quando ele precisou de dinheiro eu ainda trabalhava na Villares e pedi um empréstimo lá na Cooperativa para que ele juntasse o suficiente para comprar o ponto do Milanelli, sei lá.
O importante é que convidou e eu... aceitei.
O pessoal ficou doido, só três meses de Metro, uma empresa muito boa, uma empresa de futuro, quase funcionário público... ninguém entendeu nada.
O certo é que a partir de fevereiro eu estava com ele. Dividíamos o trabalho, ele me pagava o que eu precisava para as minhas despesas, eu continuava namorando, ele ajuntando dinheiro para comprar uma casa para ele e para minha mãe.
O trabalho ia de vento em popa, era um bom negócio. Eu, sem querer, acabei me dando bem na troca. Ele conseguiu juntar o dinheiro, comprou a casa, mudamos, pois eu ainda morava com eles e foi ai que eu comecei a ver a previsão se concretizando: eu agora queria casar, tinha possibilidades disso, era só marcar a data. 
Conversei com a Marli, marcamos a data e chegando o dia, casamos. Festa sem muito glamour, sem o luxo de hoje, mas uma festa que tinha de tudo: bolo e champanhe. Percebeu que não éramos ricos, né?
Lua de mel em Praia Grande, na Colônia de Férias dos Comerciários, oferecida pelo cunhado.
Dias de sol, dias de chuva, a volta ao lar e o reinício do trabalho.
A partir dai tudo o que eu não imaginava começou a acontecer: casado, filhos chegando, filhas chegando... e tudo sem que eu tivesse pensado nisso a vida toda, pois o que eu queria era só namorar. Lembrei da entrevistadora do Metro: Profissão marido?
Por essas e outras é que eu digo que a espiritualidade leva a gente no tapa. A gente vai pensando uma coisa e as coisas vão sendo encaminhadas para outra direção... mas isso é história para quando a neta estiver comigo, perguntando... perguntando... e perguntando.




terça-feira, 1 de maio de 2012

Entre cães e pulgas

A sala estava meio às escuras. O avô estava meditando sobre alguns fatos do passado, passado bem distante, tão distante quanto ele estava naquele momento. A sua memória o levou até um fato muito interessante, a idade dele nesse episódio devia ser, mais ou menos, dez anos.
Dez anos não era muito mais do que tinha a neta perguntadeira que acabara de chegar e acabou com a "meditação".
- Que cara é essa, vô?
- Como assim, "que cara é essa"? A minha cara de sempre... alguns dias mais velho, é claro!
- Parecia que você estava longe, muito longe...
- Eu estava mesmo, estava há mais ou menos cinquenta  anos longe daqui...
- Como assim? Cinquenta anos luz?
- Não é pra tanto, cinquenta anos mesmo, estava lembrando de um fato muito interessante que me aconteceu quando eu tinha mais ou menos dez anos de idade...
- Conta pra mim que eu quero ver se era interessante mesmo...
- Vou contar, sim... afinal, quem mais gosta de ouvir minhas histórias?
- Todo mundo gosta, vô... é que o povo não tem muito tempo...
- Você sempre gentil... obrigado... mas vamos lá. Este fato aconteceu mais ou menos em 1962. Naquele tempo era muito comum as famílias se reunirem em mutirão para arrumar alguma coisa...
- Mutirão? Hoje também tem mutirão, era a mesma coisa?
- A ideia é a mesma, mudam os objetivos. O mutirão daquela época era para fazer alguma coisa entre vizinhos, família, essas coisas. Hoje em dia o mutirão é mais amplo, mais abrangente, ajudam-se mais pessoas.
- Tá certo. Continua vô, continua com a história.
- Pois bem, estava todo mundo na casa da minha irmã, porque tinha um barranco enorme no quintal dela, um barranco muito grande e tinham que tirar a terra para deixar o terreno todo no mesmo nível...
- Pra quê, vô?
- Porque as crianças poderiam brincar melhor, sem tanto perigo de cair. Minha irmã tinha duas filhas e era preciso tomar cuidado com elas.
- Bom, criança em primeiro lugar - disse a pequena e riu, riu bastante...
- É bem assim. Eu também era criança, mas era maior que elas. Meu pai estava ajudando a tirar o barranco, cavocava a terra, derrubava aquilo tudo e o pessoal ia tirando de lata em lata para uma depressão que tinha em frente à casa. Isso levava um tempão.
- Também, vô, de lata em lata... é bem devagar mesmo...
- Era mesmo. O meu pai fumava, e estava sem cigarros. Ele fumava muito mesmo. Pediu para que eu e meu irmão fossemos comprar cigarros pra ele... Nesse dia um amigo meu, da minha classe da escola, estava lá...
- E estava ajudando?
- Na verdade não, nem eu estava ajudando também, estávamos só olhando...
- Por isso teu pai pediu pra você comprar os cigarros, pra você fazer alguma coisa...
- Nossa, você tá sem graça hoje, né?
- É brincadeirinha... conta mais vô!
- Então... pegamos o dinheiro e saímos para a venda, era um pouco longe, tinha que andar bastante...
- O teu amigo foi junto?
- Foi sim, fomos eu, meu irmão e meu amigo. Logo que saímos de casa encontramos um senhor chamado Luiz. Ele tinha dois cachorrinhos e estava passeando com eles. De repente, os cachorros se enroscaram um no outro, pelas correntes.
- E ai, vô?
- Ai, que ficou uma situação muito engraçada e eu brinquei falando que as pulgas poderiam passar de um para o outro pelas correntes e cai na gargalhada...
- E o homem?
- Ficou uma fera, falou um monte pra mim, que eu era um moleque, que eu é que tinha pulgas, que os cachorros eram muito limpos, coisas do tipo...
- E você?
- Eu fiquei sem graça, sem saber o que fazer...
- E os outros?
- Eu pensei que meu irmão fosse me defender, mas o que ele fez me deixou pior ainda...
- O que foi que ele fez, vô?
- Me deu um tapa, um tapa não... me deu vários tapas na cabeça e ficou pedindo desculpas pro homem...
- Ele tinha que ficar do teu lado, não é mesmo vô?
- Eu acho isso também, mas ele me deu foi vários tapas, na cabeça...
- E o teu amigo?
- Ficou bem quieto... a coisa não era com ele, acho que ele se inspirou em Pilatos...
- Quem é esse vô?
- É um personagem da história, que disse que não era com ele e lavou as mãos, mais tarde você compreenderá...
- Nossa, vô... você não fez nada?
- Fiz... quando cheguei em casa contei tudo pro meu pai... 
- E o que ele fez?
- Chamou o meu irmão e perguntou o que tinha acontecido... o meu irmão contou a história do jeito dele, nem mencionou os tapas, só falou que eu tinha sido mal educado com o homem e por isso ele passou uma vergonha tão grande que não sabia onde se esconder, tudo por minha causa... eu pedi ajuda pro meu amigo e, novamente, ele ficou de fora, disse que não viu nada... eu chorei o dia todo, ninguém acreditou em mim, só por que eu era uma criança...
- Nossa vô, você guardou isso por muito tempo dentro de você?
- O pior é que guardei, fiquei sem falar com o meu amigo durante um tempão, achei que ele foi de uma omissão imperdoável... mas o tempo acabou fechando as cicatrizes...
- Nossa vô, cicatrizes? que dramático!
- Exagero meu, as coisas entraram em seus eixos pouco tempo depois. Eles sempre me trataram bem, sempre que podiam me agradavam com presentes e assim por diante... esse meu irmão e eu eramos muito unidos e ainda somos, nos amamos muito...
- Ainda bem, vô. Não gostaria que você tivesse sofrido uma vida inteira por causa de uma bobagem dessas...
- Bobagem? queria ver se tivesse sido com você...
- É brincadeirinha, vô... eu sei que a dor só dói em quem sente...
- Ainda bem...


sábado, 21 de abril de 2012

A dona da fazenda

O vô estava muito quieto, parecia que dormia, mas estava só observando a chegada da netinha. Ela vinha devagar, provavelmente para assustá-lo. Quando ela estava bem pertinho, ele abriu os olhos e disse bem alto:
- Buh!!!!!!
- Ô vô... que susto!!!
- Se eu não te assustasse você é que ia me assustar, não é!!?
Os dois caíram na gargalhada, afinal era aquilo mesmo... um assustando o outro e assim por diante...
- Que há de novo? perguntou o avô.
- De novo, novo, nada.
- E porque tava andando tão devagarinho?
- Pra te assustar, ué... você sabia!
- Saber eu sabia, mas não tem mais nada?
- Acho até que tem... lembra da história da bruxa que você contou?
- Lembro, sim...
- Então... eu fiquei pensando se não tinha mais nada parecido na nossa família...
- Parecido não, mas existem outras histórias que podem ser contadas...
- E porque não começou a contar ainda?
- É que eu ando meio lerdinho, mas vamos começar... Teve um tempo que uma das minhas filhas trabalhava com uma prima, lá naquele conjunto empresarial que tem na Rua Stella, perto do Paraíso...
- Esse Paraíso é um bairro, não é vô?
- Isso mesmo, pertinho da Avenida Paulista, superperto da Avenida 23 de Maio...
- Tá, agora não perde tempo não e conta...
- Pois bem, uma vez por mês a filha pedia para que fosse pegar a cesta básica que ela recebia da empresa e lá ia eu...
- Porque tinha que ser você, vô?
- É que eu trabalhava em casa, tinha horários livres e podia ir sem atrapalhar o trabalho.
- Ah...
- Eu pegava o carro da outra filha e ia até lá... subíamos até o andar onde ela trabalhava, pegávamos a cesta básica e voltávamos para casa...
- A cesta era muito pesada, vô?
- Na verdade não, o peso aumentava à medida que o tempo ia passando porque as coisas são assim mesmo, por mais leve que seja o fardo o tempo faz com que ele fique mais pesado pelo nosso desgaste físico...
- Quer dizer que temos que nos livrar logo dos pesos da nossa vida?
- Isso... exatamente isso. Se nós não nos livramos dos pesos da vida eles aumentam e fica mais difícil  carregar...
- Entendi...
- Netinha, você tá ficando muito esperta mesmo!!! mas vamos continuando...
- Isso, vô... vai daí!!!
- Você sabe que essa tua tia tem um gênio de fazer inveja a qualquer um, não é? pois bem, ela anda sempre meio mau humorada, parece até que a vida é terrível pra ela...
- Nossa, vô... eu não acho tudo isso não... de vez em quando só que ela está mau humorada...
- Tá, pode ser que eu esteja exagerando, mas o que importa é que nesse dia eu entendi o porquê...
- Entendeu o porquê do mau humor dela?
- É verdade, eu descobri que ela tem esse mau humor por um motivo muito interessante...
- Conta vô, conta logo...
- Pois bem, nós descemos até o estacionamento, tínhamos que sair por lá, porque era sábado, se não me engano e a portaria não funcionava...
- E ai, vô?
- No caminho tive uma visão muito interessante do nosso relacionamento anterior...
- Como assim, vô? Relacionamento anterior?
- É... coisas de outras encarnações... igual que a da bruxa... lembra?
- Claro, é que eu pensei em outras coisas...namoro, marido e mulher, coisas assim...
- Não, o nosso relacionamento nessa época era profissional mesmo...
- O que era vô?
- Deixa eu te contar da visão... vi um grande campo e, tanto eu quanto ela, vestidos com roupas de fazenda, num tempo muito longe...
- Como ela estava vestida, vô?
- Ela estava vestindo um vestido bem comprido, todo rodado, tinha luvas brancas, o cabelo todo enrolado dentro de um chapéu com fita... e uma sombrinha...
- Sombrinha? o que é sombrinha, vô?
- Sombrinha é um tipo de guarda-chuva, só que pode ser usado para proteger do sol...
- Ah... ela não queria ficar queimadinha... que nem a outra, né vô? brincadeirinha...
- De mau gosto, diga-se de passagem...
- Desculpa, vô, eu sei que o caso da bruxa foi sério, muito sério...
- Tá, desta vez passa...
- Continua, vô... como é que você estava?
- Cansado, muito cansado, porque na visão eu também estava carregando um fardo muito pesado e era muito mais velho que agora...
- Nossa, vô...
- Eu tenho a impressão que eu era empregado dela, desses que carregam as coisas para os patrões, quase um escravo...
- Como é que você estava vestido?
- Eu estava com um chapéu desses que parecem de tocador de boiada, uma camisa xadrez simplesinha, botinas e uma calça com um cordão de barbante grosso fazendo como se fosse um cinto...
- Ô coisinha brega, hein vô?
- Põe brega nisso... o modelito era de arrepiar... foi ai que eu percebi que ela era dona de fazenda e eu era empregado dela, nós não éramos parentes, éramos patroa e empregado...
- Será que é por isso que ela tá quase sempre de mau humor?
- Pode ser, a prova da riqueza é muito difícil, mas a da pobreza também...
- Será que ela gostava mais de ser rica do que ser pobre?
- Quase todos pensam dessa forma, mas esquecem que tudo é necessário e que precisamos aproveitar as experiências da melhor maneira possível...
- Porquê, vô?
- Porque senão não vale a experiência, uma coisa que é oferecida para que nós melhoremos relacionamento, atitudes, posturas diante da vida e não aproveitamos não tem razão de ser e nos obrigará a outras experiências que talvez não sejam tão fáceis de passar...
- Quer dizer que temos que aproveitar senão piora?
- Eu não diria que piora, mas pode piorar... pode ser uma outra prova que nos deixe mais chateados ainda...
- É... não é fácil não...
- Mas não é impossível, o que temos que fazer é aproveitar as oportunidades e transformá-las em alavancas que nos farão progredir...
- É verdade... tomara que eu consiga aproveitar as oportunidades...
- Tomara...

segunda-feira, 26 de março de 2012

A volta do filho pródigo


- Bom dia, vô! disse a netinha, com ar de preocupação.
- Bom dia, netinha... tá preocupada com alguma coisa?
- Eu gostaria de saber um pouco sobre o que é "filho pródigo"...
- Posso saber o porquê?
- Claro, vô... é que eu ouvi essa frase outro dia: "voltou como o filho pródigo", e fiquei querendo saber o que isso  tem a ver com a vida da gente...
- Interessante... essa expressão é usada devido a uma história que Jesus contou aos seus apóstolos.
- E trata do quê, vô?
- Trata de dois irmãos, um pai e uma série de questões relacionadas com a humanidade de maneira geral...
-Tudo bem, vô, mas você fala de um jeito que eu entenda?
- Claro que sim, do contrário não adianta nada eu contar e você não entender...
- Então conta...
- Jesus quando esteve entre nós contou várias histórias e essa é uma delas, vamos lá... Um senhor tinha dois filhos, um deles chegou e pediu a parte dele da herança.
- Herança?
- É... um direito que os filhos tem sobre o dinheiro dos pais depois que eles desencarnam, ou em vida, se entrarem em um acordo...
- Ah! entendi... continua, vô!
- O pai deu o dinheiro pra ele. Em seguida o rapaz foi embora, pois queria aproveitar a mocidade e conhecer o mundo, só que ele passou por situações que ele não esperava, encontrou a fome, gastou o dinheiro com mulheres, bebidas... e um dia o dinheiro acabou...
- Nossa, vô... acabou tudo?
- Acabou tudo, ele ficou sem nada, nem pra comer...
- O que ele fez?
- Tentou arrumar um emprego, pois tinha vergonha de voltar para a casa do pai dele naquele estado...
- Ele conseguiu, vô?
- Conseguir ele conseguiu, mas o emprego não era dos melhores, ele arrumou emprego de tratador de porcos e, pior ainda, só podia comer o que sobrava da alimentação dos porcos, as tais alfarrobas...
- Alfarrobas? Essa é danada... o que é isso?
- É uma espécie de vagem, como a do feijão... eles davam isso para os porcos pelo seu valor nutritivo...
- Legal...
- Só que ele foi percebendo que  tinha errado feio ao sair da casa do pai dele... estava sem dinheiro, sem ter onde morar e, ainda por cima, comendo a comida que sobrava dos porcos que ele alimentava...
- E o que ele fez, vô?
- O que qualquer pessoa normal faria: percebeu o erro, tratou de colocar o orgulho em seu devido lugar e voltou ao lar paterno, para que o pai dele o empregasse como um  trabalhador comum na sua propriedade...
- Será que o pai dele ia aceitar isso, depois de tudo o que ele fez?
- Aceitou e mais: ficou super contente com a volta do filho...
- Não me diga?
- Verdade... o pai mandou fazer uma grande festa para recepcionar o filho que estava de volta, mais maduro, mais consciente do seu papel e mais agradecido pelos benefícios que tinha em casa.
- Nossa, vô...mas ainda não entendi o porquê da expressão: "voltou como o filho pródigo"...
- Como voltou o filho da história de Jesus?
- Sem dinheiro, cansado e querendo um trabalho...
- Pois é isso mesmo, ele voltou sem dinheiro porque foi pródigo, ou seja gastou demais e ficou sem dinheiro nenhum...
- Quer dizer que todo mundo que fica parecido com o filho pródigo é porque voltou sem dinheiro e arrependido?
- É isso mesmo... o importante de tudo é entender que não importam os erros que tenhamos cometido, as faltas que teremos que reparar, o importante é confiar no pai, pois ele nos dá sempre as chances que precisamos para retornar ao lar e continuar com o carinho dessa grande família chama humanidade...
- Na nossa família teve algum caso parecido com esse?
- Toda família tem, em maior ou menor grau, e nós devemos agir como o pai da história de Jesus: receber de coração aberto os que voltam ao nosso convívio, não importando os erros que eles tenham cometido.
- Valeu, vô...
- Valeu, netinha...




sábado, 10 de março de 2012

Labirintite?

O avô estava pensando, sentado no sofá da sala quando os seus pensamentos foram interrompidos... por quem? Ela, a pequena notável que chega como quem nada quer e vai embora carregando todo o amor que possamos lhe oferecer...
- Vô, como eles tratam de drogados no plano espiritual? Você sabe alguma coisa disso?
- Hummmm... mais ou menos.
- Como assim: mais ou menos?
- Eu estava aqui pensando numa operação que havia feito e tenho um caso interessante para você...
- Conta então, vô... tem a ver com drogas e drogados?
- Não a operação, o seu desdobramento sim...
- Então vamos lá...
- Vamos começar do começo. Eu tinha um calombo no peito que me incomodava...
- O que é calombo, vô?
- Calombo é um inchaço, uma espécie de tumor que acaba incomodando muito a gente...
- Dói, vô?
- Doer não dói não, só incomoda, mas vamos continuar... eu tinha consulta com a doutora do posto de saúde, ela me examinou e eu, ao final da consulta, perguntei se ela poderia me encaminhar para um especialista.
- Ela encaminhou você, vô?
- Encaminhou sim. Me mandou para o Ambulatório de Especialidades Jardim dos Prados. Marquei a consulta e, depois de vários dias, fui consultado.
- E ai, vô? o que aconteceu?
- Eles tiraram algumas radiografias e constataram o problema. Disseram que precisava operar, mas que era uma operação simples, ambulatorial.
- Ambulatorial? 
- É, quer dizer que não necessitaria ficar internado, que eu seria operado e poderia ir para casa... andar de volta para casa...
- Ah!!!
- Me deram algumas orientações, entre elas a de parar de tomar o AAS, pois o sangue fica difícil de coagular quando se toma esse remédio...
- E você, vô?
- Eu fiz tudo direitinho, parei o AAS cinco dias antes de operar, fui em jejum para a mesa de operação e a dita cuja começou...
- Foi tudo bem, né vô?
- Foi sim, só um pequeno problema, o diagnóstico não estava completamente certo, pois ao invés de quisto sebáceo era uma hérnia de hiato, que eles não conseguiram enxergar pela radiografia...
- Nossa vô... e agora? 
- Agora não tinha mais jeito e, também, não tinha tanta diferença assim: tinha que tirar do mesmo jeito... ele tirou a gordura que estava acumulada costurou um pedaço do esôfago e fechou o corte... o problema só ficaria maior se, por algum motivo, eu tivesse uma recaída.
- Uma recaída? Como assim, vô?
- Se a hérnia tornasse a aparecer. Precisaria uma outra operação e teriam que colocar uma tela para proteger as paredes de sustentação... mas não deu problema nenhum e não tive que refazer a operação...
- Tá vô, agora me conta: onde entram os drogados?
- Eu chego lá... lembra do AAS que eu parei de tomar?
- Lembro vô, o que tem?
- Acontece que eu comecei a sentir tonturas, uns quatro ou cinco dias depois da operação...
- Tontura? 
- É... como se fosse labirintite e eu não sofro de labirintite.
- Nossa vô... o que isso quer dizer?
- Quer dizer que eu fiquei super preocupado, e se fosse uma sequela da operação? E se tivesse acontecido alguma coisa que mexeu com o meu labirinto e estava me desequilibrando?
- Sequela é isso, então? alguma coisa que fica diferente depois que a gente opera?
- É... podia ser alguma coisa desse tipo. Eu fiquei assim alguns dias...
- E ai vô, aconteceu alguma coisa diferente?
- Aconteceu.
- O quê, vô?
- Eu estava sentado no sofá da sala, quando senti a presença do meu amigo Enoque...
- Enoque?
- É... ele é um trabalhador da espiritualidade e desenvolve um trabalho muito grande junto da equipe do Luiz Sérgio, junto aos drogados...
- E o que ele faz, vô?
- Não só ele mas toda a equipe, ajudam, recolhem e encaminham espíritos que foram drogados enquanto estavam encarnados para várias instituições no plano espiritual...
- E onde entra a tal labirintite?
- É ai que eu vou chegar... ele ficou preocupado com a minha preocupação e me mostrou o que eles estavam fazendo em casa com os drogados que não tinham condições ainda de deixar a crosta...
- Crosta?
- É esta parte da Terra que nós habitamos e muitos espíritos ainda não tem condição de serem levados pois estão muito densos e dependentes das drogas que usavam antes da desencarnação...
- Agora sim, vô, tava meio confuso pra mim...
- Calma que tô chegando lá...
- Tomara, vô!
- O Enoque e a equipe colocaram um equipamento super sofisticado bem em cima daquela parte mais alta, em cima do salão, que serve para renovar o ar...
- Aquela que tem os vidros?
- É, aqueles vidros são chamados elementos vazados, pois facilitam a entrada e a saída do ar... mas veja,  pelo que ele me falou, o equipamento é super moderno, eu dei uma olhada e vi...
- O que você viu, vô?
- Era uma espécie de câmara de recuperação, tinha uma tubulação que a deixava repleta de um gás muito especial que fazia a oxigenação das células perispirituais deles, dos que estavam deitados lá...
- Quantos eram, vô?
- Eu tenho a impressão que vi oito leitos ocupados, todos pareciam dormir...
- Dormir?
- É, eles precisavam ficar isolados, pois poderiam sofrer muito fora das câmaras. 
- Quanto tempo eles ficaram lá?
- Alguns dias mais. Foi então que o Enoque me disse o que estava me acontecendo...
- E o que era então, vô?
- Acontece que a máquina tinha uma vibração muito grande para poder fazer o serviço com os drogados, e essa vibração estava interferindo com o meu labirinto...
- Por isso você ficava tonto?
- Exatamente por isso... Ele teve que diminuir um pouco a vibração para que eu não me sentisse mal enquanto a máquina era utilizada...
- Nossa, vô!
- Veja só que coisa netinha, mesmo as coisas do lado de lá, quando estão na mesma vibração que a gente, incomodam e nos fazem sentir coisas que não sentimos normalmente, coisas que não conseguimos explicar sem auxílio da espiritualidade...
- É verdade, vô... e continuou acontecendo?
- Depois disso nunca mais senti nada e eles continuam trazendo os drogados e tratando lá, quando existe essa necessidade...
- Ainda bem que você não sente mais, né?
- É verdade e isso é pra gente perceber como somos bem tratados pelos nossos amigos espirituais, sempre preocupados com o nosso bem estar.
- Ajustam até as máquinas... ai sim!




segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Os Mensageiros

Sem ninguém esperar ela chegou e perguntou à queima-roupa:
- Vô, por quê esse povo briga tanto?
- Agora sim, netinha... agora a coisa ficou feia...
- Por quê, vô?
- Porque tem uma série de explicações pra isso... mas vamos começar do começo... de novo.
- Por quê do começo, vô?
- Porque nem tudo o que vemos hoje é de hoje mesmo, normalmente o pessoal briga muito pelas muitas contas a acertar e não consegue entender que isso é uma oportunidade muito grande para fazer de maneira diferente o que fizeram em outros tempos.
- Quer dizer que nem tudo é desta vida, vô?
- Nem tudo...
- Mais ou menos quanto é desta vida?
- Eu acredito que chega a mais de 70%... mas nós atraímos muito do passado porque não mudamos a nossa maneira de ver a vida...
- Quer dizer que se mudar a nossa maneira de ver a vida, as coisas mudam?
- Mudam sim... é questão de ver a vida com outros olhos... não podemos esquecer que somos todos médiuns e que nos associamos às correntes mentais que vibram na mesma frequência que a nossa...
- Para vô, troca em miúdos...
- Desculpe... trocando em miúdos: se pensarmos em coisas boas, nos associamos com os que pensam em coisas boas, se pensamos em coisas não tão boas, nos associamos com os que pensam em coisas não tão boas...
- Entendi... só não entendi ainda porque o pessoal briga tanto...
- Está relacionado ao fato de todos sermos médiuns, mas não sabermos isso de maneira consciente...
- Como assim, vô?
- Nós temos muitos bloqueios ainda, muitos preconceitos e isso atrapalha a nossa maneira de ver e entender o que temos que fazer neste mundo...
- O que isso quer dizer, vô?
- Isso quer dizer que, muitas vezes, lembramos de compromissos do passado mas não queremos fazer diferente, e isso atrai companheiros de pensamento...
- O que acontece então, vô?
- Acontece que eles ficam buzinando na nossa mente, buzinam palavras, nos instigam contra os que deveríamos fazer as pazes e assim as coisas vão tomando um rumo não muito bom  na vida...
- Mas você não falou que 70% não é desta vida?
- Falei, mas quando você começa a dar ouvidos a esses espíritos você fica desequilibrado e começa a fazer um monte de bobagens...
- E ai?
- Ai que fazendo um monte de bobagens, você vai acumulando problemas e mais problemas... até que fica insuportável levar a vida...
- Nossa, vô... o que fazer então?
- Procurar ajuda...
- Onde, vô?
- Onde? Num centro espírita...
- É mesmo, vô... o centro espírita é o melhor lugar para tratar de problemas espirituais...
- Isso mesmo. Milagres não existem, mas a ajuda espiritual nos faz ver a vida de maneira melhor e dessa forma nós vamos resolvendo os problemas que apareceram pelo nosso desequilíbrio...
- Arruma a vida encarnada, os tais 70%...
- Isso mesmo, sobraram os 30% originais e como estamos equilibrados, temos mais oportunidades de acertar a vida com aqueles que vieram nos cobrar nesta encarnação...
- Tudo vai se encaixando, né vô?
- A vida nos oferece todas as oportunidades que precisamos para conquistarmos tranquilidade, nós é que normalmente não acreditamos nisso...
- Mas vô, você disse que isso acontece porque todos somos médiuns? Não seria melhor deixar esse negócio de mediunidade de lado?
- Não temos como deixar isso de lado, isso é do ser humano, não é de religião... o que temos que fazer é educar essa mediunidade para tirarmos proveito dessa ferramenta que nos ofereceram e melhorar a sintonia com os desencarnados...
- É difícil, né vô?
- Difícil sim, impossível não... precisamos deixar de lado o preconceito e começarmos a ver a vida de maneira mais feliz e mais cheia da luz de Deus. Não adianta ver demônios somente, mas entender que os ditos demônios são espíritos que ainda não atingiram um grau de evolução satisfatório e que por isso nos influenciam para o mal...
- Mas não é só culpa deles, né vô?
- Claro que não, na verdade não existem culpados, o que existe é nível de evolução. Tanto os que influenciam  quanto os que se deixam influenciar, simplesmente agem de acordo com o seu nível de evolução. Por isso é necessário, repito, que eduquemos a nossa mediunidade.
- Complicado de entender...
- O tempo vai fazer você entender direitinho, por enquanto o que vale é pensar cada vez melhor, em coisas boas, em coisas de amor...
- Amor?
- É... amor... o amor está no ar, é só questão de sintonizá-lo e evitar as interferências de outros tipos de pensamento...
- Será que esse povo vai entender?
- Não sei, cada pessoa tem seu momento, mas tenho certeza que a Humanidade caminha para melhor... vamos caminhar também...
- Vamos sim, vô.



terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A Feiticeira


- Vô!... vô!...
O vô ficou só esperando a tempestade irromper sala adentro... ela já estava no corredor, faltavam poucos segundos para iniciar a maior tempestade que já tivéramos notícia...
De repente a tempestade materializou-se ali, na frente dele...
- Oi vô!
O vô ficou só olhando:  as faces da netinha estavam vermelhas, o rosto todo suado, e a pergunta que não queria calar estampada em todo o seu ser:
- Vô... você já conheceu alguma feiticeira?
Por essa o avô não esperava, afinal feiticeiras não são assunto de todo dia para uma criança, mesmo para uma criança esperta, inteligente e saudável... por isso esperou alguns segundos antes de responder.
- Que tipo de feiticeira?
- Tipo? e feiticeira tem tipo?
- Claro que tem... tanto hoje quanto no passado.
- Nossa vô, por essa eu não esperava...
- Pois é, as coisas não são tão simples quanto parecem... as pessoas generalizam e esquecem que cada pessoa é uma pessoa e o que ela apresenta hoje não é necessariamente o que apresentou em tempos remotos.
- Vô, por favor, fala de maneira que eu consiga entender? Que história e essa de "tempos remotos"?
- Desculpe, pequena... vou trocar em miúdos: tempos remotos são tempos que já passaram...  e  passaram há bastante tempo!...
- Entendi. O que você quer dizer com isso?
- Quero dizer que as feiticeiras de hoje já não fazem os tais feitiços que esse povo vive dizendo por ai. As feiticeiras de hoje quase não tem consciência de que um dia já foram chamadas assim.
- Por isso é que é difícil encontrar uma?
- Exato. Não se fazem feiticeiras como antigamente.
O avô ria, e muito.
- Vô, tá rindo de quê? O que você tá escondendo de mim? será que temos alguma feiticeira disfarçada na nossa família?
- Uma só, não: várias!
- Vô, me conta esse babado...
- Vou contar sobre a feiticeira que temos na família hoje, só que ela não sabe exatamente o que isso quer dizer e, pra falar a verdade, nem eu sei exatamente.
- Nossa vô, como assim?
- É que os tempos mudam e as denominações, os nomes que as pessoas dão a certos fenômenos também...
- Ah, isso tem a ver com o Espiritismo, pois o Espiritismo explica todas essas coisas, não é?
- Isso mesmo, netinha. Graças ao Espiritismo e ao avanço da Humanidade já não cometemos barbaridades como as cometidas durante o tempo da Inquisição.
- O que é essa tal de Inquisição?
- Foi um período de intolerância religiosa dos maiores que a Humanidade já presenciou... tudo em nome de Deus.
- Em nome de Deus? Explica, vô.
- Explico sim. A Igreja dominante na época tinha muito medo de perder as coisas que tinha conquistado durante tantos anos, pois depois que tornou-se a religião oficial do Império Romano estendeu sua influência por quase todo o mundo, transformando as ideias de Jesus, tão simples, em alguma coisa quase irreconhecível para o povo...
- Como eles conseguiram isso?
- Simplesmente não dando condições para que o povo compreendesse os ensinamentos de Jesus.
- De que jeito?
- Impedindo que o conhecimento fosse partilhado por todos. Não existiam livros em quantidade, e o conhecimento ficava fechado dentro de mosteiros, as missas eram rezadas em latim, e as explicações sobre os acontecimentos eram feitas com base em interpretações pessoais de quem queria continuar no poder.
- E a Inquisição?
- A inquisição fazia o policiamento sobre as pessoas, quem pensasse diferente, ou tivesse algum dom que não interessasse à Igreja era taxado de herege e adepto do demônio.
- Nossa, vô... e o que acontecia com esse povo?
- Eram presos, julgados e, muitas vezes, queimados na fogueira.
- Que horror, vô! e isso aconteceu com alguém que você conheça?
- Aconteceu.
- Como você ficou sabendo?
- Um dia uma de tuas tias contou que tinha medo de fogo, não gostava nem de brincar com isqueiro que ficava muito mal... quase que imediatamente começaram a aparecer imagens sobre ela em um tempo muito distante...
- Que imagens, vô?
- Imagens de uma cidade chamada Barcelona, um noviço correndo pelos campos da cidade, correndo muito, muito mesmo...
- Nossa vô, porque ele corria tanto?
- Ele trazia documentos que impediriam que ela fosse queimada na fogueira...
- Na fogueira, vô?
- É, na fogueira mesmo, ela estava sendo executada pela Inquisição e os documentos que ele trazia a livrariam desse tormento...
- Nossa vô, e ai?
- Ele corria e corria muito como já te falei, estava quase entrando na praça principal quando começou a ouvir os gritos de terror que a amiga soltava pela garganta afora, horrorizada pelo que estava acontecendo...
- Ele conseguiu, vô? conseguiu chegar e salvar a moça?
- Ele se esforçou muito, mas não conseguiu não, netinha...
- Que pena, vô...
- Uma pena mesmo, a moça foi queimada na fogueira, os documentos não conseguiram ser entregues e o noviço ficou desesperado...
- As visões acabaram, vô?
- Acabaram sim e ai eu pude entender uma coisa que não conseguia antes disso...
- Que coisa, vô?
- Antes da tua tia nascer eu fui consultado na espiritualidade sobre a possibilidade dela reencarnar... e eu aceitei trazê-la para reencarnar em nossa casa...
- Nossa vô, que lindo...
- Depois dessa visão eu entendi porque eles me consultaram. Eles queriam saber se eu estava em condições de receber em minha casa essa "feiticeira" que havia sido queimada em Barcelona... e eu aceitei com todo o meu coração e amor...
- Então , isso quer dizer que você era o tal noviço, vô?
- Era sim... e não consegui salvá-la, apesar de todo o esforço que fiz naquela época...
- Ela não teve nenhuma encarnação depois disso, só esta agora?
- Acredito que ela tenha tido sim, mas devem ter sido reencarnações preparadas para que ela percebesse que aquele momento já havia passado e que ela poderia recomeçar a viver, mas com certeza ela não tinha completo domínio de si mesma...
- Como assim, vô?
- É... uma reencarnação em que ela tenha vindo com alguma deficiência de entendimento, suficiente para que ela passasse encarnada e, ao mesmo tempo, pudesse ser auxiliada pelos amigos da Espiritualidade em relação ao trauma que ela carregava desde então...
- Entendi...
- Eu ainda não, mas me sinto tranquilo, pois fiz tudo o que estava ao meu alcance, tanto lá quanto cá...
- É isso aí, vô...
- É isso aí, netinha...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Gatinhas e Gatões

O dia começava como sempre: acordando não muito cedo, as netas chegando para passarem a manhã e a gatinha na cama do vovô.
As netinhas chegando, bom dia pra cá, bom dia prá lá, beijinhos e tudo o mais.
De repente, uma delas pergunta:
- Vô, porque essa gatinha tá sempre perto de você? porque ela gosta tanto de você?
O avô ficou pensando um pouquinho e começou a contar como eram as coisas antes da gatinha chegar.
- Bem, netinha, vamos começar do começo...
- Que começo, vô?
- O começo desta história... há algum tempo nós tivemos um cachorro morando com a gente, um cachorro muito bonito, presente de um tio dos meninos...
- O cachorro tinha nome, vô?
- Tinha sim, ele se chamava Mike... era da raça cocker, caramelo...
- Caramelo? Vô, ele era de doce?
O avô sorriu e continuou...
- De doce não, neste caso o caramelo é a cor, parecida com a cor do doce de caramelo...
- Ah, disse a netinha, continua vô...
- Quando o Mike chegou foi uma festa, todo mundo muito feliz, todo mundo contente... só eu estava preocupado...
- Preocupado? com o quê, vô?
- Estava preocupado com quem iria fazer a limpeza da sujeira que um cachorro produz...
- Nossa, vô? Cachorro faz tanta sujeira assim?
- Faz e muita... pra todo lado... e eu não tenho estômago pra ficar limpando tudo isso...
- Nossa vô, que fria!
- Fria mesmo...
- Resolveu de que jeito?
- Bom, uma das tuas tias ficou de fazer a tal limpeza, principalmente porque era ela a maior interessada no cachorro, pois tinha se encantado por ele...
- Muito justo, quer ficar com ele, limpa a sujeira dele...
- Mais ou menos isso...
- Porque mais ou menos, vô?
- Porque na teoria é tudo muito fácil e simples... mas na prática a coisa não funcionou exatamente como tínhamos combinado...
- Não, vô?
- Não... os restos ficavam quase uma semana para serem recolhidos e você pode imaginar o cheiro que isso deixava... na maioria das vezes quem acabava recolhendo era a tua avó ou eu mesmo, apesar de tudo...
- Que agonia, vô!
- É verdade, mas o tempo passou, o Mike foi ficando mais velho e um dia pegou uma doença grave e foi pro outro lado...
- Acabou a sujeira, vô!
- Pois é... a partir dai eu não queria mais animais em casa...
- Porque vô?
- Porque na hora "H" ninguém cuida, fica tudo pra mim ou pra tua vó... e eu não aguentava mais isso...
- Decidido, vô! sem animais em casa...
- Mas todo mundo ficou com vontade de ter um animalzinho de estimação...
- E você vô?
- Eu não, se quisessem ter animais em casa teriam que cuidar...
- Isso ai, vô..
- O tempo foi passando e ... de repente...
- De repente o quê, vô?
- Uma surpresa...
- Surpresa?
- É... uma surpresa muito pequenina...
- Conta vô...
- Um dia alguém chamou dizendo que tinha alguma coisa na cozinha...
- Que coisa, vô?
- Uma coisa peludinha, preto e branca e com muito medo, muito arisca...
- O que era vô?
- Uma gatinha... filhotinha... estava perdida na nossa casa...
- Não fala, vô... que coisa...
- Pois é... a gatinha estava toda medrosa, tinha vindo da rua, não sabia exatamente onde estava, só queria se esconder...
- E ai, vô?
- Bom, depois de algum tempo ela ficou mais amigável e foi chegando perto de todos...
- Vô, e você? o que você fez?
- Fiquei encantado com a gatinha...não tive coragem de colocá-la de volta na rua...
- Ficou em casa?
- Ficou... chamamos a danadinha de Corintiana...
- Corintiana?
- É... por causa da cor, lembra? preto e branco...
- Ah, é verdade... ainda bem que teve um final feliz... mas onde a Corintiana?
- Nem gosto de lembrar...
- O quê, vô?
- O dia em que ela morreu...
- Nossa, vô!
- É... ela morreu logo...
- Do quê, vô?
- Acho que morreu envenenada, pois um dia ela estava super estranha, correndo pra lá e pra cá e nós não sabíamos o porquê daquilo tudo...
- Que estranho, vô...
- Também achamos, mas como aparentemente ela estava bem, não ligamos muito não... só sei que quando chegou uma das tuas tias, veio a notícia... a gatinha estava morta no degrau da escada...
- Nossa vô... que triste...
- Foi mesmo, muito triste, principalmente porque ela era muito novinha, muito bonitinha, muito carinhosa..ficamos desolados, sem saber  o que fazer...
- Imagino...
- Os dias foram passando e ai chegou uma outra notícia: um gato novo estava a caminho de casa, presente do namorado da tua tia...
- Que bom, vô!
- Eu também achei, principalmente porque descobri que gato não dá tanto trabalho quanto cachorro...
- É mesmo, vô?
- É verdade, os gatos são mais tranquilos, tem um lugarzinho só deles, não fazem tanta sujeira, e assim por diante... Finalmente ele chegou... era muito bonito, branco e marrom, olhos azuis, vesguinho de tudo...
- Vesguinho, vô?
- É... estrábico... um olho numa direção, outro olho na outra...
- Muito estranho esse gato...
- O namorado da tia falou que era de raça, que esses gatos de raça são assim mesmo, vesgos...
- Entendi, mas não é esse que está sempre com você...
- Não é mesmo, apesar de me tratar muito bem, não é... A história não termina ai, porque tem ainda o episódio da chegada da Amarelinha em nossa casa... essa sim é a gatinha que está sempre comigo...
- Conta vô, conta logo...
- Um dia, de novo o alvoroço: Tem um bicho aqui... no mesmo lugar da Corintiana... a mesma maneira de se esconder, o mesmo medo...
- Nossa vô, superestranho...
- Hiper, Mega, Blasterestranho... eu fiquei sem saber o que fazer... de repente aparece uma gata, grande, magra e...
- E o quê, vô?
- Grávida! uma gatinha grávida na minha casa... parece nome de filme...
- Parece mesmo vô: grávida?
- Pois é, netinha, grávida... eu fiquei sem saber o que fazer, não me sentiria bem colocando a gatinha na rua, eu fiquei muito entusiasmado com a carinha dela... toda carente, toda precisando de ajuda...
- Imagino vô, acho que todos ficaram maravilhados...
- Ficamos mesmo, todos queriam ficar com a gatinha... pelo menos até que ela tivesse os filhotinhos...
- Que bom, vô!
- Bom mesmo, pois ela se transformou no xodó de todos, pelo seu jeito tranquilo, pelo carinho que tinha por todos, enfim, uma gatinha muito sensacional... Passado algum tempo ela teve os filhotes, nós os colocamos em lares que cuidaram deles com carinho...
- E ai, vô? O que vocês fizeram depois?
- Todo mundo quis ficar com ela, mas eu tomei alguns cuidados...
- Que cuidados, vô?
- Imagina se ela ficasse dando cria de tempos em tempos?... a casa ficaria lotada de gatos e ninguém aguentaria...
- O que você fez, vô?
- Pedi para que eles levassem a Amarelinha para castrar, pois isso evitaria que ela tivesse mais filhotes... e isso foi feito.
- Por isso que ela gosta tanto de casa?
- Claro, ela foi recebida e tratada com carinho na hora da necessidade, e todos agradecem o carinho recebido, não importa se são pessoas ou animaizinhos...
- É verdade, vô, todo mundo gosta de carinho, né?
- É verdade, por isso não devemos sonegar carinho... sempre que possível devemos oferecer o braço amigo, o ouvido atento, a palavra de conforto para todos os que nos procuram...
- Valeu, vô...
- Valeu, netinha...








segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O Triciclo

Ela entrou no quarto do vovô correndo, ofegante, parecia que não conseguiria parar:
- Vô, vô, vem ver, vem ver!
- Ver o que menina? senta um pouco, respira, relaxa e me fala: ver o quê?
- Vamos lá fora, você vai ver que coisa linda que eu ganhei do meu pai... vem logo,!
- indo, indo...
Quando chegaram lá fora, o avô quase perdeu a fala... estava diante do sonho de consumo de uma vida inteira.
As mãos nos olhos marejados pelas lágrimas, lembranças de tempos idos que não eram as melhores de sua vida, fizeram com que a netinha ficasse preocupada.
- Vô, você tá bem?, aconteceu alguma coisa? Não gostou da minha bicicleta?
- Claro que gostei, netinha...
- E tá chorando porquê?
- Sei lá, acho que é nostalgia...
- Nostalgia? que é isso?
- Nostalgia é um sentimento que não sabemos explicar muito bem, está relacionado com alguma coisa que quisemos muito e não conseguimos, ou perdemos com o tempo...
- Nossa , hoje você está muito esquisito, quer me explicar direitinho isso?
- Explico sim, talvez você compreenda melhor.
- Começa vai!.
- Faz muito tempo, eu queria ganhar uma bicicleta, mas infelizmente os meus pais não tinham como satisfazer esse meu desejo.
- Era muito caro uma bicicleta, ?
- Era e, além do mais eles não ganhavam muito, a família era grande e assim as coisas não eram muito fáceis.
- Então você não ganhava nada no Natal?
- Ganhava alguma coisa, mas não o meu sonho: o meu sonho era uma bicicleta.
- Nem nada parecido?
- Ganhei uma vez um brinquedo muito parecido com uma bicicleta, sim.
- Que brinquedo era esse, ?
- Era um triciclo!
- Triciclo? o que é isso?
- É parecido com uma bicicleta, só que com três rodas.
- Três rodas? Isso é bom, pelo menos não cai, não tomba!
- Até que é verdade, mas não tinha o mesmo gosto de aventura que uma bicicleta tem...
- Isso é verdade, mas conta, quem te deu esse triciclo?
- Foi meu pai e minha mãe. Um dia eles saíram de manhã e foram para a Penha...
- Penha? O que é isso?
- É um bairro. Eu morava no Cangaíba e a Penha era um bairro muito próximo, tinha um comércio bem desenvolvido, as lojas mais conhecidas estavam lá.
- Ah!
- Pois bem, nesse dia eles saíram de manhã e foram para lá, eu não sabia exatamente o que eles tinham ido fazer, mas alguma coisa me dizia que eu devia esperar uma surpresa muito boa...
- Você ficou muito nervoso? o tempo demorava pra passar?
- Fiquei sim, muito tenso e ansioso, parecia que o tempo não queria passar, mas passou. De repente, já eram coisa de 4h00 da tarde,  vi os dois subindo a ladeira da Rua Malacaxeta...
- O que você fêz?
- Eu fiquei só olhando, o meu pai estava carregando um pacote muito grande, e o pacote estava rodando... ele estava puxando ladeira acima...
- Você não saiu correndo ladeira abaixo, ?
- Assim que eu percebi o que era, sai correndo feito um louco... cheguei rapidinho, abracei e beijei os dois e fui logo tirando o papel que embrulhava o presente...
- Era o triciclo?
- Era, eu chorei de alegria, pois afinal, era quase uma bicicleta... peguei pelo guidão e subi ladeira acima pra chegar logo na minha rua, a Coperema.
- E ai, ? quem estava na rua? como eles reagiram? o que eles fizeram?
- Calma, uma coisa de cada vez. Naquela época nós brincávamos muito na rua, não havia o perigo que existe hoje, nem o trânsito era tão intenso, por isso a gente podia brincar sossegado que ninguém corria muito perigo...
- Então a rua estava cheia?
- Estava sim. Lá estavam minhas irmãs, Nena, Marina e Rosa. Estavam o Baianinho, que era um menino que tinha vindo do Nordeste com toda a família, a Cida, filha do seu Zé, O Miguel e a irmã dele que eu não lembro o nome e um monte de gente...
- Eles ficaram felizes?
- Ficaram sim, todo mundo queria andar no meu triciclo...
- Você deixou?
- Não de cara, afinal eu não tinha nem andado direito, fiquei andando um bocado, curtindo o presente que eu acabara de ganhar...
- E?
- Bom, o Miguel tinha ganho um carrinho de roda muito bacana, bem mais bonito que o meu triciclo e ele foi buscar para andar junto comigo. Assim que ele chegou, começou aquela bagunça de apostar corrida...
- Apostar corrida?
- É, o pessoal ficava gritando, vai, vai, incentivando pra ver quem chegava primeiro em determinado lugar...
- Você corria desse jeito?
- Na verdade eu não sabia correr direito, mas eu pedalava bem e o triciclo andava rápido, era novinho em folha, tinha acabado de ganhar...
- Tava todo prosa, né ?
- Confesso que estava sim, e não queria perder uma oportunidade de ficar por cima...
- E ai, o que aconteceu, vô?
- Bem, eu estava na frente, correndo a toda, bem veloz, e o Miguel estava atrás, apesar do carro dele ser bem mais bonito e robusto que o meu triciclo, de repente, eu diminui a velocidade, tinha um buraco na frente e eu não queria tomar um tombo...
- E ai, ?
- Ai, que o Miguel não conseguiu diminuir a velocidade do carro dele e bateu no meu triciclo, por trás...
- , que desastre!
- Foi um desastre mesmo, netinha, não gosto nem de lembrar.
- Fala , o que aconteceu?
- Aconteceu que com a batida o triciclo partiu em dois...
- Em dois, ? De que jeito?
- O triciclo tinha uma roda grande na frente e duas pequenas atrás. As duas pequenas ficavam num eixo, uma de cada lado, esse eixo era ligado ao guidão através de uma peça . Isso tudo era soldado...
- Soldado? O que é soldado? 
- As peças ficavam juntas porque eram ligadas por uma espécie de cola metálica que era aplicada com um maçarico de grande potência... só que com a batida, a solda não aguentou e... quebrou.
- Nossa , nem aproveitou direito o brinquedo!
- Foi bem isso mesmo, netinha. Eu ganhei o brinquedo e no mesmo dia quebrou, fiquei desolado, sem saber o que fazer.
- E a turma, ? O que eles fizeram?
- Ficaram muito tristes, minha irmã Rosa falou que foi de propósito, a irmã do Miguel quis partir pra briga, mas minhas outras duas irmãs separaram e fomos para casa...
- Acabou a brincadeira.
- Acabou a brincadeira. Contamos o que acontecera e você imagina a cara do meu pai e da minha mãe. Tanto esforço para terminar com o brinquedo no mesmo dia... ninguém merece!
- É mesmo, vô. Eles te bateram?
- Não, mas eu perdi,  pois não tinha mais como brincar e nem eles tinham como comprar outro triciclo.
- Nossa , agora eu entendo porque você ficou tão emocionado, eu também ficaria se fosse comigo.
- É isso ai, netinha. Por isso vou pedir pra você tomar cuidado com o presente, pois não é fácil arrumar dinheiro para fazer os filhos felizes, não.
- Você nunca mais teve triciclo?
- Mandamos consertar muito tempo depois, mas já não era a mesma coisa, estava enferrujado e não aguentou muito, quebrou de novo, mas eu já não ligava muito, acho que estava mais crescido, mesmo assim agradeci o retorno do sonho, mas já não era um sonho colorido, estava em preto e branco.