terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A Feiticeira


- Vô!... vô!...
O vô ficou só esperando a tempestade irromper sala adentro... ela já estava no corredor, faltavam poucos segundos para iniciar a maior tempestade que já tivéramos notícia...
De repente a tempestade materializou-se ali, na frente dele...
- Oi vô!
O vô ficou só olhando:  as faces da netinha estavam vermelhas, o rosto todo suado, e a pergunta que não queria calar estampada em todo o seu ser:
- Vô... você já conheceu alguma feiticeira?
Por essa o avô não esperava, afinal feiticeiras não são assunto de todo dia para uma criança, mesmo para uma criança esperta, inteligente e saudável... por isso esperou alguns segundos antes de responder.
- Que tipo de feiticeira?
- Tipo? e feiticeira tem tipo?
- Claro que tem... tanto hoje quanto no passado.
- Nossa vô, por essa eu não esperava...
- Pois é, as coisas não são tão simples quanto parecem... as pessoas generalizam e esquecem que cada pessoa é uma pessoa e o que ela apresenta hoje não é necessariamente o que apresentou em tempos remotos.
- Vô, por favor, fala de maneira que eu consiga entender? Que história e essa de "tempos remotos"?
- Desculpe, pequena... vou trocar em miúdos: tempos remotos são tempos que já passaram...  e  passaram há bastante tempo!...
- Entendi. O que você quer dizer com isso?
- Quero dizer que as feiticeiras de hoje já não fazem os tais feitiços que esse povo vive dizendo por ai. As feiticeiras de hoje quase não tem consciência de que um dia já foram chamadas assim.
- Por isso é que é difícil encontrar uma?
- Exato. Não se fazem feiticeiras como antigamente.
O avô ria, e muito.
- Vô, tá rindo de quê? O que você tá escondendo de mim? será que temos alguma feiticeira disfarçada na nossa família?
- Uma só, não: várias!
- Vô, me conta esse babado...
- Vou contar sobre a feiticeira que temos na família hoje, só que ela não sabe exatamente o que isso quer dizer e, pra falar a verdade, nem eu sei exatamente.
- Nossa vô, como assim?
- É que os tempos mudam e as denominações, os nomes que as pessoas dão a certos fenômenos também...
- Ah, isso tem a ver com o Espiritismo, pois o Espiritismo explica todas essas coisas, não é?
- Isso mesmo, netinha. Graças ao Espiritismo e ao avanço da Humanidade já não cometemos barbaridades como as cometidas durante o tempo da Inquisição.
- O que é essa tal de Inquisição?
- Foi um período de intolerância religiosa dos maiores que a Humanidade já presenciou... tudo em nome de Deus.
- Em nome de Deus? Explica, vô.
- Explico sim. A Igreja dominante na época tinha muito medo de perder as coisas que tinha conquistado durante tantos anos, pois depois que tornou-se a religião oficial do Império Romano estendeu sua influência por quase todo o mundo, transformando as ideias de Jesus, tão simples, em alguma coisa quase irreconhecível para o povo...
- Como eles conseguiram isso?
- Simplesmente não dando condições para que o povo compreendesse os ensinamentos de Jesus.
- De que jeito?
- Impedindo que o conhecimento fosse partilhado por todos. Não existiam livros em quantidade, e o conhecimento ficava fechado dentro de mosteiros, as missas eram rezadas em latim, e as explicações sobre os acontecimentos eram feitas com base em interpretações pessoais de quem queria continuar no poder.
- E a Inquisição?
- A inquisição fazia o policiamento sobre as pessoas, quem pensasse diferente, ou tivesse algum dom que não interessasse à Igreja era taxado de herege e adepto do demônio.
- Nossa, vô... e o que acontecia com esse povo?
- Eram presos, julgados e, muitas vezes, queimados na fogueira.
- Que horror, vô! e isso aconteceu com alguém que você conheça?
- Aconteceu.
- Como você ficou sabendo?
- Um dia uma de tuas tias contou que tinha medo de fogo, não gostava nem de brincar com isqueiro que ficava muito mal... quase que imediatamente começaram a aparecer imagens sobre ela em um tempo muito distante...
- Que imagens, vô?
- Imagens de uma cidade chamada Barcelona, um noviço correndo pelos campos da cidade, correndo muito, muito mesmo...
- Nossa vô, porque ele corria tanto?
- Ele trazia documentos que impediriam que ela fosse queimada na fogueira...
- Na fogueira, vô?
- É, na fogueira mesmo, ela estava sendo executada pela Inquisição e os documentos que ele trazia a livrariam desse tormento...
- Nossa vô, e ai?
- Ele corria e corria muito como já te falei, estava quase entrando na praça principal quando começou a ouvir os gritos de terror que a amiga soltava pela garganta afora, horrorizada pelo que estava acontecendo...
- Ele conseguiu, vô? conseguiu chegar e salvar a moça?
- Ele se esforçou muito, mas não conseguiu não, netinha...
- Que pena, vô...
- Uma pena mesmo, a moça foi queimada na fogueira, os documentos não conseguiram ser entregues e o noviço ficou desesperado...
- As visões acabaram, vô?
- Acabaram sim e ai eu pude entender uma coisa que não conseguia antes disso...
- Que coisa, vô?
- Antes da tua tia nascer eu fui consultado na espiritualidade sobre a possibilidade dela reencarnar... e eu aceitei trazê-la para reencarnar em nossa casa...
- Nossa vô, que lindo...
- Depois dessa visão eu entendi porque eles me consultaram. Eles queriam saber se eu estava em condições de receber em minha casa essa "feiticeira" que havia sido queimada em Barcelona... e eu aceitei com todo o meu coração e amor...
- Então , isso quer dizer que você era o tal noviço, vô?
- Era sim... e não consegui salvá-la, apesar de todo o esforço que fiz naquela época...
- Ela não teve nenhuma encarnação depois disso, só esta agora?
- Acredito que ela tenha tido sim, mas devem ter sido reencarnações preparadas para que ela percebesse que aquele momento já havia passado e que ela poderia recomeçar a viver, mas com certeza ela não tinha completo domínio de si mesma...
- Como assim, vô?
- É... uma reencarnação em que ela tenha vindo com alguma deficiência de entendimento, suficiente para que ela passasse encarnada e, ao mesmo tempo, pudesse ser auxiliada pelos amigos da Espiritualidade em relação ao trauma que ela carregava desde então...
- Entendi...
- Eu ainda não, mas me sinto tranquilo, pois fiz tudo o que estava ao meu alcance, tanto lá quanto cá...
- É isso aí, vô...
- É isso aí, netinha...

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