segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O Triciclo

Ela entrou no quarto do vovô correndo, ofegante, parecia que não conseguiria parar:
- Vô, vô, vem ver, vem ver!
- Ver o que menina? senta um pouco, respira, relaxa e me fala: ver o quê?
- Vamos lá fora, você vai ver que coisa linda que eu ganhei do meu pai... vem logo,!
- indo, indo...
Quando chegaram lá fora, o avô quase perdeu a fala... estava diante do sonho de consumo de uma vida inteira.
As mãos nos olhos marejados pelas lágrimas, lembranças de tempos idos que não eram as melhores de sua vida, fizeram com que a netinha ficasse preocupada.
- Vô, você tá bem?, aconteceu alguma coisa? Não gostou da minha bicicleta?
- Claro que gostei, netinha...
- E tá chorando porquê?
- Sei lá, acho que é nostalgia...
- Nostalgia? que é isso?
- Nostalgia é um sentimento que não sabemos explicar muito bem, está relacionado com alguma coisa que quisemos muito e não conseguimos, ou perdemos com o tempo...
- Nossa , hoje você está muito esquisito, quer me explicar direitinho isso?
- Explico sim, talvez você compreenda melhor.
- Começa vai!.
- Faz muito tempo, eu queria ganhar uma bicicleta, mas infelizmente os meus pais não tinham como satisfazer esse meu desejo.
- Era muito caro uma bicicleta, ?
- Era e, além do mais eles não ganhavam muito, a família era grande e assim as coisas não eram muito fáceis.
- Então você não ganhava nada no Natal?
- Ganhava alguma coisa, mas não o meu sonho: o meu sonho era uma bicicleta.
- Nem nada parecido?
- Ganhei uma vez um brinquedo muito parecido com uma bicicleta, sim.
- Que brinquedo era esse, ?
- Era um triciclo!
- Triciclo? o que é isso?
- É parecido com uma bicicleta, só que com três rodas.
- Três rodas? Isso é bom, pelo menos não cai, não tomba!
- Até que é verdade, mas não tinha o mesmo gosto de aventura que uma bicicleta tem...
- Isso é verdade, mas conta, quem te deu esse triciclo?
- Foi meu pai e minha mãe. Um dia eles saíram de manhã e foram para a Penha...
- Penha? O que é isso?
- É um bairro. Eu morava no Cangaíba e a Penha era um bairro muito próximo, tinha um comércio bem desenvolvido, as lojas mais conhecidas estavam lá.
- Ah!
- Pois bem, nesse dia eles saíram de manhã e foram para lá, eu não sabia exatamente o que eles tinham ido fazer, mas alguma coisa me dizia que eu devia esperar uma surpresa muito boa...
- Você ficou muito nervoso? o tempo demorava pra passar?
- Fiquei sim, muito tenso e ansioso, parecia que o tempo não queria passar, mas passou. De repente, já eram coisa de 4h00 da tarde,  vi os dois subindo a ladeira da Rua Malacaxeta...
- O que você fêz?
- Eu fiquei só olhando, o meu pai estava carregando um pacote muito grande, e o pacote estava rodando... ele estava puxando ladeira acima...
- Você não saiu correndo ladeira abaixo, ?
- Assim que eu percebi o que era, sai correndo feito um louco... cheguei rapidinho, abracei e beijei os dois e fui logo tirando o papel que embrulhava o presente...
- Era o triciclo?
- Era, eu chorei de alegria, pois afinal, era quase uma bicicleta... peguei pelo guidão e subi ladeira acima pra chegar logo na minha rua, a Coperema.
- E ai, ? quem estava na rua? como eles reagiram? o que eles fizeram?
- Calma, uma coisa de cada vez. Naquela época nós brincávamos muito na rua, não havia o perigo que existe hoje, nem o trânsito era tão intenso, por isso a gente podia brincar sossegado que ninguém corria muito perigo...
- Então a rua estava cheia?
- Estava sim. Lá estavam minhas irmãs, Nena, Marina e Rosa. Estavam o Baianinho, que era um menino que tinha vindo do Nordeste com toda a família, a Cida, filha do seu Zé, O Miguel e a irmã dele que eu não lembro o nome e um monte de gente...
- Eles ficaram felizes?
- Ficaram sim, todo mundo queria andar no meu triciclo...
- Você deixou?
- Não de cara, afinal eu não tinha nem andado direito, fiquei andando um bocado, curtindo o presente que eu acabara de ganhar...
- E?
- Bom, o Miguel tinha ganho um carrinho de roda muito bacana, bem mais bonito que o meu triciclo e ele foi buscar para andar junto comigo. Assim que ele chegou, começou aquela bagunça de apostar corrida...
- Apostar corrida?
- É, o pessoal ficava gritando, vai, vai, incentivando pra ver quem chegava primeiro em determinado lugar...
- Você corria desse jeito?
- Na verdade eu não sabia correr direito, mas eu pedalava bem e o triciclo andava rápido, era novinho em folha, tinha acabado de ganhar...
- Tava todo prosa, né ?
- Confesso que estava sim, e não queria perder uma oportunidade de ficar por cima...
- E ai, o que aconteceu, vô?
- Bem, eu estava na frente, correndo a toda, bem veloz, e o Miguel estava atrás, apesar do carro dele ser bem mais bonito e robusto que o meu triciclo, de repente, eu diminui a velocidade, tinha um buraco na frente e eu não queria tomar um tombo...
- E ai, ?
- Ai, que o Miguel não conseguiu diminuir a velocidade do carro dele e bateu no meu triciclo, por trás...
- , que desastre!
- Foi um desastre mesmo, netinha, não gosto nem de lembrar.
- Fala , o que aconteceu?
- Aconteceu que com a batida o triciclo partiu em dois...
- Em dois, ? De que jeito?
- O triciclo tinha uma roda grande na frente e duas pequenas atrás. As duas pequenas ficavam num eixo, uma de cada lado, esse eixo era ligado ao guidão através de uma peça . Isso tudo era soldado...
- Soldado? O que é soldado? 
- As peças ficavam juntas porque eram ligadas por uma espécie de cola metálica que era aplicada com um maçarico de grande potência... só que com a batida, a solda não aguentou e... quebrou.
- Nossa , nem aproveitou direito o brinquedo!
- Foi bem isso mesmo, netinha. Eu ganhei o brinquedo e no mesmo dia quebrou, fiquei desolado, sem saber o que fazer.
- E a turma, ? O que eles fizeram?
- Ficaram muito tristes, minha irmã Rosa falou que foi de propósito, a irmã do Miguel quis partir pra briga, mas minhas outras duas irmãs separaram e fomos para casa...
- Acabou a brincadeira.
- Acabou a brincadeira. Contamos o que acontecera e você imagina a cara do meu pai e da minha mãe. Tanto esforço para terminar com o brinquedo no mesmo dia... ninguém merece!
- É mesmo, vô. Eles te bateram?
- Não, mas eu perdi,  pois não tinha mais como brincar e nem eles tinham como comprar outro triciclo.
- Nossa , agora eu entendo porque você ficou tão emocionado, eu também ficaria se fosse comigo.
- É isso ai, netinha. Por isso vou pedir pra você tomar cuidado com o presente, pois não é fácil arrumar dinheiro para fazer os filhos felizes, não.
- Você nunca mais teve triciclo?
- Mandamos consertar muito tempo depois, mas já não era a mesma coisa, estava enferrujado e não aguentou muito, quebrou de novo, mas eu já não ligava muito, acho que estava mais crescido, mesmo assim agradeci o retorno do sonho, mas já não era um sonho colorido, estava em preto e branco.





Um comentário:

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