sábado, 21 de abril de 2012

A dona da fazenda

O vô estava muito quieto, parecia que dormia, mas estava só observando a chegada da netinha. Ela vinha devagar, provavelmente para assustá-lo. Quando ela estava bem pertinho, ele abriu os olhos e disse bem alto:
- Buh!!!!!!
- Ô vô... que susto!!!
- Se eu não te assustasse você é que ia me assustar, não é!!?
Os dois caíram na gargalhada, afinal era aquilo mesmo... um assustando o outro e assim por diante...
- Que há de novo? perguntou o avô.
- De novo, novo, nada.
- E porque tava andando tão devagarinho?
- Pra te assustar, ué... você sabia!
- Saber eu sabia, mas não tem mais nada?
- Acho até que tem... lembra da história da bruxa que você contou?
- Lembro, sim...
- Então... eu fiquei pensando se não tinha mais nada parecido na nossa família...
- Parecido não, mas existem outras histórias que podem ser contadas...
- E porque não começou a contar ainda?
- É que eu ando meio lerdinho, mas vamos começar... Teve um tempo que uma das minhas filhas trabalhava com uma prima, lá naquele conjunto empresarial que tem na Rua Stella, perto do Paraíso...
- Esse Paraíso é um bairro, não é vô?
- Isso mesmo, pertinho da Avenida Paulista, superperto da Avenida 23 de Maio...
- Tá, agora não perde tempo não e conta...
- Pois bem, uma vez por mês a filha pedia para que fosse pegar a cesta básica que ela recebia da empresa e lá ia eu...
- Porque tinha que ser você, vô?
- É que eu trabalhava em casa, tinha horários livres e podia ir sem atrapalhar o trabalho.
- Ah...
- Eu pegava o carro da outra filha e ia até lá... subíamos até o andar onde ela trabalhava, pegávamos a cesta básica e voltávamos para casa...
- A cesta era muito pesada, vô?
- Na verdade não, o peso aumentava à medida que o tempo ia passando porque as coisas são assim mesmo, por mais leve que seja o fardo o tempo faz com que ele fique mais pesado pelo nosso desgaste físico...
- Quer dizer que temos que nos livrar logo dos pesos da nossa vida?
- Isso... exatamente isso. Se nós não nos livramos dos pesos da vida eles aumentam e fica mais difícil  carregar...
- Entendi...
- Netinha, você tá ficando muito esperta mesmo!!! mas vamos continuando...
- Isso, vô... vai daí!!!
- Você sabe que essa tua tia tem um gênio de fazer inveja a qualquer um, não é? pois bem, ela anda sempre meio mau humorada, parece até que a vida é terrível pra ela...
- Nossa, vô... eu não acho tudo isso não... de vez em quando só que ela está mau humorada...
- Tá, pode ser que eu esteja exagerando, mas o que importa é que nesse dia eu entendi o porquê...
- Entendeu o porquê do mau humor dela?
- É verdade, eu descobri que ela tem esse mau humor por um motivo muito interessante...
- Conta vô, conta logo...
- Pois bem, nós descemos até o estacionamento, tínhamos que sair por lá, porque era sábado, se não me engano e a portaria não funcionava...
- E ai, vô?
- No caminho tive uma visão muito interessante do nosso relacionamento anterior...
- Como assim, vô? Relacionamento anterior?
- É... coisas de outras encarnações... igual que a da bruxa... lembra?
- Claro, é que eu pensei em outras coisas...namoro, marido e mulher, coisas assim...
- Não, o nosso relacionamento nessa época era profissional mesmo...
- O que era vô?
- Deixa eu te contar da visão... vi um grande campo e, tanto eu quanto ela, vestidos com roupas de fazenda, num tempo muito longe...
- Como ela estava vestida, vô?
- Ela estava vestindo um vestido bem comprido, todo rodado, tinha luvas brancas, o cabelo todo enrolado dentro de um chapéu com fita... e uma sombrinha...
- Sombrinha? o que é sombrinha, vô?
- Sombrinha é um tipo de guarda-chuva, só que pode ser usado para proteger do sol...
- Ah... ela não queria ficar queimadinha... que nem a outra, né vô? brincadeirinha...
- De mau gosto, diga-se de passagem...
- Desculpa, vô, eu sei que o caso da bruxa foi sério, muito sério...
- Tá, desta vez passa...
- Continua, vô... como é que você estava?
- Cansado, muito cansado, porque na visão eu também estava carregando um fardo muito pesado e era muito mais velho que agora...
- Nossa, vô...
- Eu tenho a impressão que eu era empregado dela, desses que carregam as coisas para os patrões, quase um escravo...
- Como é que você estava vestido?
- Eu estava com um chapéu desses que parecem de tocador de boiada, uma camisa xadrez simplesinha, botinas e uma calça com um cordão de barbante grosso fazendo como se fosse um cinto...
- Ô coisinha brega, hein vô?
- Põe brega nisso... o modelito era de arrepiar... foi ai que eu percebi que ela era dona de fazenda e eu era empregado dela, nós não éramos parentes, éramos patroa e empregado...
- Será que é por isso que ela tá quase sempre de mau humor?
- Pode ser, a prova da riqueza é muito difícil, mas a da pobreza também...
- Será que ela gostava mais de ser rica do que ser pobre?
- Quase todos pensam dessa forma, mas esquecem que tudo é necessário e que precisamos aproveitar as experiências da melhor maneira possível...
- Porquê, vô?
- Porque senão não vale a experiência, uma coisa que é oferecida para que nós melhoremos relacionamento, atitudes, posturas diante da vida e não aproveitamos não tem razão de ser e nos obrigará a outras experiências que talvez não sejam tão fáceis de passar...
- Quer dizer que temos que aproveitar senão piora?
- Eu não diria que piora, mas pode piorar... pode ser uma outra prova que nos deixe mais chateados ainda...
- É... não é fácil não...
- Mas não é impossível, o que temos que fazer é aproveitar as oportunidades e transformá-las em alavancas que nos farão progredir...
- É verdade... tomara que eu consiga aproveitar as oportunidades...
- Tomara...