domingo, 27 de maio de 2012

Profissão: marido

O ano era 1975. Depois de muitas faltas, particularmente às segundas-feiras, pedi demissão do emprego. Eu trabalhava nas Indústrias Villares, pertinho das Nações Unidas.
Eu namorava e a namorada morava longe, então ficava difícil o acordar cedo na segunda-feira pois eu não tinha carro e os ônibus demoravam um bocado para fazerem o percurso do Butantan até o Jardim Consórcio.
Com o tempo eu fiquei muito chateado e vexado da situação e, como eu preferia namorar, resolvi pedir demissão...
Ninguém vai perguntar nada?
Terei que continuar a narrativa sem ser interrompido?
Que tristeza! Eu não aguento, continuarei escrevendo somente depois que ela chegar...
Quem?
Ora... a minha netinha, senão vai ficar muito sem graça, eu já não consigo escrever sem ter a pestinha ao lado, perguntando e escarafunchando o meu "passado tenebroso"...
Pois é, ela não vem mesmo... vou continuar mesmo assim.
O fato todo é que eu fiquei sem emprego, sem dinheiro e sem mais nada.
Com o passar das semanas apareceram algumas oportunidades: uma delas foi muito interessante. O trabalho consistia em comprar contas de luz de indústrias. O alvo eram as panificadoras pois elas tem o status de indústria, transformam a farinha em pão, além de outras tantas coisas gostosas como sabemos. Tinha que visitar as padarias e comprar as tais contas, pois nelas estava incluída uma contribuição que, passado algum tempo, seria restituída. Nós comprávamos as contas por um preço menor e depois vendíamos pelo preço de mercado.
O negócio era bom, mas eu não conseguia vender, ou melhor comprar, absolutamente nada. Resultado? Acabei desistindo da atividade, depois de algum tempo.
Um certo dia, meu irmão viu a notícia que o Metro de São Paulo estava recrutando pessoas para a linha Norte-Sul. Metro, companhia de economia mista, eu estrangeiro, será que era possível? Ele disse que sim, era possível, justamente por isso, não era uma estatal mas sim uma empresa de economia mista.
Peguei o endereço e lá fui eu. Cheguei dentro do horário. Esperei chegar a minha vez. Era um emprego para auxiliar administrativo.
A espera não foi muito grande, havia poucos candidatos e a entrevista era mais para encaminhamento mesmo. 
Finalmente fiquei de frente com a entrevistadora.
Cumprimentos, aquela coisa toda. 
Começam as perguntas de praxe, vai pra lá, vem pra cá.
O que está estudando? Na época eu fazia Comunicação Social na FIAM, antes de ser comprada pela FMU, tudo bem, tudo certo.
No meio da conversa, a pergunta veio à queima-roupa:
- Planos para o futuro?
A resposta veio quase automaticamente:
- Casar, ter filhos, construir família.
- Profissão marido? perguntou ela.
- Acho que sim, respondi.
A partir dai o encerramento da entrevista, dia tal você liga, essas coisas.
Foi a partir desse instante que eu me peguei pensando porque eu respondi aquilo, afinal eu nunca quisera me casar, nunca quisera ter filhos... confesso que não entendi muito bem aquele momento.
Onde estaria a explicação?
Eu namorava realmente, havia já um bom tempo, mas eu não tinha essa vontade de casar, namorávamos e isso era o que importava.
Talvez tenha sido ai que eu fiquei realmente com vontade de casar, de ver concretizado aquele tempo de conhecimento, afinal só conhecer para depois ir embora não era o ideal e fazia tempo que nós estávamos namorando.
O tempo passou, três ou quatro dias se não me engano. Liguei para ver o resultado. 
Surpreendentemente havia sido aprovado.
Fiquei pensando novamente: será que foi a resposta? 
Tenho quase certeza que sim, pois a entrevistadora deve ter visto sinceridade naquele momento e avaliado que eu seria um empregado estável pelos planos de futuro que eu fazia.
Bem, até ai tudo bem. Comecei a trabalhar no Metro. Trabalhava no Paraíso, no CCO, junto com o Engenheiro Stanislav, com a Engenheira Olívia e outros que, perdoem a fraca memória, eu não consigo lembrar os nomes.
Tudo caminhava muito bem, emprego bom, não pagava Metro, na época tínhamos um bilhete especial, confeccionado em material plástico que não estragava e que não tinha limite para uso.
Foi em janeiro de 1976 que aconteceu o fato que mudou a minha vida.
Meu pai, trabalhava com livros, tinha um ponto de vendas na Universidade Mackenzie, no Diretório Acadêmico Eugênio Gudin, da Faculdade de Ciências Contábeis, Administração e Economia.
Ele já tinha mais de 60 anos, era um pouco mais velho do que eu sou hoje. Estava cansado, pois trabalhou a vida toda. Desde que chegara ao Brasil, não havia se dado muito bem, passando por empregos os mais variados, para garantir o sustento de todos nós.
Essa era a melhor chance que ele tivera. Ele comprara a banca de livros do seu patrão, o João Milanelli. O João era um cara legal, deixava tudo nas mãos do meu pai. Meu pai retribuía a confiança, portando-se de maneira honesta e eficiente.
Um certo dia o João Milanelli, disse que ia vender e se o meu pai não queria comprar. Meu pai se virou, arrumou o dinheiro com algumas pessoas e comprou. Ia tocando sozinho, mas não aguentou, pois era muito trabalho. Eram pacotes e mais pacotes de livros que ele tinha que pegar nas Editoras e levar para o ponto de venda. Realmente era um trabalho estafante. Ficou sozinho quase um ano, mas não resistiu. Foi ai que ele pediu para que eu o ajudasse. Talvez tenha pedido porque quando ele precisou de dinheiro eu ainda trabalhava na Villares e pedi um empréstimo lá na Cooperativa para que ele juntasse o suficiente para comprar o ponto do Milanelli, sei lá.
O importante é que convidou e eu... aceitei.
O pessoal ficou doido, só três meses de Metro, uma empresa muito boa, uma empresa de futuro, quase funcionário público... ninguém entendeu nada.
O certo é que a partir de fevereiro eu estava com ele. Dividíamos o trabalho, ele me pagava o que eu precisava para as minhas despesas, eu continuava namorando, ele ajuntando dinheiro para comprar uma casa para ele e para minha mãe.
O trabalho ia de vento em popa, era um bom negócio. Eu, sem querer, acabei me dando bem na troca. Ele conseguiu juntar o dinheiro, comprou a casa, mudamos, pois eu ainda morava com eles e foi ai que eu comecei a ver a previsão se concretizando: eu agora queria casar, tinha possibilidades disso, era só marcar a data. 
Conversei com a Marli, marcamos a data e chegando o dia, casamos. Festa sem muito glamour, sem o luxo de hoje, mas uma festa que tinha de tudo: bolo e champanhe. Percebeu que não éramos ricos, né?
Lua de mel em Praia Grande, na Colônia de Férias dos Comerciários, oferecida pelo cunhado.
Dias de sol, dias de chuva, a volta ao lar e o reinício do trabalho.
A partir dai tudo o que eu não imaginava começou a acontecer: casado, filhos chegando, filhas chegando... e tudo sem que eu tivesse pensado nisso a vida toda, pois o que eu queria era só namorar. Lembrei da entrevistadora do Metro: Profissão marido?
Por essas e outras é que eu digo que a espiritualidade leva a gente no tapa. A gente vai pensando uma coisa e as coisas vão sendo encaminhadas para outra direção... mas isso é história para quando a neta estiver comigo, perguntando... perguntando... e perguntando.




terça-feira, 1 de maio de 2012

Entre cães e pulgas

A sala estava meio às escuras. O avô estava meditando sobre alguns fatos do passado, passado bem distante, tão distante quanto ele estava naquele momento. A sua memória o levou até um fato muito interessante, a idade dele nesse episódio devia ser, mais ou menos, dez anos.
Dez anos não era muito mais do que tinha a neta perguntadeira que acabara de chegar e acabou com a "meditação".
- Que cara é essa, vô?
- Como assim, "que cara é essa"? A minha cara de sempre... alguns dias mais velho, é claro!
- Parecia que você estava longe, muito longe...
- Eu estava mesmo, estava há mais ou menos cinquenta  anos longe daqui...
- Como assim? Cinquenta anos luz?
- Não é pra tanto, cinquenta anos mesmo, estava lembrando de um fato muito interessante que me aconteceu quando eu tinha mais ou menos dez anos de idade...
- Conta pra mim que eu quero ver se era interessante mesmo...
- Vou contar, sim... afinal, quem mais gosta de ouvir minhas histórias?
- Todo mundo gosta, vô... é que o povo não tem muito tempo...
- Você sempre gentil... obrigado... mas vamos lá. Este fato aconteceu mais ou menos em 1962. Naquele tempo era muito comum as famílias se reunirem em mutirão para arrumar alguma coisa...
- Mutirão? Hoje também tem mutirão, era a mesma coisa?
- A ideia é a mesma, mudam os objetivos. O mutirão daquela época era para fazer alguma coisa entre vizinhos, família, essas coisas. Hoje em dia o mutirão é mais amplo, mais abrangente, ajudam-se mais pessoas.
- Tá certo. Continua vô, continua com a história.
- Pois bem, estava todo mundo na casa da minha irmã, porque tinha um barranco enorme no quintal dela, um barranco muito grande e tinham que tirar a terra para deixar o terreno todo no mesmo nível...
- Pra quê, vô?
- Porque as crianças poderiam brincar melhor, sem tanto perigo de cair. Minha irmã tinha duas filhas e era preciso tomar cuidado com elas.
- Bom, criança em primeiro lugar - disse a pequena e riu, riu bastante...
- É bem assim. Eu também era criança, mas era maior que elas. Meu pai estava ajudando a tirar o barranco, cavocava a terra, derrubava aquilo tudo e o pessoal ia tirando de lata em lata para uma depressão que tinha em frente à casa. Isso levava um tempão.
- Também, vô, de lata em lata... é bem devagar mesmo...
- Era mesmo. O meu pai fumava, e estava sem cigarros. Ele fumava muito mesmo. Pediu para que eu e meu irmão fossemos comprar cigarros pra ele... Nesse dia um amigo meu, da minha classe da escola, estava lá...
- E estava ajudando?
- Na verdade não, nem eu estava ajudando também, estávamos só olhando...
- Por isso teu pai pediu pra você comprar os cigarros, pra você fazer alguma coisa...
- Nossa, você tá sem graça hoje, né?
- É brincadeirinha... conta mais vô!
- Então... pegamos o dinheiro e saímos para a venda, era um pouco longe, tinha que andar bastante...
- O teu amigo foi junto?
- Foi sim, fomos eu, meu irmão e meu amigo. Logo que saímos de casa encontramos um senhor chamado Luiz. Ele tinha dois cachorrinhos e estava passeando com eles. De repente, os cachorros se enroscaram um no outro, pelas correntes.
- E ai, vô?
- Ai, que ficou uma situação muito engraçada e eu brinquei falando que as pulgas poderiam passar de um para o outro pelas correntes e cai na gargalhada...
- E o homem?
- Ficou uma fera, falou um monte pra mim, que eu era um moleque, que eu é que tinha pulgas, que os cachorros eram muito limpos, coisas do tipo...
- E você?
- Eu fiquei sem graça, sem saber o que fazer...
- E os outros?
- Eu pensei que meu irmão fosse me defender, mas o que ele fez me deixou pior ainda...
- O que foi que ele fez, vô?
- Me deu um tapa, um tapa não... me deu vários tapas na cabeça e ficou pedindo desculpas pro homem...
- Ele tinha que ficar do teu lado, não é mesmo vô?
- Eu acho isso também, mas ele me deu foi vários tapas, na cabeça...
- E o teu amigo?
- Ficou bem quieto... a coisa não era com ele, acho que ele se inspirou em Pilatos...
- Quem é esse vô?
- É um personagem da história, que disse que não era com ele e lavou as mãos, mais tarde você compreenderá...
- Nossa, vô... você não fez nada?
- Fiz... quando cheguei em casa contei tudo pro meu pai... 
- E o que ele fez?
- Chamou o meu irmão e perguntou o que tinha acontecido... o meu irmão contou a história do jeito dele, nem mencionou os tapas, só falou que eu tinha sido mal educado com o homem e por isso ele passou uma vergonha tão grande que não sabia onde se esconder, tudo por minha causa... eu pedi ajuda pro meu amigo e, novamente, ele ficou de fora, disse que não viu nada... eu chorei o dia todo, ninguém acreditou em mim, só por que eu era uma criança...
- Nossa vô, você guardou isso por muito tempo dentro de você?
- O pior é que guardei, fiquei sem falar com o meu amigo durante um tempão, achei que ele foi de uma omissão imperdoável... mas o tempo acabou fechando as cicatrizes...
- Nossa vô, cicatrizes? que dramático!
- Exagero meu, as coisas entraram em seus eixos pouco tempo depois. Eles sempre me trataram bem, sempre que podiam me agradavam com presentes e assim por diante... esse meu irmão e eu eramos muito unidos e ainda somos, nos amamos muito...
- Ainda bem, vô. Não gostaria que você tivesse sofrido uma vida inteira por causa de uma bobagem dessas...
- Bobagem? queria ver se tivesse sido com você...
- É brincadeirinha, vô... eu sei que a dor só dói em quem sente...
- Ainda bem...