terça-feira, 1 de maio de 2012

Entre cães e pulgas

A sala estava meio às escuras. O avô estava meditando sobre alguns fatos do passado, passado bem distante, tão distante quanto ele estava naquele momento. A sua memória o levou até um fato muito interessante, a idade dele nesse episódio devia ser, mais ou menos, dez anos.
Dez anos não era muito mais do que tinha a neta perguntadeira que acabara de chegar e acabou com a "meditação".
- Que cara é essa, vô?
- Como assim, "que cara é essa"? A minha cara de sempre... alguns dias mais velho, é claro!
- Parecia que você estava longe, muito longe...
- Eu estava mesmo, estava há mais ou menos cinquenta  anos longe daqui...
- Como assim? Cinquenta anos luz?
- Não é pra tanto, cinquenta anos mesmo, estava lembrando de um fato muito interessante que me aconteceu quando eu tinha mais ou menos dez anos de idade...
- Conta pra mim que eu quero ver se era interessante mesmo...
- Vou contar, sim... afinal, quem mais gosta de ouvir minhas histórias?
- Todo mundo gosta, vô... é que o povo não tem muito tempo...
- Você sempre gentil... obrigado... mas vamos lá. Este fato aconteceu mais ou menos em 1962. Naquele tempo era muito comum as famílias se reunirem em mutirão para arrumar alguma coisa...
- Mutirão? Hoje também tem mutirão, era a mesma coisa?
- A ideia é a mesma, mudam os objetivos. O mutirão daquela época era para fazer alguma coisa entre vizinhos, família, essas coisas. Hoje em dia o mutirão é mais amplo, mais abrangente, ajudam-se mais pessoas.
- Tá certo. Continua vô, continua com a história.
- Pois bem, estava todo mundo na casa da minha irmã, porque tinha um barranco enorme no quintal dela, um barranco muito grande e tinham que tirar a terra para deixar o terreno todo no mesmo nível...
- Pra quê, vô?
- Porque as crianças poderiam brincar melhor, sem tanto perigo de cair. Minha irmã tinha duas filhas e era preciso tomar cuidado com elas.
- Bom, criança em primeiro lugar - disse a pequena e riu, riu bastante...
- É bem assim. Eu também era criança, mas era maior que elas. Meu pai estava ajudando a tirar o barranco, cavocava a terra, derrubava aquilo tudo e o pessoal ia tirando de lata em lata para uma depressão que tinha em frente à casa. Isso levava um tempão.
- Também, vô, de lata em lata... é bem devagar mesmo...
- Era mesmo. O meu pai fumava, e estava sem cigarros. Ele fumava muito mesmo. Pediu para que eu e meu irmão fossemos comprar cigarros pra ele... Nesse dia um amigo meu, da minha classe da escola, estava lá...
- E estava ajudando?
- Na verdade não, nem eu estava ajudando também, estávamos só olhando...
- Por isso teu pai pediu pra você comprar os cigarros, pra você fazer alguma coisa...
- Nossa, você tá sem graça hoje, né?
- É brincadeirinha... conta mais vô!
- Então... pegamos o dinheiro e saímos para a venda, era um pouco longe, tinha que andar bastante...
- O teu amigo foi junto?
- Foi sim, fomos eu, meu irmão e meu amigo. Logo que saímos de casa encontramos um senhor chamado Luiz. Ele tinha dois cachorrinhos e estava passeando com eles. De repente, os cachorros se enroscaram um no outro, pelas correntes.
- E ai, vô?
- Ai, que ficou uma situação muito engraçada e eu brinquei falando que as pulgas poderiam passar de um para o outro pelas correntes e cai na gargalhada...
- E o homem?
- Ficou uma fera, falou um monte pra mim, que eu era um moleque, que eu é que tinha pulgas, que os cachorros eram muito limpos, coisas do tipo...
- E você?
- Eu fiquei sem graça, sem saber o que fazer...
- E os outros?
- Eu pensei que meu irmão fosse me defender, mas o que ele fez me deixou pior ainda...
- O que foi que ele fez, vô?
- Me deu um tapa, um tapa não... me deu vários tapas na cabeça e ficou pedindo desculpas pro homem...
- Ele tinha que ficar do teu lado, não é mesmo vô?
- Eu acho isso também, mas ele me deu foi vários tapas, na cabeça...
- E o teu amigo?
- Ficou bem quieto... a coisa não era com ele, acho que ele se inspirou em Pilatos...
- Quem é esse vô?
- É um personagem da história, que disse que não era com ele e lavou as mãos, mais tarde você compreenderá...
- Nossa, vô... você não fez nada?
- Fiz... quando cheguei em casa contei tudo pro meu pai... 
- E o que ele fez?
- Chamou o meu irmão e perguntou o que tinha acontecido... o meu irmão contou a história do jeito dele, nem mencionou os tapas, só falou que eu tinha sido mal educado com o homem e por isso ele passou uma vergonha tão grande que não sabia onde se esconder, tudo por minha causa... eu pedi ajuda pro meu amigo e, novamente, ele ficou de fora, disse que não viu nada... eu chorei o dia todo, ninguém acreditou em mim, só por que eu era uma criança...
- Nossa vô, você guardou isso por muito tempo dentro de você?
- O pior é que guardei, fiquei sem falar com o meu amigo durante um tempão, achei que ele foi de uma omissão imperdoável... mas o tempo acabou fechando as cicatrizes...
- Nossa vô, cicatrizes? que dramático!
- Exagero meu, as coisas entraram em seus eixos pouco tempo depois. Eles sempre me trataram bem, sempre que podiam me agradavam com presentes e assim por diante... esse meu irmão e eu eramos muito unidos e ainda somos, nos amamos muito...
- Ainda bem, vô. Não gostaria que você tivesse sofrido uma vida inteira por causa de uma bobagem dessas...
- Bobagem? queria ver se tivesse sido com você...
- É brincadeirinha, vô... eu sei que a dor só dói em quem sente...
- Ainda bem...


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