quarta-feira, 20 de junho de 2012

O bêbado e a equilibrista

- Vô, porquê tem gente que bebe tanto?
- Porque ainda não sabem o mal que isso pode lhes fazer. Ninguém faz nada contra si mesmo que tenha certeza que possa prejudicar a sua saúde.
- Tem tanta gente que fala que faz mal, será que esse povo não entende isso, vô?
- Não é que não entende, até entende. É que a ficha ainda não caiu. Não sentem, ainda, os efeitos da bebida.
- Quando é que esse povo vai entender?
- Cada um tem seu momento de entendimento. A vida é assim mesmo. As lições são individuais, ou seja, o que  serve para que eu aprenda pode não ser aprendizado para o outro e vice-versa.
- Nossa vô, a vida é muito complicada. Será que um dia eu vou conseguir entender tudo isso direitinho?
- Algumas coisas sim e outras não, justamente porque você, assim como toda a Humanidade, vai ter lições que servirão só pra você... serão do teu tamanho, terão a tua cara e você aprenderá se quiser, porque se não quiser não haverá quem te faça entender...
- Nossa, vô... eu espero aprender tudinho, sem errar nadica de nada...
- Tenha muito boa vontade com você e com os outros, assim fica mais fácil.
- É verdade, a gente não fica no pé de ninguém e vive melhor, né vô?
- É bem isso, a gente vai aprendendo, vai corrigindo, vai vivendo...
- E você, vô... já bebeu um dia?
- Já... mas é uma longa história... tá com tempo?
- Eu tô, minha mãe só vem mais tarde... conta ai, vô!
- Vamos começar desde o começo... eu não bebi durante muito tempo, nem durante a minha adolescência...
- Nossa, vô! nem uma cervejinha?
- Eu bebia muito raramente... eu não lembro realmente de ter bebido a ponto de gostar , mas vamos em frente...
- É, vamos em frente...
- Lembra que eu fui trabalhar com o meu pai?
- Lembro, você contou da outra vez.
- Pois bem, eu casei, e depois de uns oito anos, mais ou menos, montei uma locadora de vídeo, eu gostava muito dessas novidades e, além disso, era um bom negócio, um negócio com muitas possibilidades de dar certo.
- Mas vô... e a livraria que você tinha com o teu pai?
- Acontece que uma grande editora estava de olho no ponto, eu pedi ajuda para uns amigos de outras editoras, mas não tive chance de aguentar a investida deles.
- O que você fez, vô?
- Eu tinha conhecimento com uma editora do Rio de Janeiro que tinha lojas em São Paulo, editava e vendia livros jurídicos. Eu ofereci o ponto pra eles...  e eles toparam. Pagaram uma quantia pelo ponto e eu sai, sem muito é verdade, mas com a chance de recomeçar.
- E a locadora de vídeo?
- Então... eu vendi porque a locadora estava já montada. Não era grande não, mas a coisa começava a andar. Tinha uma clientela boa, apesar do lugar não ser o melhor em termos de estacionamento, mas a garotada da região ia lá para alugar videogames de "última geração"...
- Nossa vô, você alugava videogames, também?
- Nós tínhamos uma loja bem completa, apesar de não termos muitas cópias do mesmo game. Foi ai, que apareceu um moço que queria ser meu sócio. Fizemos a sociedade e mudamos de endereço, pois ele tinha já arrumado um ponto bem melhor e com estacionamento, numa avenida próxima de onde nós estávamos.
- Sociedade é bom, vô?
- É bom sim, nos dá a oportunidade de melhorarmos o que temos e, melhorando, ganhar mais do que ganhávamos.
- Vocês ficaram muito tempo como sócios?
- Na verdade não. Houve um desentendimento e rompemos a sociedade, mas isso não impediu o crescimento da loja, pois nós tínhamos um atendimento nota dez, um acervo super atualizado e ótima localização, além de termos sido pioneiros nessa região com esse tipo de comércio. A coisa andou e muito bem...
- E ai, vô, onde entra a bebida na tua vida?
- Depois, deixa eu contar mais um pouco... a loja ia bem e resolvemos, eu e a tua vô, montar mais uma, pertinho daquela, pois o movimento atraia a atenção e fiquei com medo que abrissem uma loja concorrente.
- Montou?
- Montamos e foi um sucesso também, nome diferente, logotipo diferente, tudo diferente, depois mais uma, mais um convite de um amigo para montarmos um ponto na empresa em que ele trabalhava e assim por diante...
- Rapaz, tava com tudo, hein?
- É verdade, a coisa andava bem, mas ai eu já bebia, não muito, mas bebia. Aos sábados a gente ia para uma padaria que tinha perto e ficávamos um bom tempo bebendo e comendo.
- O pessoal gostava disso?
- Gostava e todos bebiam com moderação, inclusive eu... mas a coisa começou a descambar quando acabaram com os "filmes piratas"... tivemos que fechar as lojas e ficamos só com uma e o ponto na empresa do meu amigo. Aí veio a vontade de vender, eu estava meio cheio de tudo e acabei vendendo a loja, contra a vontade de todos, foi uma decisão quase unilateral...
- Vô... que coisa triste, você contrariou toda a família?
- No meu modo de entender as coisas aquilo era o melhor a fazer, eu não estava conseguindo ter satisfação no trabalho, a situação estava muito ruim pro meu lado, estava com uma filha pra nascer e sem dinheiro... não estou justificando nada, estou só contando o cenário da decisão...
- Ainda bem que não está justificando...
- Não estou mesmo, eu sei que fiz coisa errada, mas isso eu sei hoje, na época eu entendia que era a melhor coisa que eu tinha feito... fiquei com um bom dinheiro, fiquei com o ponto na empresa, e com tempo... ai eu comecei a beber um pouco mais...
- O tempo sem fazer nada te ajudou nisso, né?
- Eu tenho a impressão que sim, mas eu optei por isso, eu gostei disso... mas o tempo foi passando o dinheiro acabando e senti a necessidade de montar uma loja de novo... ai apareceu um ponto na Vila Filomena, as coisas não estavam bem, nem na vida pessoal e nem na vida profissional. O ponto apareceu na hora "h"... alugamos o imóvel e começamos a montar a loja, só que não tínhamos muito dinheiro e foi montada meio assim, assim... mas deu certo, muito certo.
- De que jeito, vô?
- Os videos que estavam naquela empresa eu trouxe todos pra loja, nós tínhamos quase 1000 videos lá e era um bom acervo, eu nunca tinha montado uma loja com tantos vídeos assim. Resultado: sucesso quase imediato.
- E ai, vô?
- Ai começamos a ganhar dinheiro de novo, e mais tempo ocioso, mais bebida...
- Quer dizer, vô, que é assim: ganhar dinheiro, beber e dormir?
- Quase, netinha, mas isso não podia continuar por muito tempo. Depois de nove anos de bebida as coisas ficaram muito mal, eu bebia das 10h00 até a hora de dormir... quase um engradado de garrafas de cerveja por dia...
- Não morreu por muito pouco, né vô?
- É verdade, eu não morri por que a tua avó resolveu me levar num centro espírita, pra ver se dava jeito...
- E deu, né vô?
- Deu sim, e eu agradeço até hoje ela ter tomado essa decisão.
- Ainda bem... que centro ela te levou?
- Na Seara Bendita, lá no Campo Belo... foi lá que eu me achei comigo mesmo.
- Nunca mais bebida, nem cigarro?
- Nunca mais bebida, nem cigarro... valeu o aprendizado. 
- Eu tô indo, vô. A minha mãe chegou... 
- Te vejo amanhã...

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Férias à luz de velas

- Vô, a mamãe me disse que vamos em férias num cruzeiro... o que é cruzeiro?
- É uma viagem de navio, ele vai parando em alguns portos, as pessoas se divertem, conhecem alguns lugares e assim por diante.
- Dentro do navio tem alguma coisa pra fazer?
- Tem muitas atividades, pois os organizadores sabem que as pessoas precisam ficar fazendo alguma coisa para não sentirem saudades nem ficarem entediadas...
- Isso quer dizer que não vão dar sossego pra gente?
- Mais ou menos, atividades durante praticamente todo o dia.
- Sem intervalo?
- Eles colocam alguns intervalos para que as pessoas possam descansar e colocar a correspondência em dia, ligar para a família, entrar no facebook e assim vai...
- Legal, vô... você já passou férias em um cruzeiro?
- Não, ainda não tive essa oportunidade... deve ser bem legal.
- Se você tivesse oportunidade de ir, você iria num cruzeiro?
- Com certeza... eu adoro o mar e me sentiria muito à vontade... conheceria mais pessoas ainda e me divertiria muito...
- Quando você tinha a minha idade, onde você passava as férias?
- Eu não tinha uma programação de férias como você tem hoje. As coisas eram mais simples...
- Mas você tinha férias... ou não?
- Tinha sim mas normalmente não ia para algum lugar, ficava em casa mesmo...
- Como assim?
- A gente aproveitava e brincava muito... 
- Brincar é muito bom, eu também gosto, quando não saio para passear nas férias eu brinco muito também...
- Então... é exatamente isso, eu brincava muito... tinha muito amigos e todos nós nos reuníamos para atividades bem interessantes...
- Que tipo de atividade, vô?
- Quase as mesmas que a garotada tem hoje, quando não estão nas salas assistindo televisão ou jogando videogames de última geração...
- Como assim, vô?
- As crianças hoje, pela situação que estamos vivendo, não tem muita liberdade, não podem sair de casa e, por isso, ficam com atividades muito reduzidas, apesar de serem boas...
- Vocês brincavam na rua?
- É isso, nós brincávamos na rua e tínhamos muitas brincadeiras...
- Nossa, vô... não tinha perigo? não tinha carros na rua? não tinha assaltos?
- Perigo tinha sim, carro tinha sim e assalto tinha sim, só que eram em menor número, a gente vivia mais sossegado e, por isso, nossas mães e pais não se preocupavam tanto...
- Que da hora, vô!
- Era bem da hora, mesmo. Pra você ter uma ideia: eu saía de casa por volta das 7h30 da manhã e só voltava pra almoçar, mais ou menos ao meio-dia...
- Tua mãe deixava, vô?
- Claro, eu ficava pertinho de casa, num lugar onde a gente jogava futebol, jogava taco, brincava de esconde-esconde, pula-sela e outras tantas...
- E depois do almoço, vô? Você dormia?
- Dormir? Nem pensar... acabava de almoçar e, quase imediatamente, voltava pra continuar com as brincadeiras...
- Como diria o Silvio Santos... Isso é incrível!
- Parece mesmo, mas as coisas eram assim... e tem mais...
- Mais ainda, vô?
- É... em algumas férias, quando eu não morava neste bairro, eu vinha passar as férias na casa de minha irmã...
- Ai, viu? você passava férias fora, como se fosse um cruzeiro...
- Mas não tinha navio, não tinham essas atividades de hoje, mas mesmo assim eu curtia bastante...
- O que você fazia. nessas férias?
- A mesma coisa, brincava com os amigos que ia fazendo a cada ano, jogava futebol, andava de bike, jogava taco, futebol e assim por diante...
- Tudo igual?
- Praticamente... tinha uma pequena diferença...
- Qual, vô?
- Como o bairro era novo, ainda não tinha luz elétrica nem água encanada...
- Que é isso, vô? Como vocês faziam para assistir televisão? e pra tomar banho?
- Televisão a gente não assistia não, banho tomava sim... de bacia.
- Nossa!? Bacia? E você cabia dentro da bacia?
- Eram bacias grandes, a gente esquentava um pouco de água e ia temperando com água fria até ficar na temperatura que a gente queria...
- Até ai, tudo bem... mas sem televisão? O que você faziam?
- Acredite se quiser... a gente lia!
- Sem luz?
- Sem luz elétrica, mas à luz de velas... eu ficava até as tantas lendo as revistas que a minha irmã tinha em casa...
- Vô, que coisa louca!!!
- É... nessa época de minha infância as coisas eram "bem loucas" mesmo!