domingo, 14 de dezembro de 2014


CRESCENDO NA FAVELA
Parecia uma tarde normal... sem muita coisa pra fazer a não ser ver o dia passar e cuidar dos negócios... a venda de drogas.
Tudo transcorria normalmente quando o aviso dos olheiros chegou:
- os home tão ai!!!
corre corre... nervosismo... adrenalina...
o confronto parecia inevitável... a polícia vinha com ordens expressas de acabar com a bocada.
- que vamo fazê agora Paulão?
- não sei direito... ligou pro pessoal? vê ai o que eles querem que faça... liga logo!!!
Quem ia ligar  era Eduardo... o tal que achava que a tarde estava normal.
Correu em disparada... pegou o celular e acionou o chefe...
- os home chegaram!!! que que a gente faz?
A resposta veio fria e seca:
- não deixa entrar... peita esses gambé... peita legal!!! reforço tá chegando!!!
No meio da rua o corre corre ia solto...
A população daquele pedaço de fim de mundo estava apavorada... crianças pra dentro... ninguém se move... fica todo mundo longe de janelas, portas... se protege pelo amor de Deus!!!.
As mães pegaram tudo o que era filho e que podia ir querer ver, colocaram bem escondidinho... longe  o mais possível do perigo.
A polícia chegou e viu: barricada na rua pra impedir o trânsito, proteção para os bandidos que os esperavam... os tiros começaram... os policiais se espalharam e começou o festival de bala... perdida ou encontrada.
Uma delas encontrou o Eduardo de jeito. Próximo do coração. O garoto caiu quase dois metros pra trás. Parecia morto. Só parecia. O coração batia mas não era suficiente.
Quando ele caiu o Paulão viu que não ia dar pra segurar... mandou todo mundo recolher o material e caíram fora o mais rápido que puderam... o chefe que se danasse, depois ele explicava.
A polícia entrou e dominou.
A ambulância chegou... Eduardo deu sorte. Estava em coma. Foi direto pra UTI de hospital público.
- Eduardo de Camargo Faria... alguém perguntou.
- Esse sou eu - pensou o Eduardo - mas, onde estou? que lugar é esse? que hospital mais esquisito...
Um velhinho se aproximou com a ficha na mão...
- Eduardo? - perguntou.
- Sim... que lugar é este aqui?... quem é você?
- Sou o responsável pela sua estadia neste hospital, não se preocupe que já tomamos as providências necessárias.
- Providências? que providências? onde estão os meus companheiros? minha mãe, cadê?
- No momento não podemos falar muito dos outros... precisamos falar de você.
- Falar de mim? o que você tem pra falar de mim?
- Muita coisa... na verdade temos um planejamento e precisamos executá-lo... se você quiser.
- Que planejamento... do quê?
- Você não percebeu nada?
- O que tem pra perceber?
- Olha pra mesa...
O susto do Eduardo foi muito grande... até agora ele não tinha percebido onde estava... e como estava... percebeu o seu corpo... sendo operado... mas ele estava em outro lugar vendo tudo... mas estava muito confuso... que história era aquela?
- Meu... o que é isso? onde eu estou? quem é aquele da mesa... sou eu mesmo?
- É você sim... e é ai que está o nosso planejamento... você teve a oportunidade de conviver com bandidos e ser envolvido em muitas situações perigosas para resistir e continuar no caminho do bem... mas não foi o que você fez...
- E eu tinha outra escolha? Pensa que é fácil ver tua mãe se matar para colocar comida dentro de casa e sempre faltar? Pensa que é fácil querer as coisas e não poder comprar? Pensa  que é fácil ver as gatinhas e se tocar que só o carrão é que atrai? Não sou de ferro não... e quando é que eu falei que ia resistir? Resistir como? Não sou santo não!!!
- Sabemos que ninguém é santo... mas sabemos que você podia ter ouvido um pouco mais os bons conselhos que te deram... as oportunidades de trilhar o caminho do bem que você teve... os anos na escola que tua mãe te proporcionou...
- Será que você pensa que a vida é só isso? Um tempo na escola... empreguinho que não paga bem... não amigo... eu quero dar mais pra minha mãe e pra mim...
- Só tem um jeito de conseguir as coisas que você quer: manter o compromisso no bem... você tem aliados...
- Aliados... só tenho aliados pra fazer o que fazendo... os olheiros e o pessoal que fornece pra eu ganhar minha grana... quando eu for dono de boca ai sim vou ter muito dinheiro...
- Veja aqui o futuro que te espera...
Eduardo olhou numa pequena tela que aquele velhinho tirou do bolso... parecia um desses aparelhos de dvd portáteis...
O que ele começou a ver o deixou impressionado... era a mesma sala... a mesma mesa... a mesma equipe de médicos... estavam desistindo... não conseguiram mantê-lo vivo...
- Que é isso... você vai deixar eles me abandonarem assim... sem chance?
- Você teve todas as chances... optou pelo pior... não podemos deixar você acumular mais dívidas ainda... é hora de sair de cena...
- Pera ai!!! Sair de cena?!!! Não!!! Tem jeito de não sair de cena?
- Ah... tem jeito... o jeito é optar pelo bem... sair da bandidagem... colaborar para o teu crescimento...
- Mas como é que pode... já não tá decidido?
- Vai depender de você... do que você responder... do que você decidir...
- E se eu não conseguir?
- Você vai conseguir se ouvir os teus aliados, eles são os teus protetores espirituais... eles estão sempre por perto... você é que não lhes dá ouvidos...
- Eu não consigo ouvir...
- Mas consegue sentir... sinta o teu coração... sinta a tua intuição...ouça os conselhos de tua mãe... sempre!
Eduardo ficou pensando... essa conversa durou alguns segundos... mas calaram fundo no seu íntimo... que fazer? E se não tivesse forças? E se fosse imaginação?
- Não é imaginação não... respondeu o velhinho.
Eduardo se assustou... os pensamentos podiam ser lidos... agora é que ele percebeu que a boca do velhinho não se mexia... mas estava ouvindo tudo...
- Que que eu tenho que fazer?
- Prestar atenção nos sinais... seguir a intuição... ouvir os conselhos de tua mãe...
- Simples assim?
- Simples assim...
Estava frio... os olhos foram abrindo lentamente... percebeu o ambiente aos poucos... mais três leitos... o vulto ao lado tomou forma...
- Duda... você voltou!!! Que bom meu Deus!!!
- Mãe... quanto tempo eu aqui mãe?
- Tem dez dias quase... você tava vai não  vai... quase perdi a esperança...
- E agora mãe? O que vou fazer? Eles vão me prender?
- Acho que vão... foi flagrante... tem sorte de  vivo... tão esperando a recuperação pra te prender e julgar...
- perdido mãe!
- Tem paciência... tudo se ajeita... vamo cuidá da gente... vamo ficá junto... quem sabe a coisa não fica tão ruim quanto a gente pensando... 
Alguma coisa lhe dizia para ouvir a mãe desta vez...
- É... vamo vê o que vai dá.
Eduardo se recuperou... foi julgado e condenado... era réu primário... 4 anos e 5 meses... Avaré.
Toda quarta a mãe de Eduardo o visitava... sem faltar... os amigos a ajudavam... mandavam mantimentos, roupas... enfim, o que podiam arrumar.
Bom comportamento... três anos e Eduardo foi solto. Estava limpo de novo.
No dia de ir pra casa a mãe de Eduardo o estava esperando... no portão de fora...
Eduardo a abraçou e chorou como criança... não sabia por quê... mas alguma coisa dizia que desta vez era pra valer...
Saíram os dois... o Eduardo e dona Júlia, sua mãe.
Do outro lado seguiam o velhinho e seu Juvenal... o avô desencarnado que o Eduardo não conhecera...

Espírito: Hilário Silva
Médium: Manolo Quesada
21/01/2007

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