sexta-feira, 22 de maio de 2015

O FILHO DO ETHEVALDO

Ethevaldo morava numa cidadezinha pequena do estado de São Paulo, mais precisamente em Avaré, distante quase 300 km da capital.
Todos se espantavam com o carinho com que Ethevaldo tratava da família como um todo e em particular com um de seus filhos.
O espanto era fundamentado na figura de Ethevaldo.  Grandalhão... sem cultura... quase o oposto do que ele manifestava em suas atitudes e ações.
Eu também fiquei curioso com isso e perguntei a um instrutor o que havia por trás de todo aquele carinho, de todo aquele desvelo pelo filho.
O instrutor nos relatou o caso, que passo a contar.
Mariano é como se chama o filho do Ethevaldo. Não era filho natural. Era filho adotivo. Sabia do fato desde quando começou a entender as coisas como elas são. Nunca foi tratado com diferença em relação aos outros membros da família, aos outros filhos do Ethevaldo. Nem eles tampouco tinham qualquer constrangimento quanto a isso.
O caso começou em um tempo remoto... muitos anos antes... encarnações anteriores.
Pernambuco foi o palco de uma encarnação particularmente difícil para essas duas almas unidas pela necessidade de crescer.
Jovelino era um homem de maus modos... cortador de cana. Trabalhava de sol a sol enfrentando a lida diária. Tinha a família e precisava trabalhar duro para garantir o sustento de todos. A esposa não podia trabalhar pois estava com uma doença desconhecida... não tinha forças para nada. Cuidava dos filhos a muito custo.
Família grande... muitos filhos... mas um se destacava dos outros. Não por ser o mais inteligente, não por ser o mais bonito, não por ser o mais amoroso. Destacava-se justamente pelos instintos maus que já se faziam notar...
Fora ele, com sete anos, que ateou fogo em um pano e foi divertir-se amarrando o pano no rabo de um gato... imagine no que deu...
O mesmo pequeno, já na adolescência e na lida da cana-de-açúcar também, caçou briga com outro trabalhador e, sem essa nem aquela, por um motivo banal, atacou-o com a foice usada para limpar a cana.
Jovelino sempre o desculpava... procurando no filho motivos para incentivá-lo no caminho do bem.
Nestor nem ligava para os conselhos do pai.
- Nestor, meu filho, acabe com esse gênio ou você vai se dar mal... tá todo mundo com raiva de você...
- Não me enche, porque da minha vida cuido eu... - replicava Nestor sem sequer olhar para o pai.
- Algum dia alguém vai querer te cobrar tudo isso...
- Que cobre... se puder! - dizia o orgulhoso Nestor.
A vida foi passando... o tempo foi deixando suas marcas em Jovelino... a secura do nordeste enrugou toda a sua pele... a fome, que de vez em quando se fazia presente, foi minando as suas forças... e ele teve que parar com o trabalho na cana-de-açúcar.
Triste fim para um homem que lutara a vida toda para sustentar a si e a sua família...
A mulher já havia falecido... pela Providência Divina não ficou nenhum filho pequeno que necessitasse dos cuidados de Jovelino. Todos já tinha condição de se virar sozinhos... e isso fizeram.
Quando foram atingindo idade suficiente para sair do lugarejo, saíram. Tomaram rumo para outras cidades em busca de dias melhores.
No lugarejo ficaram Jovelino e Nestor. Um totalmente dependente... o outro sem tomar o mínimo cuidado com o pai.
Não o maltratava mais porque não conseguia. Achava que era um peso em sua vida. Não era justo que ele tivesse ficado ali com aquela carga tão pesada sobre os ombros. Os irmãos eram todos uns ingratos que o abandonaram à própria sorte com o velho.
Nestor continuava do mesmo jeito de quando era mais novo. Caçador de encrenca.
Jovelino continuava o mesmo de quando era menos velho. Conselheiro e carinhoso com o filho ingrato.
Os diálogos eram os mesmos...
- Algum dia alguém vai querer te cobrar tudo isso...
- Que cobre... se puder! - dizia o orgulhoso Nestor.
De ingratidão em ingratidão passou a vida para aqueles dois.
O Jovelino desencarnou um dia, como todos os mortais.
Um alívio para o Nestor... afinal estava livre da pesada carga sobre os ombros.
O enterro foi de uma simplicidade assustadora... imagine um velho que só pesava sobre os ombros do filho ter outro destino...
Nestor esqueceu apenas que o tempo passa para todos... ele também envelheceu... não tinha ninguém com ele... quem suportaria aquele gênio?
A solidão, mais que qualquer doença, faz com que o corpo perca o vigor, que a mente perca o raciocínio, faz com que nos sintamos menos que nada. Com Nestor não foi diferente... ao cabo de duas dezenas de anos, já não era o mesmo... faltava-lhe o carinho das pessoas e faltava algo mais na sua vida: faltava a família.
A tristeza tomou conta do seu espírito. A tristeza o colocou no cemitério. Foi encontrado morto em sua casa... os vizinhos estranharam que ele não aparecia há tempos e foram ver o que estava acontecendo... não deixou lágrimas, nem saudades... com um gênio daqueles não foi de estranhar...
Chegou do lado de lá mais pra lá que pra cá...
Não tinha a menor ideia de onde estava... deixou-se ficar num canto perto da casa que outrora habitara.
Ficou muito tempo lá... sem saber de nada... sem ver nada... sem tomar conhecimento do que se passava ao seu redor...
Isso não foi de todo mau... afinal ficaram lá ele e... suas lembranças. A imagem do pai sempre em sua cabeça... passaram pela sua mente todas as imagens do pai que devotadamente lhe dizia:
- Algum dia alguém vai querer te cobrar tudo isso
Vinha-lhe a mente a resposta pronta que ele sempre dava:
- Que cobre... se puder!
Ao pensar nessa resposta foi que ele percebeu que, sozinho como estava, ninguém poderia cobrar nada dele... ninguém a não ser a sua consciência...
Ao pensar assim a visão se aclarou... ele percebeu que não estava mais só... ao seu lado estavam o Jovelino e também a sua mãe... dona Ismênia.
Foi recolhido por eles e por uma equipe de resgate... levado para uma casa de repouso... lá ficou um bom tempo.
Percebeu a grandeza da justiça divina... começou a pesquisar o que fazer para reparar tantos erros e tantos desacertos.
De sugestão em sugestão foi montando um quebra-cabeça... a sua próxima reencarnação... fazia parte dela, sem dúvida, o Jovelino. E faziam parte dela também uma série de acontecimentos que deveriam forçá-lo a dedicar-se aquele que o amara tanto.
Dona Ismênia viria como uma mãe solteira... que não poderia ficar com o filho, fruto de um amor não correspondido... ela deixaria o filho num orfanato... lá ele ficaria por alguns anos... até quase a adolescência... curtindo o abandono... a falta de carinho... a ausência de uma família... Jovelino o resgataria.
Tudo preparado... assim foi feito.
Hoje, quando o povo vê o Ethevaldo passeando com o filho, não imagina todo o drama, não imagina também que o filho que sorri a todo momento para o pai tão atencioso tenha sido o que foi... Coisas de Deus com certeza, que apesar do ditado escreve sempre certo por linhas certas.
Todos, quando passam por eles, comentam:
- Afinal qual a doença do filho do Ethevaldo?
- Ao certo ninguém sabe... só o que todo mundo sabe é que os dois não se largam...

Espírito: Hilário Silva
Médium: Manolo Quesada
11/02/2007


sábado, 18 de abril de 2015

O DIA EM QUE A TERRA PAROU
Ele olhava para o céu e parecia que nada se mexia... ficou impressionado com isso pois nunca tinha tido essa impressão... lembrou até da música do Raulzito, e percebeu como as coisas acabam perdendo o sentido quando olhamos por um único ponto de vista.
O que teria acontecido? Porque a sensação de impotência? O que teria acontecido para esse estado de coisas?
As perguntas iam  se repetindo em sua mente... lembranças começavam a formar-se em sua mente... coisas importantes para ele...
- Nathalia... vem ver!!!
- Que foi Eliel?
- Você não vai acreditar... uma pechincha...
- Você é louco... como vamos pagar?
- A gente trabalha não trabalha? Vamos conseguir, sim!!!
Lembranças do primeiro carro... azul... azul da cor do mar... o carro foi pago... afinal eles trabalhavam, não é mesmo?
- Você tem certeza que está bem?
- Tenho, já falei pra você!
- É que eu fico preocupado... afinal não temos tanta experiência assim...
- Eu sei disso... mas eu é que vou ter o filho... estou dizendo que está tudo bem... então fica calmo...
- Tá bom...
Ficou calmo... afinal ele era o co-adjuvante no verdadeiro milagre que é a vida... co-adjuvante de primeira...
- Eliel... vamos que estourou a bolsa...
- Vai devagar para o carro... eu vou pegar as malas...
- Não tenha tanta pressa... tá tudo bem...
A chegada no hospital foi tranquila... tranquilo também foi o parto... normal, logo, logo, o choro invadiu a sala... um menino...
As lembranças não paravam mais... o que parecia parado era o tempo... tudo do mesmo jeito sabe-se lá desde quando!!!
- Alô... é o Eliel...
- Eliel, meu filho, corre pra cá... teu pai não tá muito bem...
- Que foi mãe?
- Não sei...mas ele não me parece muito bem...
- Tô indo...
Quando chegou já encontrou o pai em estado muito ruim... a cor não era boa... a respiração era difícil... enfim... parecia que não ia dar tempo...
- Calma pai...vamos para o hospital... fica calmo, pai...
- Eu estou calmo, filho... é só a falta de ar que me incomoda...
Colocou o pai no carro e rumou para o hospital... lá chegando o pai foi logo medicado... parecia tudo normal, mas na madrugada o velhinho não resistiu, uma complicação no pulmão e ele se foi... desta pra melhor...
Eliel deu a notícia para a mãe... tratou dos papéis...tratou das flores... tratou de se desincumbir da tarefa pesada da melhor maneira...
- Um dos dias mais tristes da minha vida... ele sempre dizia.
Parece que a vida dele passava em sua cabeça... os fatos marcantes iam aparecendo... como se estivessem acontecendo naquele momento...
- Se estão acontecendo neste momento, então o mundo não parou... se não parou porque eu não consigo sequer mexer um músculo?
Novas lembranças... pareciam tão verdadeiras...
- Eliel... Eliel... Eliel...
- Quem está me chamando?
- Não me reconhece não? Tô tão diferente assim?
- Dondinho é você? Meu Deus... de onde você apareceu... e eu que não acreditava em fantasmas... eu tô ficando doido, só pode ser isso...
- Não é nada disso Eliel... eu vim pra te ajudar...
- Me ajudar? Que que um morto pode fazer?
- Uma porção de coisas...
- Que coisas? Eu não acredito... tô falando com um morto e nem tô com medo... só posso estar sonhando e doido varrido...
- Não é sonho e nem você está doido... estamos do mesmo lado agora...
- Mesmo lado? Que lado? Que história é essa?
- Mesmo lado,,, estamos "mortinhos da silva"...
- Não é possível... os mortos não falam...
- Você não disse que estava morto? Então?
- É mesmo... agora confundiu tudo...
- Porquê?
- Eu estava aqui pensando na música do Raulzito, porque tudo parecia parado... aquela música do dia em que a Terra parou... lembrei de um monte de coisas da minha vida... e agora você... será que é verdade mesmo?
- Tenha certeza que sim... e tem mais gente que veio te buscar...
- Como é que essas coisas acontecem e a gente nem percebe? Pode me dizer? Pode me explicar?
- Bem... pra cada um é de um jeito... você até que tá bem... se recuperou rapidinho... tem gente que demora muito tempo mesmo...
- Porque eu não lembro do que aconteceu?
- Você vai lembrar... igual que as lembranças da tua vida... é uma questão de tempo... mas agora veja quem está aqui...
- Oi Eliel... lembra de mim?
- Mais ou menos...
- É o Miro... vô Miro... pai da Laura, tua mãe...
- Mas o senhor morreu faz muito tempo... eu era pequeno... não lembrava direito não... a gente fica tanto tempo por aqui? E essa história de reencarnação?
- Com o tempo você vai se acostumando... nada é tão rápido como a gente pensa... temos que nos preparar para não exagerar...
- Exagerar? No que?
- Nas tarefas... nas provas... nos afazeres... temos a mania de achar que podemos dar conta de tudo... depois quando chegamos lá ficamos muito complicados...
- E a Nathália... meus filhos... como eles ficaram?
- Eles estão bem... já se refizeram... já retomaram a vida normal... afinal, a vida continua...
- Mas se recuperaram tão rápido assim?...
- Até que eles demoraram um pouquinho... Nathália chorou muito... não conseguia entender a necessidade do que aconteceu... afinal, ela ficara sozinha com os filhos...
- O que aconteceu? Quer dizer que a coisa foi feia?
- Bem... eu não estou autorizado a revelar nada além da presença dos amigos que você tem deste lado... tenha paciência que já já você será informado...
- Espera um pouco vô... se eles já se recuperaram... se nós nos amávamos... isso quer dizer que não faz tão pouco tempo assim...
- Realmente não faz pouco tempo assim... você demorou um pouco para se recuperar do acontecido...
- Um pouco? Ou um muito?
- Nada é muito deste lado... o tempo não corre de maneira tão desenfreada... você mesmo não disse que parece que a Terra parou?
- É...
- Então... parou mesmo... parou pra você...
- E agora?
- Agora? Agora ela começou a andar de novo... aproveita e venha conosco... temos muita coisa para ver... e conversar...


Espírito: Hilário Silva
Médium: Manolo Quesada
04/03/2007

segunda-feira, 16 de março de 2015

MILAGRE NO METRÔ
Marcos é cético... mas não um cético como outro qualquer. É cético da cabeça aos pés, ou seja: não acredita em nada mesmo... nada que se refira a ir desta pra melhor, ou vida após a vida, ou céu, ou inferno... purgatório então, nem pensar!
Tem, apesar de toda a descrença, a fé em si mesmo. É essa fé que faz com que ele se levante todos os dias, se arrume e se dirija para o trabalho, onde ele tem os proventos necessários para o seu dia-a-dia.
Não mora sozinho. Tem alguns parentes que dividem as despesas da casa com ele: avós, tias e tios.
Sim, o Marcos veio do interior para a cidade grande e, portanto, tem um grande apreço pelos que o acolheram.
Essa manhã parecia diferente para ele. Despediu-se como de costume...
- Tchau ... indo...
- Tchau Marcos. Respondeu Rosa, ou melhor, Dona Rosa, a que tanto Marcos gostava.
Depois da despedida, ponto de ônibus... integração com o Metrô... facilitava um pouco a vida. Ganhava um tempinho.
- Não pegue o ônibus agora...
Marcos virou-se... ninguém...
A sensação da manhã persistia.
- Que será isso? ficando doido... só pode ser.
O pensamento de Marcos nao atinava com o que pudesse estar acontecendo.
- Conceição... é nesse que eu . Assim pensou, assim fêz.
Nos vinte minutos que Marcos ficou no ônibus até a Estação Conceição, a sua cabeça não parou um segundo...
- Caramba... tanta coisa pra fazer hoje. Preciso planejar tudo direitinho, senão não dá pra ver a Fernanda... ê lasqueira! É tudebom!
Fernanda era a namorada... eles se amavam e estavam fazendo planos para o futuro.
Marcos era muito gentil com ela, e ela correspondia a todo o sentimento que ele tinha por ela.
- Caramba... tenho que resolver logo o caso do Eduardo, senão frito... o chefe não vai gostar se eu ficar enrolando e não resolver... ai ai ai... tanta coisa pra quê? Bate com as dez e acaba tudo mesmo...
Na estação deu-se pressa.
Entrou e logo dirigiu-se para a catraca... bilhete integração... vai e volta.
O barulho do trem foi aumentando junto com a velocidade que o trem desenvolvia.
Um passageiro puxou assunto sobre os problemas da corrupção que o país atravessa.
- Isso é coisa que eles resolvem... afinal, elegemos sempre os mesmos, não é? Respondeu Marcos.
- Precisamos mudar mesmo... escolher gente nova... respondeu o outro.
- O senhor acha que adianta alguma coisa? Perguntou Marcos.
- Não sei, mas pelo menos a gente diz que não concorda com o que está ai, ?
- Acho que o senhor tem razão...
A conversa acabou, pois Marcos estava com um pouco de sono e cochilou quase imediatamente.
- E ai? Pegou o ônibus e está aqui agora... toma cuidado.
- O quê? perguntou ao senhor que estava ao lado.
- Nada não... não perguntei nada. Descansa mais um pouco.
- De novo. Pensou Marcos.
Uma sensação de impotência tomou conta dele, afinal ele não acreditava em nada que não fosse deste mundo... e agora? Será que havia alguma coisa?
Lembrou do Sérgio, o amigo que de vez em quando lhe falava alguma coisa sobre o outro lado da vida.
- É verdade Marcos, o além existe... tem vida depois da vida. Não tem como ser diferente... é a justiça divina.
- Justiça divina é o que você faz aqui... passou daqui não tem mais nada.
- Engano seu... quando acontecer a tua passagem você vai se surpreender com o que nos espera do outro lado... se não nos preparamos ficamos sem saber o que fazer...
- Preparar para morrer? Você louco! O que existe de fato é o que vemos por aqui... se você acredita nisso tudo que diz problema seu... eu é que não perco meu tempo.
- Preciso conversar um pouco mais com o Sérgio, concluiu Marcos.
Na estação Sé, Marcos pegou o outro ramal: Barra Funda.
- Bem, agora quase lá... espero que eu consiga resolver tudo.
- Estação República - anunciou o alto falante.
- Vamos lá... pensou Marcos.
Desceu. O trem movimentou-se. Ele ficou junto à faixa amarela que demarca o espaço seguro para o passageiro dentro da estação. Ficou olhando não sei bem o que... aquelas coisas que nos pegam de surpresa. O trem ia longe quando de repente um empurrão e... Marcos caiu nos trilhos!
Não sabia bem o que estava acontecendo... como chegara ali... quem o empurrara...
Conseguiu pegar a pasta... alguns olhavam da plataforma.
De repente Marcos viu alguém que vinha ao encontro dele...
- Cuidado amigo e mantenha a calma...
- Tudo bem... eu estou bem. Respondeu Marcos.
- Tome cuidado com esse trilho extra que aparece ai... ele é que carrega a energia para movimentar os trens...
- Tudo bem... eu estou tranquilo... acho que chamaram a segurança...
Realmente alguém avisara a segurança. As providências estavam sendo tomadas.
A energia da estação foi bloqueada... alarmes soaram indicando perigo... todos os usuários foram contidos à distância segura.
O diálogo continuava nos trilhos.
- Como foi deixar uma coisa dessas te acontecer?
- Sei lá... eu não percebi... de repente tomei um empurrão e cai...
- Não sabia que tinha que tomar cuidado? Não te avisaram para não tomar o ônibus?
- Como você sabe isso? Você lê pensamentos? Tava pensando nisso agora...
- Temos que tomar cuidado... afinal, ninguém está sozinho... vê se toma jeito...
- Pera ai! Quem é você?
Antes de obter a resposta ouviu o chamado da plataforma:
- Fique quieto que já estamos indo resgatá-lo... por favor, não se mexa e mantenha a calma.
- Já falei que estou calmo... vocês não entendem não?
Quando olhou para o lado percebeu que estava só. Onde estaria aquele funcionário? Como ele saiu sem que percebesse?
Mais alguns minutos e pronto... Marcos virou notícia!
Alertados pela segurança uma equipe de tv já estava a postos para entrevistar o sortudo que caiu nos trilhos do metro e saiu sem nenhum ferimento.
Deu a entrevista depois de um bom copo com água e foi embora, afinal tinha muita coisa a fazer.
Tudo transcorreu normalmente... os seus quinze minutos de fama haviam chegado e, da mesma forma, ido embora.
O tempo passou. Final de ano... família reunida... pai e mãe vieram a São Paulo para as festas...
A casa ficou pequena... corre pra cá, corre pra lá e rapidamente todos se acomodaram.
- Uma semana passa logo, disse a Rosa.
- Saudades mãe, saudades pai... como vão as coisas?
- A vida do mesmo jeito... tranquila... sem muita mudança... você é que passou um susto grande... nós vimos a notícia...
- Pois é pai... eu nem sei como cai... tomei um encontrão de alguém e lá fui eu... sorte que um funcionário estava lá embaixo e conversou comigo... me ajudou a acalmar... e logo depois eu sai... a segurança me resgatou lá nos trilhos...
- Evaldo!!! Chamou a Rosa.
Evaldo, o pai  de Marcos, se levantou e foi ver o que era.
A Rosa estava vendo umas fotos antigas, aproveitando a visita do filho...
- Olha quanta foto eu guardo... vem matar saudade!
Ao ouvir falar das fotos o Marcos foi pra lá também... e todos os outros foram se chegando...
Foto vai, foto vem...
De repente o Marcos fica estranho... meio branco...
- Que foi Marcos? Não bem não? Perguntou o pai...
- Pai... de quem é esta foto?
- Esta aqui?
- Isso... quem é esse?
- Esse é o tio Evilázio... meu irmão mais velho... não sei se você chegou a conhecer ele... faz um tempão que morreu...
- Morreu? Morreu nada... foi esse ai que tava lá nos trilhos pedindo pra eu me acalmar... ai ai ai... me dá um copo com água mãe!!! Com açúcar!!!
A água veio rápida e bem docinha...
Depois disso o cético ficou com a pulga atrás da orelha...
- Será? será?

Espírito: Hilário Silva
Médium: Manolo Quesada
28/01/2007


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

É A MISS! É A MISS! É A MISS!
O ano é 1925. A casa está em festa e... preocupação. Dona Iolanda está em trabalho de parto. Alguma coisa lhe diz que precisa de ajuda... o bebê está inquieto demais...
Dona Iolanda chama o marido, Dr. Astolpho, e pede que chame a parteira, pois está na hora e ela está preocupada...
Dr. Astolpho sai e pede a um empregado que vá chamar Dona Cotinha, parteira de mão cheia e responsável por trazer à luz uma verdadeira legião de bebês...
- Astolpho, estou preocupada, alguma coisa me diz que teremos muito trabalho a partir de hoje...
- Não se impressione, Iolanda, são sentimentos de hora de parto... pense em N.S. do Bom Parto... ela lhe dará uma boa hora... olha, vou acender uma vela para ela no altar da capela...
- Isso Astolpho, faça isso... acenda uma por mim também...
Astolpho saiu em direção à capela que ficava próxima à casa e lá cumpriu a obrigação... uma leve brisa soprava e ele pode perceber que o ar estava diferente... fresco e suave... não combinava com as preocupações da esposa...
- Coisas de gravidez, pensou ele e voltou para o lado da esposa mais tranquilo.
Passava da meia-noite quando um choro de criança cortou o silêncio da noite... choro de menina...
- Veja, Dona Iolanda, que menina linda! Veja! Viu? Nem precisava tanta preocupação... tá linda e saudável... obrigada N.S. do Bom Parto... obrigada meu Deus! Deus abençoe e ilumine esta menina... que nome vai ter?
- Leonor, respondeu Iolanda sem pestanejar, meio entre lágrimas e sorrisos.
Dona Cotinha pediu para que o Dr. Astolpho viesse conhecer a filha...
Ele não conteve a alegria... estava diante de uma menina muito linda... em silêncio agradeceu a Deus a benção que ele mandara para aquela casa...
A vida continuou... Era uma família temente a Deus e possuidora de muitos bens. Levavam uma vida confortável... bem confortável.
A pequena Leonor crescia entre muitas personalidades... os pais eram patronos de artistas diversos, comprando quadros e promovendo verdadeiros saraus literários naquelas décadas marcadas pela ebulição cultural e pelos ideais de liberdade de um grupo de jovens idealistas...
A Revolução de 32 encontrou Leonor com sete anos e já em plena atividade beneficente... enquanto os pais discutiam atitudes que deveriam tomar, ela, do jeito que a infância permite, traduzia em otimismo e alegria as preocupações dos pais com o destino que poderiam ter...
A beleza da menina a todos encantava... mas ela não se deixava envolver por isso e encarava tanto o dinheiro quanto a beleza como coisa natural... afinal, a "vida toda" ela fora assim...
As preocupações passaram e ela crescia... cada vez mais bonita e cada vez mais participante na vida social e assistencial da mãe.
Iolanda a levava para a igreja onde mantinha obras de caridade com os menos favorecidos... entendia que era dever de quem tem mais auxiliar a quem tem menos.
Nesse caminho também foi Leonor... agora mais moça e mais bonita que nunca... por onde passava causava verdadeiro furor...
Estranho que, apesar de tão linda e tão rica, não tinha ilusões quanto a flertes ou casamento... mantinha-se distante dessa parte da vida. Frequentava a sociedade, sempre que possível, mas não mantinha nenhum flerte ou romance com ninguém.
O que gostava de fazer era acompanhar a mãe, agora um pouco mais cansada pela idade, em suas obras de benemerência.
Os rumores de guerra chegaram com força total... Getúlio mandaria tropas para a Europa em guerra...
Ela ficou indecisa... e agora? O que fazer?
As notícias da guerra eram muito tristes... feridos... mortos... soldados fora de casa... perdidos em países tão distantes...
Ela não poderia ficar sem fazer nada... alistou-se como voluntária da Cruz Vermelha e foi para o front...
A pergunta era inevitável: o que fazia uma mulher tão linda e tão rica tomar uma decisão
dessa natureza?
A reposta ela mesma dava com muita naturalidade:
- Nem a beleza nem o dinheiro tem sentido algum se não nos colocarmos a serviço do próximo... onde quer que sejamos necessárias.
A Itália foi o destino inicial de Leonor.
Chegou e colocou-se a serviço em um hospital de campanha... enfermeira com muita prática devido aos cuidados que tinha com grande número de doentes que acompanhava nas atividades da igreja que frequentava no Brasil..
Alguns não tinham sorte de sobreviver... outros ficavam mutilados... a todos ela atendia com carinho e caridade...
E todos diziam:
- Parece uma miss de tão linda!
A guerra acabou e ela voltou para o Brasil, onde passou por inúmeras atividades, sempre em auxílio dos menos favorecidos...
Iolanda e Astolpho já não tinham a mesma saúde... e ela sentia-se muito à vontade ficando com os pais que tanto lhe ofereceram... eles já tinham por volta de 60 anos, pois haviam sido pais já com idade acima da média... sentiam-se muito bem ao lado da filha que tanta atividade no bem exercia...
- Filha, você não tem vontade de casar-se? Perguntava Dona Iolanda, preocupada com a filha, que na falta deles ficaria sozinha...
- Não se preocupe, mamãe... tenho a companhia de vocês e tenho a atenção de todos os amigos que ajudamos... não dá tempo para esse tipo de preocupação...
- Sei que você tem muita satisfação com o que faz, mas lembre-se que não ficaremos para semente... mais dia menos dia você ficará sozinha... e então?
- Até lá teremos muito tempo ainda... vocês viverão muito e eu não tenho mesmo esse tipo de necessidade que você está pensando...
- Está bem... nós só não queremos que você perca a vida por nossa causa...
- Perder a vida? Se vocês o que fizeram foi mostrar-me que podemos usar todos os dons que Deus nos concedeu em favor do próximo... isso sim é ganhar a vida! Não se preocupe... eu estou muito bem...
58... 62... 70... conquistas no esporte favorito dos brasileiros a encontrava, invariavelmente, em atividades junto aos menos favorecidos... assistindo aos jogos pela televisão, vibrava muito com a conquista do tricampeonato pela seleção brasileira...
Apesar de toda a benemerência não se esquecia dos idealistas da década de 70... companheiros que eram deportados, outros que tinham que fugir apressados pela repressão da época... com todos os que por ela passavam o mesmo gesto de carinho e incentivo... afinal todos tinham direito a expressão, conforme o seu modo de pensar...
Certa manhã sentiu o coração um tanto apertado... correu para o quarto dos pais e encontrou o velho Astolpho ao lado da cama... segurava nas mãos a mão de Iolanda... não chorava, apenas a segurava.
- Papai...
- Ela se foi, respondeu Astolpho, ela se foi...
Leonor ficou ao lado do pai... olhou a mãe que parecia dormir ainda e chamou o médico da família para as providências necessárias...
O amor é sempre singular... o amor é sempre generoso... dois meses depois Astolpho acompanhou Iolanda... um enfarto...
Leonor muniu-se de todas as forças para continuar a luta em prol dos menos favorecidos... em prol dela mesma, pois como ela sempre repetia, a maior beneficiada de toda essa atividade era ela mesma... e por isso agradecia a todos a oportunidade que eles lhe ofereciam...
Apesar dos anos ela ainda era muito linda... em todos os lugares por onde andava os andrajosos e desvalidos repetiam:
- Parece uma miss!
Chegou a campanha pelas "diretas já" e lá estava ela: auxiliando os menos favorecidos e lutando para o restabelecimento dos direitos individuais...
A tristeza com o presidente eleito e morto... depois a eleição direta que frustrou a nação inteira... nada disso a impediu de continuar trabalhando... e ela fazia isso diariamente.
De vez em quando lembrava das preocupações da mãe com a situação que ela escolhera... passava logo, pois não tinha tempo ocioso e nem mal utlizado...
Preocupada com o fato de "ninguém ficar para semente" organizou uma Fundação para gerir os recursos que recebera dos pais e que ela trabalhara para utilizar em favor dos menos favorecidos...
A idade não tirara a força de trabalho, tampouco a beleza que todos notavam...
- Parece uma mis!
O ano de 2007 a surpreende... já não é mais nenhuma criança... sabe que os 82 anos pesam "um pouco"... mas por essa ela não esperava...
Uma manhã de fevereiro, dessas chuvosas, a encontrou com muita dificuldade para respirar... chamou pela enfermeira que a acompanhava em casa...
- Letícia... não estou bem... chame a ambulância...
Imediatamente foi acionado o serviço de ambulância... a transportaram para um dos melhores hospitais do país...
Dois dias na UTI... dois dias de apreensão em todos que a conheciam... e ela era muito conhecida... afinal a vida toda dedicada aos menos favorecidos, aos desafortunados pela sorte...
Clero, políticos, personalidades da sociedade... "descamisados" sem número... todos queriam poder fazer alguma coisa por Leonor...
Não havia nada a fazer... era chegada a hora do retorno à patria espiritual...
As honras todas foram feitas... dignas de quem fizera o trabalho com alegria e satisfação...
Velada na Assembléia Legislativa...
Visitada por milhares de pessoas...
Último adeus dos que ela auxiliara tanto...
Homenagens àquela que  "não ficara para semente", mas que colocara nas vidas de muitos a semente da dignidade, a semente do carinho, a semente do amor ao próximo...
Na hora do último adeus todos lembravam de sua beleza:
- Parecia uma miss!
Do outro lado da vida essa mulher ímpar era recepcionada em coro pelos que ela ajudara e que retornaram antes para a pátria espiritual:
- É a miss! É a miss! É a miss!

Espírito: Hilário Silva
Médium: Manolo Quesada
18/02/2007

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

DE VOLTA PRA CASA
Rufino gostaria de voltar pra casa, não a casa onde ele mora hoje, pertinho do trabalho... ele gostaria de voltar para a cidade de onde saíra há tantos anos...
Não que ele não gostasse de onde vive, nem do trabalho, nem da família... ele gostava e muito... mas tinha saudade... de tudo...
Quando perguntavam do que ele tinha mais saudade ele não sabia dizer... talvez da infância, da juventude cheia de peripécias, de aventuras...
- Não... não é isso o que queremos saber, isso é muto subjetivo... respondiam os amigos...
- Ah... ai eu não sei... aqui eu vivo tão bem quanto eu vivia lá...
- Então não sei o que você tá querendo!
- Eu tô querendo é voltar para um ponto na minha vida onde eu me sentia bem... estava onde eu queria ficar...
- Então porquê você veio pra cá?
- Um monte de coisas... o trabalho principalmente...
- Trabalho tem em todo lugar... você podia ter ficado e continuado no emprego...
- Ai é que tá... a firma que eu trabalho hoje era lá... eu trabalhava lá... mas ela resolveu mudar... e ofereceu algumas vantagens que eu precisava aproveitar...
- Aproveitar porquê? Pra que? Pra ficar desse jeito agora?
- Veja... eu tinha um monte de sonhos... namorava com a Mariana, tinha vontade de casar, ter filhos, construir uma família, ter uma casa... um lar, percebe?
- Percebo... mas percebo também que o tempo passou, você conquistou várias coisas que você queria e agora está infeliz...
- Não é infeliz... eu acho que poderia estar mais feliz...
- Então porque você não volta?
-  É mesmo né? vou conversar com todo mundo e ver o que dá pra fazer...
- Isso mesmo...
O papo acabou...
Rufino chegou em casa... chamou Mariana...
- Mariana, tô pensando em voltar pra casa...
- Pra casa?  Que casa? Nossa casa é aqui...
- Não é não... você sabe que eu sinto muita falta da cidade onde nasci... da turma que deixei lá... dos parentes...
- Rufino, esquece isso... turma você tem é aqui... parente a gente visita de vez em quando... e tá bom demais...
- Tá bom pra você que não tem ninguém mais... tua família já foi toda pro outro lado...
- Eu sei... mesmo assim não me sinto só... tenho você, tenho as crianças...
- Crianças? Que crianças? O mais novo já tem 29 anos...
- Pra mim são sempre crianças...
- Pra você talvez... não pra mim e não pra eles também...
- É... eu sei que exagero de vez em quando... mas você também exagera com essa coisa de "voltar pra casa"...
- É... acho que exagero... acho também que vou descansar... amanhã é outro dia.
O sono chegou... Rufino dormiu... sonhou... não lembrava direito no dia seguinte...
O tempo passou... um ano mais... dois anos mais... dez anos mais...
A rotina de sempre... agora estava aposentado... quase sessenta anos... os filhos casados... Mariana doente... médico pra cá, médico pra lá... parece que não acaba isso de médico... pensava Rufino.
Acabou um dia... alguns meses depois Mariana não resistiu e fez a passagem... os filhos todos voltaram pra casa... acompanharam o sepultamento e retornaram à vida...
Rufino não sabia o que fazer agora... os filhos pediram que ele fosse morar com um deles, afinal já estava na hora... estava bem mas precisava ficar com eles, seria mais seguro... eles ficariam mais tranquilos...
Rufino não quis saber... vou ficar em casa... se um dia resolver volto pra minha terra e pronto...
A ideia estava amadurecida... seis meses sem Mariana o deixaram mais flexível... ele concordara em morar com um dos filhos... afinal a cidade era a mesma de onde ele tinha vindo... ele poderia ver quem estava vivo daquela turma que fazia tempo que ele não via...
- Vou embora pra casa... disse ao amigo que o ouvia há tantos anos...
- Até que enfim... não aguento mais essa conversa... voltar pra casa... saudade... saudade de quê? Aquele povo que você conheceu quando era jovem nem tá mais lá... e os que estiverem nem vão lembrar de você...
- Que é isso? Tá com ciúmes? Eu não vou esquecer de você... eu venho te ver, só de vez em quando... e você pode ir me visitar sempre que você quiser...
- Eu não tô com ciúmes não... quero mais é que você seja feliz... vai logo...
Rufino saiu rindo... o amigo era muito especial... uma vida de amizade... mas alguma coisa dizia que ele estava fazendo a coisa certa... era chegado o tempo de voltar...
Os imóveis foram vendidos... afinal, precisaria de uma casa nova na cidade para onde iria... morar com o filho na mesma casa seria muito difícil... cercearia a liberdade... invasão de privacidade... essas coisas que gente lúcida ainda tem apesar da idade...
O dinheiro do banco ele transferiria depois... abriria uma nova conta e transferiria o numerário...
Agora o mais difícil... as despedidas. Apesar da satisfação da mudança não esquecia que fora recebido naquela cidade como um filho da terra, sem discriminação, sem bairrismo, com muita consideração e amizade... e sabe como é cidade pequena... vira tudo uma grande família...
Passagem comprada... ansiedade pela espera... rodoviária vazia... cidade pequena... não é sempre que tem muita gente na rodoviária... deu tempo de pensar... na Mariana...
Será que tinha mesmo fundamento esse negócio de vida após a vida? Lá no centro espírita que ele fora uma ou duas vezes, ouvira sobre isso... reencarnação...
A preocupação acabou... o ônibus chegou... escolhera viajar à noite pra descansar e chegar melhor na casa do filho onde ficaria um tempo até comprar a casa nova... já estava escolhida, era só fechar o negócio...
Poltrona 37... quase no final do ônibus... melhor assim... descansaria mais...
A viagem começou... saída da cidade... as lembranças ficando pra trás... a esperança pela frente... apesar da idade...
Acomodou o travesseiro... espichou a poltrona... deitou... fechou os olhos...
Mariana de novo na lembrança... fora uma vida muito boa ao lado dela... os filhos... as lutas... as desavenças superadas... os pontos de vista aplainados... coisa de consenso... ficou com um sorriso nos lábios como se ela estivesse ali... como se eles pudessem se ver novamente...
O rádio tocava uma música da Elba Ramalho... ele conhecia... dizia "estou de volta pro meu aconchego, trazendo na mala bastante saudade..."
Ao som da música adormeceu...
Era madrugada quando o motorista perdeu o controle do veículo... o ônibus teve um pneu estourado... a confusão foi geral... todos acordaram muito assustados... o ônibus caíra numa ribanceira à beira da estrada... alguns estavam acordados outros não...
Rufino tomou pé da situação e socorreu os que pôde... alguns não davam nem sinal de nada... mas ele achou que aquilo não estava muito de acordo... ninguém o ouvia... a aparência deles não era a mesma... estavam diferentes... ele também estava diferente... meio atordoado... cansado mesmo... não lembrava muito bem do que acontecera... porque alguns não lhe davam atenção? Porque parecia que não o estavam vendo?
Olhou na poltrona 37... era ele que estava lá... como isso era possível?
Desmaiou...
O sol  raiava quando foi acordado...
- Como está, Rufino?
- Estou bem... onde estou?
- Você está em Esperança Nova... uma colônia próxima da Terra... você foi resgatado no acidente do ônibus, tem mais ou menos uns seis meses...
- Esperança Nova? Colônia? Isso quer dizer o quê?
Uma voz feminina interrompeu o diálogo...
- Isso quer dizer que você voltou pra casa...
Ele olhou e admirou-se com quem estava ali...
- Então é verdade mesmo? Existe vida depois da vida, Mariana?
- Existe sim... agora é tempo de recomeçar...

Espírito: Hilário Silva
Médium: Manolo Quesada
18/03/2007
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