quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

DE VOLTA PRA CASA
Rufino gostaria de voltar pra casa, não a casa onde ele mora hoje, pertinho do trabalho... ele gostaria de voltar para a cidade de onde saíra há tantos anos...
Não que ele não gostasse de onde vive, nem do trabalho, nem da família... ele gostava e muito... mas tinha saudade... de tudo...
Quando perguntavam do que ele tinha mais saudade ele não sabia dizer... talvez da infância, da juventude cheia de peripécias, de aventuras...
- Não... não é isso o que queremos saber, isso é muto subjetivo... respondiam os amigos...
- Ah... ai eu não sei... aqui eu vivo tão bem quanto eu vivia lá...
- Então não sei o que você tá querendo!
- Eu tô querendo é voltar para um ponto na minha vida onde eu me sentia bem... estava onde eu queria ficar...
- Então porquê você veio pra cá?
- Um monte de coisas... o trabalho principalmente...
- Trabalho tem em todo lugar... você podia ter ficado e continuado no emprego...
- Ai é que tá... a firma que eu trabalho hoje era lá... eu trabalhava lá... mas ela resolveu mudar... e ofereceu algumas vantagens que eu precisava aproveitar...
- Aproveitar porquê? Pra que? Pra ficar desse jeito agora?
- Veja... eu tinha um monte de sonhos... namorava com a Mariana, tinha vontade de casar, ter filhos, construir uma família, ter uma casa... um lar, percebe?
- Percebo... mas percebo também que o tempo passou, você conquistou várias coisas que você queria e agora está infeliz...
- Não é infeliz... eu acho que poderia estar mais feliz...
- Então porque você não volta?
-  É mesmo né? vou conversar com todo mundo e ver o que dá pra fazer...
- Isso mesmo...
O papo acabou...
Rufino chegou em casa... chamou Mariana...
- Mariana, tô pensando em voltar pra casa...
- Pra casa?  Que casa? Nossa casa é aqui...
- Não é não... você sabe que eu sinto muita falta da cidade onde nasci... da turma que deixei lá... dos parentes...
- Rufino, esquece isso... turma você tem é aqui... parente a gente visita de vez em quando... e tá bom demais...
- Tá bom pra você que não tem ninguém mais... tua família já foi toda pro outro lado...
- Eu sei... mesmo assim não me sinto só... tenho você, tenho as crianças...
- Crianças? Que crianças? O mais novo já tem 29 anos...
- Pra mim são sempre crianças...
- Pra você talvez... não pra mim e não pra eles também...
- É... eu sei que exagero de vez em quando... mas você também exagera com essa coisa de "voltar pra casa"...
- É... acho que exagero... acho também que vou descansar... amanhã é outro dia.
O sono chegou... Rufino dormiu... sonhou... não lembrava direito no dia seguinte...
O tempo passou... um ano mais... dois anos mais... dez anos mais...
A rotina de sempre... agora estava aposentado... quase sessenta anos... os filhos casados... Mariana doente... médico pra cá, médico pra lá... parece que não acaba isso de médico... pensava Rufino.
Acabou um dia... alguns meses depois Mariana não resistiu e fez a passagem... os filhos todos voltaram pra casa... acompanharam o sepultamento e retornaram à vida...
Rufino não sabia o que fazer agora... os filhos pediram que ele fosse morar com um deles, afinal já estava na hora... estava bem mas precisava ficar com eles, seria mais seguro... eles ficariam mais tranquilos...
Rufino não quis saber... vou ficar em casa... se um dia resolver volto pra minha terra e pronto...
A ideia estava amadurecida... seis meses sem Mariana o deixaram mais flexível... ele concordara em morar com um dos filhos... afinal a cidade era a mesma de onde ele tinha vindo... ele poderia ver quem estava vivo daquela turma que fazia tempo que ele não via...
- Vou embora pra casa... disse ao amigo que o ouvia há tantos anos...
- Até que enfim... não aguento mais essa conversa... voltar pra casa... saudade... saudade de quê? Aquele povo que você conheceu quando era jovem nem tá mais lá... e os que estiverem nem vão lembrar de você...
- Que é isso? Tá com ciúmes? Eu não vou esquecer de você... eu venho te ver, só de vez em quando... e você pode ir me visitar sempre que você quiser...
- Eu não tô com ciúmes não... quero mais é que você seja feliz... vai logo...
Rufino saiu rindo... o amigo era muito especial... uma vida de amizade... mas alguma coisa dizia que ele estava fazendo a coisa certa... era chegado o tempo de voltar...
Os imóveis foram vendidos... afinal, precisaria de uma casa nova na cidade para onde iria... morar com o filho na mesma casa seria muito difícil... cercearia a liberdade... invasão de privacidade... essas coisas que gente lúcida ainda tem apesar da idade...
O dinheiro do banco ele transferiria depois... abriria uma nova conta e transferiria o numerário...
Agora o mais difícil... as despedidas. Apesar da satisfação da mudança não esquecia que fora recebido naquela cidade como um filho da terra, sem discriminação, sem bairrismo, com muita consideração e amizade... e sabe como é cidade pequena... vira tudo uma grande família...
Passagem comprada... ansiedade pela espera... rodoviária vazia... cidade pequena... não é sempre que tem muita gente na rodoviária... deu tempo de pensar... na Mariana...
Será que tinha mesmo fundamento esse negócio de vida após a vida? Lá no centro espírita que ele fora uma ou duas vezes, ouvira sobre isso... reencarnação...
A preocupação acabou... o ônibus chegou... escolhera viajar à noite pra descansar e chegar melhor na casa do filho onde ficaria um tempo até comprar a casa nova... já estava escolhida, era só fechar o negócio...
Poltrona 37... quase no final do ônibus... melhor assim... descansaria mais...
A viagem começou... saída da cidade... as lembranças ficando pra trás... a esperança pela frente... apesar da idade...
Acomodou o travesseiro... espichou a poltrona... deitou... fechou os olhos...
Mariana de novo na lembrança... fora uma vida muito boa ao lado dela... os filhos... as lutas... as desavenças superadas... os pontos de vista aplainados... coisa de consenso... ficou com um sorriso nos lábios como se ela estivesse ali... como se eles pudessem se ver novamente...
O rádio tocava uma música da Elba Ramalho... ele conhecia... dizia "estou de volta pro meu aconchego, trazendo na mala bastante saudade..."
Ao som da música adormeceu...
Era madrugada quando o motorista perdeu o controle do veículo... o ônibus teve um pneu estourado... a confusão foi geral... todos acordaram muito assustados... o ônibus caíra numa ribanceira à beira da estrada... alguns estavam acordados outros não...
Rufino tomou pé da situação e socorreu os que pôde... alguns não davam nem sinal de nada... mas ele achou que aquilo não estava muito de acordo... ninguém o ouvia... a aparência deles não era a mesma... estavam diferentes... ele também estava diferente... meio atordoado... cansado mesmo... não lembrava muito bem do que acontecera... porque alguns não lhe davam atenção? Porque parecia que não o estavam vendo?
Olhou na poltrona 37... era ele que estava lá... como isso era possível?
Desmaiou...
O sol  raiava quando foi acordado...
- Como está, Rufino?
- Estou bem... onde estou?
- Você está em Esperança Nova... uma colônia próxima da Terra... você foi resgatado no acidente do ônibus, tem mais ou menos uns seis meses...
- Esperança Nova? Colônia? Isso quer dizer o quê?
Uma voz feminina interrompeu o diálogo...
- Isso quer dizer que você voltou pra casa...
Ele olhou e admirou-se com quem estava ali...
- Então é verdade mesmo? Existe vida depois da vida, Mariana?
- Existe sim... agora é tempo de recomeçar...

Espírito: Hilário Silva
Médium: Manolo Quesada
18/03/2007
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