sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

É A MISS! É A MISS! É A MISS!
O ano é 1925. A casa está em festa e... preocupação. Dona Iolanda está em trabalho de parto. Alguma coisa lhe diz que precisa de ajuda... o bebê está inquieto demais...
Dona Iolanda chama o marido, Dr. Astolpho, e pede que chame a parteira, pois está na hora e ela está preocupada...
Dr. Astolpho sai e pede a um empregado que vá chamar Dona Cotinha, parteira de mão cheia e responsável por trazer à luz uma verdadeira legião de bebês...
- Astolpho, estou preocupada, alguma coisa me diz que teremos muito trabalho a partir de hoje...
- Não se impressione, Iolanda, são sentimentos de hora de parto... pense em N.S. do Bom Parto... ela lhe dará uma boa hora... olha, vou acender uma vela para ela no altar da capela...
- Isso Astolpho, faça isso... acenda uma por mim também...
Astolpho saiu em direção à capela que ficava próxima à casa e lá cumpriu a obrigação... uma leve brisa soprava e ele pode perceber que o ar estava diferente... fresco e suave... não combinava com as preocupações da esposa...
- Coisas de gravidez, pensou ele e voltou para o lado da esposa mais tranquilo.
Passava da meia-noite quando um choro de criança cortou o silêncio da noite... choro de menina...
- Veja, Dona Iolanda, que menina linda! Veja! Viu? Nem precisava tanta preocupação... tá linda e saudável... obrigada N.S. do Bom Parto... obrigada meu Deus! Deus abençoe e ilumine esta menina... que nome vai ter?
- Leonor, respondeu Iolanda sem pestanejar, meio entre lágrimas e sorrisos.
Dona Cotinha pediu para que o Dr. Astolpho viesse conhecer a filha...
Ele não conteve a alegria... estava diante de uma menina muito linda... em silêncio agradeceu a Deus a benção que ele mandara para aquela casa...
A vida continuou... Era uma família temente a Deus e possuidora de muitos bens. Levavam uma vida confortável... bem confortável.
A pequena Leonor crescia entre muitas personalidades... os pais eram patronos de artistas diversos, comprando quadros e promovendo verdadeiros saraus literários naquelas décadas marcadas pela ebulição cultural e pelos ideais de liberdade de um grupo de jovens idealistas...
A Revolução de 32 encontrou Leonor com sete anos e já em plena atividade beneficente... enquanto os pais discutiam atitudes que deveriam tomar, ela, do jeito que a infância permite, traduzia em otimismo e alegria as preocupações dos pais com o destino que poderiam ter...
A beleza da menina a todos encantava... mas ela não se deixava envolver por isso e encarava tanto o dinheiro quanto a beleza como coisa natural... afinal, a "vida toda" ela fora assim...
As preocupações passaram e ela crescia... cada vez mais bonita e cada vez mais participante na vida social e assistencial da mãe.
Iolanda a levava para a igreja onde mantinha obras de caridade com os menos favorecidos... entendia que era dever de quem tem mais auxiliar a quem tem menos.
Nesse caminho também foi Leonor... agora mais moça e mais bonita que nunca... por onde passava causava verdadeiro furor...
Estranho que, apesar de tão linda e tão rica, não tinha ilusões quanto a flertes ou casamento... mantinha-se distante dessa parte da vida. Frequentava a sociedade, sempre que possível, mas não mantinha nenhum flerte ou romance com ninguém.
O que gostava de fazer era acompanhar a mãe, agora um pouco mais cansada pela idade, em suas obras de benemerência.
Os rumores de guerra chegaram com força total... Getúlio mandaria tropas para a Europa em guerra...
Ela ficou indecisa... e agora? O que fazer?
As notícias da guerra eram muito tristes... feridos... mortos... soldados fora de casa... perdidos em países tão distantes...
Ela não poderia ficar sem fazer nada... alistou-se como voluntária da Cruz Vermelha e foi para o front...
A pergunta era inevitável: o que fazia uma mulher tão linda e tão rica tomar uma decisão
dessa natureza?
A reposta ela mesma dava com muita naturalidade:
- Nem a beleza nem o dinheiro tem sentido algum se não nos colocarmos a serviço do próximo... onde quer que sejamos necessárias.
A Itália foi o destino inicial de Leonor.
Chegou e colocou-se a serviço em um hospital de campanha... enfermeira com muita prática devido aos cuidados que tinha com grande número de doentes que acompanhava nas atividades da igreja que frequentava no Brasil..
Alguns não tinham sorte de sobreviver... outros ficavam mutilados... a todos ela atendia com carinho e caridade...
E todos diziam:
- Parece uma miss de tão linda!
A guerra acabou e ela voltou para o Brasil, onde passou por inúmeras atividades, sempre em auxílio dos menos favorecidos...
Iolanda e Astolpho já não tinham a mesma saúde... e ela sentia-se muito à vontade ficando com os pais que tanto lhe ofereceram... eles já tinham por volta de 60 anos, pois haviam sido pais já com idade acima da média... sentiam-se muito bem ao lado da filha que tanta atividade no bem exercia...
- Filha, você não tem vontade de casar-se? Perguntava Dona Iolanda, preocupada com a filha, que na falta deles ficaria sozinha...
- Não se preocupe, mamãe... tenho a companhia de vocês e tenho a atenção de todos os amigos que ajudamos... não dá tempo para esse tipo de preocupação...
- Sei que você tem muita satisfação com o que faz, mas lembre-se que não ficaremos para semente... mais dia menos dia você ficará sozinha... e então?
- Até lá teremos muito tempo ainda... vocês viverão muito e eu não tenho mesmo esse tipo de necessidade que você está pensando...
- Está bem... nós só não queremos que você perca a vida por nossa causa...
- Perder a vida? Se vocês o que fizeram foi mostrar-me que podemos usar todos os dons que Deus nos concedeu em favor do próximo... isso sim é ganhar a vida! Não se preocupe... eu estou muito bem...
58... 62... 70... conquistas no esporte favorito dos brasileiros a encontrava, invariavelmente, em atividades junto aos menos favorecidos... assistindo aos jogos pela televisão, vibrava muito com a conquista do tricampeonato pela seleção brasileira...
Apesar de toda a benemerência não se esquecia dos idealistas da década de 70... companheiros que eram deportados, outros que tinham que fugir apressados pela repressão da época... com todos os que por ela passavam o mesmo gesto de carinho e incentivo... afinal todos tinham direito a expressão, conforme o seu modo de pensar...
Certa manhã sentiu o coração um tanto apertado... correu para o quarto dos pais e encontrou o velho Astolpho ao lado da cama... segurava nas mãos a mão de Iolanda... não chorava, apenas a segurava.
- Papai...
- Ela se foi, respondeu Astolpho, ela se foi...
Leonor ficou ao lado do pai... olhou a mãe que parecia dormir ainda e chamou o médico da família para as providências necessárias...
O amor é sempre singular... o amor é sempre generoso... dois meses depois Astolpho acompanhou Iolanda... um enfarto...
Leonor muniu-se de todas as forças para continuar a luta em prol dos menos favorecidos... em prol dela mesma, pois como ela sempre repetia, a maior beneficiada de toda essa atividade era ela mesma... e por isso agradecia a todos a oportunidade que eles lhe ofereciam...
Apesar dos anos ela ainda era muito linda... em todos os lugares por onde andava os andrajosos e desvalidos repetiam:
- Parece uma miss!
Chegou a campanha pelas "diretas já" e lá estava ela: auxiliando os menos favorecidos e lutando para o restabelecimento dos direitos individuais...
A tristeza com o presidente eleito e morto... depois a eleição direta que frustrou a nação inteira... nada disso a impediu de continuar trabalhando... e ela fazia isso diariamente.
De vez em quando lembrava das preocupações da mãe com a situação que ela escolhera... passava logo, pois não tinha tempo ocioso e nem mal utlizado...
Preocupada com o fato de "ninguém ficar para semente" organizou uma Fundação para gerir os recursos que recebera dos pais e que ela trabalhara para utilizar em favor dos menos favorecidos...
A idade não tirara a força de trabalho, tampouco a beleza que todos notavam...
- Parece uma mis!
O ano de 2007 a surpreende... já não é mais nenhuma criança... sabe que os 82 anos pesam "um pouco"... mas por essa ela não esperava...
Uma manhã de fevereiro, dessas chuvosas, a encontrou com muita dificuldade para respirar... chamou pela enfermeira que a acompanhava em casa...
- Letícia... não estou bem... chame a ambulância...
Imediatamente foi acionado o serviço de ambulância... a transportaram para um dos melhores hospitais do país...
Dois dias na UTI... dois dias de apreensão em todos que a conheciam... e ela era muito conhecida... afinal a vida toda dedicada aos menos favorecidos, aos desafortunados pela sorte...
Clero, políticos, personalidades da sociedade... "descamisados" sem número... todos queriam poder fazer alguma coisa por Leonor...
Não havia nada a fazer... era chegada a hora do retorno à patria espiritual...
As honras todas foram feitas... dignas de quem fizera o trabalho com alegria e satisfação...
Velada na Assembléia Legislativa...
Visitada por milhares de pessoas...
Último adeus dos que ela auxiliara tanto...
Homenagens àquela que  "não ficara para semente", mas que colocara nas vidas de muitos a semente da dignidade, a semente do carinho, a semente do amor ao próximo...
Na hora do último adeus todos lembravam de sua beleza:
- Parecia uma miss!
Do outro lado da vida essa mulher ímpar era recepcionada em coro pelos que ela ajudara e que retornaram antes para a pátria espiritual:
- É a miss! É a miss! É a miss!

Espírito: Hilário Silva
Médium: Manolo Quesada
18/02/2007

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