sábado, 18 de abril de 2015

O DIA EM QUE A TERRA PAROU
Ele olhava para o céu e parecia que nada se mexia... ficou impressionado com isso pois nunca tinha tido essa impressão... lembrou até da música do Raulzito, e percebeu como as coisas acabam perdendo o sentido quando olhamos por um único ponto de vista.
O que teria acontecido? Porque a sensação de impotência? O que teria acontecido para esse estado de coisas?
As perguntas iam  se repetindo em sua mente... lembranças começavam a formar-se em sua mente... coisas importantes para ele...
- Nathalia... vem ver!!!
- Que foi Eliel?
- Você não vai acreditar... uma pechincha...
- Você é louco... como vamos pagar?
- A gente trabalha não trabalha? Vamos conseguir, sim!!!
Lembranças do primeiro carro... azul... azul da cor do mar... o carro foi pago... afinal eles trabalhavam, não é mesmo?
- Você tem certeza que está bem?
- Tenho, já falei pra você!
- É que eu fico preocupado... afinal não temos tanta experiência assim...
- Eu sei disso... mas eu é que vou ter o filho... estou dizendo que está tudo bem... então fica calmo...
- Tá bom...
Ficou calmo... afinal ele era o co-adjuvante no verdadeiro milagre que é a vida... co-adjuvante de primeira...
- Eliel... vamos que estourou a bolsa...
- Vai devagar para o carro... eu vou pegar as malas...
- Não tenha tanta pressa... tá tudo bem...
A chegada no hospital foi tranquila... tranquilo também foi o parto... normal, logo, logo, o choro invadiu a sala... um menino...
As lembranças não paravam mais... o que parecia parado era o tempo... tudo do mesmo jeito sabe-se lá desde quando!!!
- Alô... é o Eliel...
- Eliel, meu filho, corre pra cá... teu pai não tá muito bem...
- Que foi mãe?
- Não sei...mas ele não me parece muito bem...
- Tô indo...
Quando chegou já encontrou o pai em estado muito ruim... a cor não era boa... a respiração era difícil... enfim... parecia que não ia dar tempo...
- Calma pai...vamos para o hospital... fica calmo, pai...
- Eu estou calmo, filho... é só a falta de ar que me incomoda...
Colocou o pai no carro e rumou para o hospital... lá chegando o pai foi logo medicado... parecia tudo normal, mas na madrugada o velhinho não resistiu, uma complicação no pulmão e ele se foi... desta pra melhor...
Eliel deu a notícia para a mãe... tratou dos papéis...tratou das flores... tratou de se desincumbir da tarefa pesada da melhor maneira...
- Um dos dias mais tristes da minha vida... ele sempre dizia.
Parece que a vida dele passava em sua cabeça... os fatos marcantes iam aparecendo... como se estivessem acontecendo naquele momento...
- Se estão acontecendo neste momento, então o mundo não parou... se não parou porque eu não consigo sequer mexer um músculo?
Novas lembranças... pareciam tão verdadeiras...
- Eliel... Eliel... Eliel...
- Quem está me chamando?
- Não me reconhece não? Tô tão diferente assim?
- Dondinho é você? Meu Deus... de onde você apareceu... e eu que não acreditava em fantasmas... eu tô ficando doido, só pode ser isso...
- Não é nada disso Eliel... eu vim pra te ajudar...
- Me ajudar? Que que um morto pode fazer?
- Uma porção de coisas...
- Que coisas? Eu não acredito... tô falando com um morto e nem tô com medo... só posso estar sonhando e doido varrido...
- Não é sonho e nem você está doido... estamos do mesmo lado agora...
- Mesmo lado? Que lado? Que história é essa?
- Mesmo lado,,, estamos "mortinhos da silva"...
- Não é possível... os mortos não falam...
- Você não disse que estava morto? Então?
- É mesmo... agora confundiu tudo...
- Porquê?
- Eu estava aqui pensando na música do Raulzito, porque tudo parecia parado... aquela música do dia em que a Terra parou... lembrei de um monte de coisas da minha vida... e agora você... será que é verdade mesmo?
- Tenha certeza que sim... e tem mais gente que veio te buscar...
- Como é que essas coisas acontecem e a gente nem percebe? Pode me dizer? Pode me explicar?
- Bem... pra cada um é de um jeito... você até que tá bem... se recuperou rapidinho... tem gente que demora muito tempo mesmo...
- Porque eu não lembro do que aconteceu?
- Você vai lembrar... igual que as lembranças da tua vida... é uma questão de tempo... mas agora veja quem está aqui...
- Oi Eliel... lembra de mim?
- Mais ou menos...
- É o Miro... vô Miro... pai da Laura, tua mãe...
- Mas o senhor morreu faz muito tempo... eu era pequeno... não lembrava direito não... a gente fica tanto tempo por aqui? E essa história de reencarnação?
- Com o tempo você vai se acostumando... nada é tão rápido como a gente pensa... temos que nos preparar para não exagerar...
- Exagerar? No que?
- Nas tarefas... nas provas... nos afazeres... temos a mania de achar que podemos dar conta de tudo... depois quando chegamos lá ficamos muito complicados...
- E a Nathália... meus filhos... como eles ficaram?
- Eles estão bem... já se refizeram... já retomaram a vida normal... afinal, a vida continua...
- Mas se recuperaram tão rápido assim?...
- Até que eles demoraram um pouquinho... Nathália chorou muito... não conseguia entender a necessidade do que aconteceu... afinal, ela ficara sozinha com os filhos...
- O que aconteceu? Quer dizer que a coisa foi feia?
- Bem... eu não estou autorizado a revelar nada além da presença dos amigos que você tem deste lado... tenha paciência que já já você será informado...
- Espera um pouco vô... se eles já se recuperaram... se nós nos amávamos... isso quer dizer que não faz tão pouco tempo assim...
- Realmente não faz pouco tempo assim... você demorou um pouco para se recuperar do acontecido...
- Um pouco? Ou um muito?
- Nada é muito deste lado... o tempo não corre de maneira tão desenfreada... você mesmo não disse que parece que a Terra parou?
- É...
- Então... parou mesmo... parou pra você...
- E agora?
- Agora? Agora ela começou a andar de novo... aproveita e venha conosco... temos muita coisa para ver... e conversar...


Espírito: Hilário Silva
Médium: Manolo Quesada
04/03/2007