sexta-feira, 22 de maio de 2015

O FILHO DO ETHEVALDO

Ethevaldo morava numa cidadezinha pequena do estado de São Paulo, mais precisamente em Avaré, distante quase 300 km da capital.
Todos se espantavam com o carinho com que Ethevaldo tratava da família como um todo e em particular com um de seus filhos.
O espanto era fundamentado na figura de Ethevaldo.  Grandalhão... sem cultura... quase o oposto do que ele manifestava em suas atitudes e ações.
Eu também fiquei curioso com isso e perguntei a um instrutor o que havia por trás de todo aquele carinho, de todo aquele desvelo pelo filho.
O instrutor nos relatou o caso, que passo a contar.
Mariano é como se chama o filho do Ethevaldo. Não era filho natural. Era filho adotivo. Sabia do fato desde quando começou a entender as coisas como elas são. Nunca foi tratado com diferença em relação aos outros membros da família, aos outros filhos do Ethevaldo. Nem eles tampouco tinham qualquer constrangimento quanto a isso.
O caso começou em um tempo remoto... muitos anos antes... encarnações anteriores.
Pernambuco foi o palco de uma encarnação particularmente difícil para essas duas almas unidas pela necessidade de crescer.
Jovelino era um homem de maus modos... cortador de cana. Trabalhava de sol a sol enfrentando a lida diária. Tinha a família e precisava trabalhar duro para garantir o sustento de todos. A esposa não podia trabalhar pois estava com uma doença desconhecida... não tinha forças para nada. Cuidava dos filhos a muito custo.
Família grande... muitos filhos... mas um se destacava dos outros. Não por ser o mais inteligente, não por ser o mais bonito, não por ser o mais amoroso. Destacava-se justamente pelos instintos maus que já se faziam notar...
Fora ele, com sete anos, que ateou fogo em um pano e foi divertir-se amarrando o pano no rabo de um gato... imagine no que deu...
O mesmo pequeno, já na adolescência e na lida da cana-de-açúcar também, caçou briga com outro trabalhador e, sem essa nem aquela, por um motivo banal, atacou-o com a foice usada para limpar a cana.
Jovelino sempre o desculpava... procurando no filho motivos para incentivá-lo no caminho do bem.
Nestor nem ligava para os conselhos do pai.
- Nestor, meu filho, acabe com esse gênio ou você vai se dar mal... tá todo mundo com raiva de você...
- Não me enche, porque da minha vida cuido eu... - replicava Nestor sem sequer olhar para o pai.
- Algum dia alguém vai querer te cobrar tudo isso...
- Que cobre... se puder! - dizia o orgulhoso Nestor.
A vida foi passando... o tempo foi deixando suas marcas em Jovelino... a secura do nordeste enrugou toda a sua pele... a fome, que de vez em quando se fazia presente, foi minando as suas forças... e ele teve que parar com o trabalho na cana-de-açúcar.
Triste fim para um homem que lutara a vida toda para sustentar a si e a sua família...
A mulher já havia falecido... pela Providência Divina não ficou nenhum filho pequeno que necessitasse dos cuidados de Jovelino. Todos já tinha condição de se virar sozinhos... e isso fizeram.
Quando foram atingindo idade suficiente para sair do lugarejo, saíram. Tomaram rumo para outras cidades em busca de dias melhores.
No lugarejo ficaram Jovelino e Nestor. Um totalmente dependente... o outro sem tomar o mínimo cuidado com o pai.
Não o maltratava mais porque não conseguia. Achava que era um peso em sua vida. Não era justo que ele tivesse ficado ali com aquela carga tão pesada sobre os ombros. Os irmãos eram todos uns ingratos que o abandonaram à própria sorte com o velho.
Nestor continuava do mesmo jeito de quando era mais novo. Caçador de encrenca.
Jovelino continuava o mesmo de quando era menos velho. Conselheiro e carinhoso com o filho ingrato.
Os diálogos eram os mesmos...
- Algum dia alguém vai querer te cobrar tudo isso...
- Que cobre... se puder! - dizia o orgulhoso Nestor.
De ingratidão em ingratidão passou a vida para aqueles dois.
O Jovelino desencarnou um dia, como todos os mortais.
Um alívio para o Nestor... afinal estava livre da pesada carga sobre os ombros.
O enterro foi de uma simplicidade assustadora... imagine um velho que só pesava sobre os ombros do filho ter outro destino...
Nestor esqueceu apenas que o tempo passa para todos... ele também envelheceu... não tinha ninguém com ele... quem suportaria aquele gênio?
A solidão, mais que qualquer doença, faz com que o corpo perca o vigor, que a mente perca o raciocínio, faz com que nos sintamos menos que nada. Com Nestor não foi diferente... ao cabo de duas dezenas de anos, já não era o mesmo... faltava-lhe o carinho das pessoas e faltava algo mais na sua vida: faltava a família.
A tristeza tomou conta do seu espírito. A tristeza o colocou no cemitério. Foi encontrado morto em sua casa... os vizinhos estranharam que ele não aparecia há tempos e foram ver o que estava acontecendo... não deixou lágrimas, nem saudades... com um gênio daqueles não foi de estranhar...
Chegou do lado de lá mais pra lá que pra cá...
Não tinha a menor ideia de onde estava... deixou-se ficar num canto perto da casa que outrora habitara.
Ficou muito tempo lá... sem saber de nada... sem ver nada... sem tomar conhecimento do que se passava ao seu redor...
Isso não foi de todo mau... afinal ficaram lá ele e... suas lembranças. A imagem do pai sempre em sua cabeça... passaram pela sua mente todas as imagens do pai que devotadamente lhe dizia:
- Algum dia alguém vai querer te cobrar tudo isso
Vinha-lhe a mente a resposta pronta que ele sempre dava:
- Que cobre... se puder!
Ao pensar nessa resposta foi que ele percebeu que, sozinho como estava, ninguém poderia cobrar nada dele... ninguém a não ser a sua consciência...
Ao pensar assim a visão se aclarou... ele percebeu que não estava mais só... ao seu lado estavam o Jovelino e também a sua mãe... dona Ismênia.
Foi recolhido por eles e por uma equipe de resgate... levado para uma casa de repouso... lá ficou um bom tempo.
Percebeu a grandeza da justiça divina... começou a pesquisar o que fazer para reparar tantos erros e tantos desacertos.
De sugestão em sugestão foi montando um quebra-cabeça... a sua próxima reencarnação... fazia parte dela, sem dúvida, o Jovelino. E faziam parte dela também uma série de acontecimentos que deveriam forçá-lo a dedicar-se aquele que o amara tanto.
Dona Ismênia viria como uma mãe solteira... que não poderia ficar com o filho, fruto de um amor não correspondido... ela deixaria o filho num orfanato... lá ele ficaria por alguns anos... até quase a adolescência... curtindo o abandono... a falta de carinho... a ausência de uma família... Jovelino o resgataria.
Tudo preparado... assim foi feito.
Hoje, quando o povo vê o Ethevaldo passeando com o filho, não imagina todo o drama, não imagina também que o filho que sorri a todo momento para o pai tão atencioso tenha sido o que foi... Coisas de Deus com certeza, que apesar do ditado escreve sempre certo por linhas certas.
Todos, quando passam por eles, comentam:
- Afinal qual a doença do filho do Ethevaldo?
- Ao certo ninguém sabe... só o que todo mundo sabe é que os dois não se largam...

Espírito: Hilário Silva
Médium: Manolo Quesada
11/02/2007


Nenhum comentário:

Postar um comentário