quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Esquadrão do além - O começo

Eram mais ou menos duas e meia da manhã quando aconteceu uma coisa muito interessante na vida de Juan... ele estava dormindo, mas conseguia agir em outra dimensão. Não conseguia explicar o que estava acontecendo, mas percebia que as coisas tinham consistência, tinham lógica, não era coisa de fantasma, ele não era um fantasma.

As coisas estavam lá, meio diferentes é verdade, mas estavam lá. Ele conseguia ver o quarto dele, a cama, a entrada do banheiro, enfim... tudo estava lá... o seu corpo também.

Como isso era possível? O que estava acontecendo? Chegou pertinho do seu corpo e percebeu que o corpo respirava normalmente, nada estava alterado, o corpo dele estava ali, deitado e vivo!

Arriscou ir até a cozinha e viu uma cena que o confundiu muito... algumas “coisas” estavam mexendo no lixo, ele não conseguia notar do que elas eram feitas, só percebia que eram escuras e não tinham formas definidas, simplesmente mexiam no lixo e tiravam alguma coisa que não eram os restos do lixo...
Mais alguns momentos e ele percebeu que elas retiravam de lá algum tipo de energia, algum tipo de coisa que lhes dava uma sensação de vida, pois eles se regozijavam a cada nova ingestão daquilo.

Ele ficou parado, sem saber o que fazer e resolveu ir até o quintal, deixando para trás as entidades que estavam na cozinha... para chegar até o quintal ele teria que abrir uma porta e não sabia como fazer... tentou e percebeu que suas mãos não conseguiam interagir com o material da maçaneta e, por isso mesmo, pensou que iria ficar lá dentro...

De repente parece que apareceu uma imagem em sua cabeça, parecida com uma cena de filme, um filme que ele havia assistido e que ficara marcado na sua mente, pois todo mundo que assistia ao tal filme chorava e chorava e chorava...

Aí ele viu a cena... entendeu o que o carinha tinha descoberto...
Ele percebeu que para abrir a porta precisaria abrir o próprio pensamento, porque se ele não interagia com a maçaneta, a resposta era que os materiais não combinavam... ele estava do outro lado, quase um fantasma e a maçaneta não... ela estava sólida, muito sólida...

Lembrando do caso ele firmou o pensamento fortemente na possibilidade de atravessar a porta... igualzinho que no filme... parou, pensou e fez a mesma coisa que o Sam... fechou os olhos e se jogou...
Não é que deu certo? Apareceu no meio da rua praticamente, tal a força que empregou para sair da cozinha...

Ainda olhou para trás e não viu nenhuma daquelas estranhas criaturas do lixo... ficou aliviado e olhou em derredor para analisar o que estava acontecendo e percebeu uma movimentação que ele não julgava que fosse possível... ele viu que tinha muita gente na rua, gente de todo tipo...

Ele ficou meio impressionado com tudo aquilo e colocou-se a pensar se seria possível manter um contato com eles, pois eram iguais, eram seres humanos, tinham aparência muito parecida com o que nós achamos que sejam os seres vivos, ou seja, eles estavam vivos, se movimentando...

Notou também que eles eram diferentes entre si, uns tinham como se fosse um rabicho que sai da cabeça e se perdia na escuridão da noite e outros não tinham, os que não tinham o tal rabicho, parecia que estavam conversando, pois ele percebia que alguns movimentos na região da boca, na face, mas não ouvia nenhum som... estava tudo muito esquisito, muito estranho...

Reparou na luz, todo mundo estava visível, mas a luz era diferente, era alguma coisa como uma luz fluorescente, dessas de monitor antigo de computador que ele havia visto num museu, daquele tipo de coisa que não se vê mais no dia a dia, e mesmo assim todo mundo parecia muito normal em termos de visual, parecendo um verdadeiro baile de carnaval, porque cada um estava com uma fantasia diferente, tinha gente com roupa de vários séculos diferentes.

Tinha de tudo, piratas, moças da corte, soldados do tempo do Tiradentes, gente de barba grande, gente sem barba, meninas e meninos brincando como se estivessem no quintal de casa... uma coisa muito louca... ele ficou sem saber o que fazer e sem ter como se comunicar com eles.

Foi aí que apareceu mais uma figura... essa foi de arrasar, pois parecia um super-herói... desses bem bregas... com aquelas roupas tipo histórias em quadrinhos, uma coisa que vendo ninguém acreditaria... ele ficou extasiado, jamais pensaria numa coisa dessas em plena noite e do lado de lá...

Não resistiu e começou a pensar com toda a força do pensamento:
-Quem é você?
Nada de resposta... tentou de novo:
- Quem é você?
Nada...

Foi aí que ele percebeu que o super-herói tinha o tal rabichinho, igual que o dele, ou seja, ele entendeu que o sujeito estava vivo e, como ele, também estava viajando do lado de lá... quando ele percebeu isso, arriscou articular as palavras e disse em claro e bom som:

- Quem é você?
Imediatamente a figura olhou para ele, sorriu e disse em tom bem-humorado:
- Eu sou o Capitão Nova Era...valeu?

- Capitão Nova Era? O que isso quer dizer?

- Isso quer dizer que eu sou um super-herói, diferente dos que já apareceram, eu atuo do outro lado da vida, combato o mal, distribuo felicidade e conserto o mundo espiritual...

- Rapaz... como é que você faz tudo isso?

- Simplesmente chego, fico de olho e ouvidos bem atentos e, ao menor sinal de confusão, eu entro em cena...

- E o pessoal te respeita, não acha meio ridículo essa “roupitcha” esquisita?

A pergunta de Juan era pertinente, pois as roupas do nosso super-herói fugiam ao convencional... era uma mistura de comercial de companhia telefônica com herói de filme japonês dos anos 1960... estava muito engraçado.

- Esquisita nada... é um modelo vintage, muito de acordo com o fato de estarmos aqui onde o tempo e espaço muitas vezes se confundem, pois as lembranças que as pessoas guardam faz com que elas apareçam do jeito que se lembram... eu só lembro de mim como herói e salvador do Universo.

- Quando aconteceu essa história de herói e salvador do Universo?

- São lembranças dos filmes que assisti e que me impressionaram, então eu tomei para mim essa tarefa e produzi esta vestimenta, este uniforme... não gostou?

- Gostei... achei meio estranho mesmo, essa cueca por fora do pijama, fica muito estranho!!!

- Primeiro não é cueca é um maillot de banho, segundo não é pijama é um fuseau... uma calça para exercícios que fica coladinha no corpo e não prejudica os movimentos... meu! você veio de onde que não sabe de nada?

- Eu vim de casa e não sei exatamente como ou porque estou aqui... ainda estou me adaptando a esta nova sensação... eu sei que estou vivo, mas não consigo interagir com tudo, deixei meu corpo lá em casa e ainda não tinha conseguido me comunicar com ninguém... você foi o primeiro...

- Entendi... primeira vez no mundo espiritual de forma consciente... eu entendo... eu também passei poucas e boas, mas agora já estou dono da situação, tenho conhecimento suficiente para me virar e poder ajudar outras pessoas... outros espíritos...

- Espíritos?  Nossa!!!

- Não se assuste não... você é um espírito, eu sou um espirito, todos somos espíritos, cada um no seu momento... mas fique tranquilo que muita coisa vai acontecer e você vai ver que a vida deste lado é bem movimentada, as noites são muito divertidas e cheias de emoção... se prepare, porque tudo está só começando...

- O que está começando?

- A sua vida no além...

- Oi?

- É.. sua vida do lado de cá... a partir de agora você domina a técnica de ir e vir, você vai dormir e acordar do lado de cá e, quando for hora de despertar você volta pro corpo e retoma a vida do lado de lá...

- Não é possível... isso só pode ser um sonho..
.
- Você vai pensar que é um sonho mesmo...  Não vai lembrar de todos os detalhes, mas ficará a lembrança do que passamos deste lado e você sentirá que alguma coisa aconteceu e que você fez parte do acontecimento. Alguma coisa como “já vi isso antes”... se ligou?

- Sei lá... parece tudo muito confuso...

- Fique frio... logo, logo, você se surpreenderá com as possibilidades de ação neste lado....

- Estou escutando alguma coisa me chamar...

- Te vejo amanhã...

De repente, Juan se vê na cama, o despertador tocando rock pesado e o dia todo para ser vivido... enquanto escovava os dentes passaram algumas lembranças pela cabeça... e ele pensou:

- Que sonho louco foi esse?


 Manolo Quesada
18/10/2016

Ilustração: Marcel Camargo Melfi

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